quinta-feira, 25 de junho de 2020

Da Gravidez... - XI (ou da escolha do nome...)

Curiosamente, quando começámos a falar em nomes, rapidamente surgiram várias opções para nomes de menino. De menina, nem por isso...

Lá fomos trocando ideias, íamos falando no assunto antes de adormecer ou em viagens de carro, fomos pensando no assunto, mas sem chegar a grande conclusão.

A dada altura, achei por bem ir pesquisar sobre o dia em que eu achava que ela ia nascer (que não é o dia da data prevista para o parto, porque eu também achei por bem fazer os cálculos à minha maneira - talvez um dia fale sobre isso). E descobri que nesse dia (4 de Julho), tinha nascido a Infanta D. Isabel Maria de Bragança (regente de Portugal), e tinha morrido a Rainha Isabel de Aragão (mais conhecida por Rainha Santa). E, foi assim, que o nome Isabel começou a estar em cima da mesa.

Eu gostei do nome. Ele gostou do nome. É um nome clássico, é um nome tradicional, é um nome de rainha, não é um nome muito comum e não é um nome "da moda". Um dos meus critérios sempre foi, precisamente, ser um nome que não estivesse na lista dos nomes mais utilizados em Portugal em bebés registados no último ano. Manias. Cada um com as suas. 

Não foi uma escolha muito consensual. Houve muito quem dissesse que achava um nome bonito, mas também houve (mesmo na família mais próxima) quem não achasse muita piada. A parte boa disto de termos uma filha nossa é que somos nós que mandamos, não é verdade?

Isabel será.



(nota: é possível que a bebé nasça, entretanto, e é também possível que isto vire meio bipolar, entre eventuais posts agendados e a realidade do momento, por isso, sem grandes promessas ou compromissos, fica a ideia: isto há-de voltar à normalidade, eu hei-de conseguir publicar os mais 137 posts que tenho pensados sobre a gravidez, e eu hei-de vir dar notícias, quando as houver e quando conseguir!)

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Da Gravidez... - VIII (ou de como é estar grávida em tempos de Covid-19...)

Por muitas e variadas razões, esta gravidez está a ser tremendamente diferente daquilo que eu tinha idealizado. Mas a culpa foi minha que idealizei o que quer que fosse. Já devia saber que não valia a pena!...

A Covid-19 não veio ajudar, obviamente.

Se, por um lado, provocou um acréscimo de ansiedade - mais uma variável que não controlamos, numa fase em que já há tanta coisa que não controlamos, por outro lado, veio obrigar a uma série de adaptações a uma nova realidade.

Eu vim para casa no dia 4 de Março. A minha obstetra, pessoa sensata, quis pôr-me logo de baixa, porque, prevendo o que aí vinha, não me queria a andar de transportes e a trabalhar em pleno Chiado. Eu, pessoa igualmente sensata, achei que daria em louca se entrasse de baixa tão cedo, e combinei com a minha entidade patronal que iria para casa, sim, mas que ficaria em teletrabalho até ser possível. Duas semanas depois, o país seguia o meu exemplo e entrávamos em estado de emergência... Copiões!

Eu passei estes últimos quase 4 meses em isolamento e confinamento. E não, nunca me passou pela cabeça que a minha gravidez pudesse ser assim!...

Acho que, lamentavelmente, isto condicionou muito a minha experiência da gravidez. O isolamento, o não ter as minhas pessoas à minha volta, o stress e a ansiedade que cada ida à rua provocavam... Nada disto ajudou a que a minha experiência fosse muito positiva. Eu não me senti particularmente bonita, porque também não me arranjava particularmente, para passar os dias fechada em casa. Eu não tive aquela sensação de ser particularmente acarinhada ou mimada pelas pessoas à minha volta, porque não havia pessoas à minha volta (fisicamente, vá). Eu não me senti resplandecente, a exibir a minha barriga por aí, porque 90% das vezes que saí de casa, foi para ir ao médico.

Eu não andei a passear, a fazer as minhas caminhadas, a combinar almoços e jantares com família e amigos, nas compras a preparar tudo para a chegada da bebé... Não andei a fazer tudo aquilo que tinha pensado, e que achei que poderia fazer para gozar o final da gravidez como ele merece ser gozado.

A juntar a tudo isto, a realidade que algumas grávidas e mães sofreram ainda mais do que eu (se tiveram os bebés nos primeiros tempos de pandemia): o Pai foi excluído do processo, a determinada altura. Ele deixou de poder acompanhar os exames e as consultas. E isto foi estranho. Tive a sensatez de escolher para ter ao meu lado alguém que sempre quis fazer parte do processo, que sempre quis ir às consultas, aos exames, que sempre quis estar tão informado como eu. Mas quis a Covid-19 que isso lhe fosse negado, a partir de meados de Março. E, ainda que compreensível, é triste.

Por último, a Covid-19 condicionou o acompanhamento e a escolha do sítio onde a nossa filha vai nascer. Já por aqui defendi diversas vezes o SNS, e desde o início que disse que queria que o parto fosse num hospital público. Porque acredito que o SNS tem um excelente serviço, tem excelentes profissionais, e é para lá que devemos ir, sempre que precisamos ou em caso de urgência. Lamentavelmente, em determinadas especialidades, e no caso específico da pandemia que estamos a viver, a resposta do SNS não é a mais satisfatória. E sim, a nossa filha vai nascer num hospital privado, contra tudo o que que queria, contra tudo aquilo em que eu acredito, contra tudo o que eu defendo. E porquê? Porque o SNS continua a excluir o Pai do processo. As coisas vão mudando, semana a semana, mas a maioria dos hospitais públicos ainda não deixa o Pai assistir ao parto, e os que deixam é por períodos muito limitados de tempo. A maioria, não permite que o Pai volte a visitar a mãe e o bebé, após o nascimento. Mãe e bebé ficam sós, até ao momento da alta. E, desculpem, mas isto não me faz qualquer sentido. Com Covid ou sem Covid, eu acho que este é um momento que deve ser vivido a três, e acho que o Pai tem de lá estar. Comigo, com a nossa filha, a cumprir o seu papel, que é tão importante como o meu. Percebo (em parte) as limitações impostas pelo SNS, percebo que se resguardem profissionais de saúde e pacientes, e percebo que se queiram minimizar os riscos. Mas, em tendo outra opção, eu opto por não me sujeitar a algo que não me faz sentido. Não foi uma decisão fácil, foi uma decisão muito ponderada, tomada a dois, mas que representa aquilo que, para nós, faz sentido, e que achamos que é o melhor para nós, e para a nossa filha.

Acho que esta pandemia nos vai deixar marcas a todos, miúdos e graúdos, e que está a ter um impacto muito maior do que imaginamos no que somos e no nosso bem-estar. A médio prazo, veremos... Para já, sei que teremos muitas histórias para contar à nossa filha, sobre como foi estar grávida dela e vê-la nascer, numa altura tão particular como esta!

terça-feira, 23 de junho de 2020

Da Gravidez... - VII (ou de como a gravidez não é doença mas...)

Gravidez não é doença,

Quem nunca ouviu isto?...

De facto, gravidez não é doença, mas... 

Mas eu sinto-me muito pouco saudável, na maior parte dos dias.

Ou estou enjoada, ou estou com azia, ou estou com alguma dor, ou fico sem fôlego se subo dois lanços de escada. Gravidez não é doença, mas é cansativo e pode ser exasperante, para alguém que estava habituada a um certo nível de actividade.

Chego ao final da gravidez em modo repouso e a tomar 10 comprimidos por dia.

Se isto é estado de graça, eu não vejo onde está a graça (perdoai a piada óbvia).

Comecemos pelo princípio: os enjoos. Eu não vomitei uma única vez ao longo da gravidez, felizmente. Sei que há mulheres que passam muito pior do que eu e talvez nem me devesse queixar. Mas eu passei tanto tempo tão enjoada, Senhores!... Os enjoos começaram logo no início e esqueçam lá a conversa dos enjoos matinais. Eu tinha enjoos de manhã, à tarde e à noite. Eu tinha enjoos com chá, eu fazia um esforço tremendo a lavar os dentes, eu cheguei a correr para a sanita algumas vezes, eu sofria horrores no caminho de e para o trabalho (entre o percurso a conduzir e o percurso no metro em hora de ponta, não sei o que era pior). Mais ou menos no final do 1º trimestre, eu comecei a tomar o Nausefe. E a minha vida melhorou. Ligeiramente, mas melhorou. Quando comecei a ser acompanhada no privado, a obstetra mandou-me alterar a forma como tomava o Nausefe, e a quantidade. E a minha vida melhorou. Ligeiramente, mas melhorou. Quando comecei a trabalhar a partir de casa, mais ao menos aos 5 meses de gravidez, a obstetra aumentou-me ainda mais a dose. Não o quis fazer antes porque, em teoria, o Nausefe dá imenso sono, e ela não me queria a conduzir com sono. Quando aumentei a dose, a minha vida melhorou mais significativamente. Os enjoos diminuíram e eu comecei a sentir-me melhor. Curiosamente, há 3 ou 4 semanas, eu achei que era boa ideia reduzir a dose do Nausefe. Pensei eu para mim que, em estando no final da gravidez, já não haveria de ter enjoos. Pois... Má ideia. Bastou o primeiro dia, para eu chegar a meio da tarde terrivelmente enjoada, e perceber que hei-de tomar o Nausefe até entrar para a sala de partos. E está tudo bem.

Não me posso esquecer de uma conversa telefónica que tive com o meu Pai, em que eu comentava os enjoos e ele me dizia:
- Oh, deixa lá! Dizem que isso depois dos 3 meses passa.
- Sim, Pai. O problema é que eu já faço 5 meses para a semana!...
- Ah! Então fazes parte da excepção que há sempre em todas as regras...

Podia ser pior, eu sei.

A juntar às coisas chatas da gravidez que, não sendo doença, pode fazer-nos sentir doentes, resolvi arranjar mais uma coisa gira: Síndrome do Tunel Cárpico.

Diz que é coisa que afecta 25% das grávidas. Não é tão raro assim, portanto. Surge graças às maravilhosas alterações hormonais que o corpo sofre durante a gravidez e ao inchaço natural deste estado.

Desde cedo na gravidez que eu sentia as mãos mais dormentes do que o normal. Com coisas simples e básicas (como estar mais tempo ao telemóvel), eu ficava com as mãos dormentes. Achava que era normal, e desvalorizava. E andei assim uns tempos. Até que ali pelos 6/7 meses de gravidez, a determinada altura, eu comecei a acordar a meio da noite cheia de dores na mão direita. A sensação que tinha era de que os dedos estavam a arder e dedos e mão estavam inchados. Estávamos em plena pandemia, e eu não queria ir ao médico por causa disso. Fiz uma teleconsulta e disseram-me que devia ser o dito Síndrome. Mandaram fazer gelo, repouso e ver se passava. A coisa melhorou, mas ao fim de umas semanas voltou a piorar, já me afectava as duas mãos, e eu achei melhor marcar uma consulta de ortopedia. Confirmou-se o diagnóstico e vim de lá com uma tala, para usar durante a noite, que imobiliza a mão e impede o pulso de dobrar (que é o que provoca as dores, ao comprimir o nervo). E é assim que eu estou há mais de um mês a dormir com uma linda tala, que dá imenso jeito (só que não). É chato. Não é nada do outro mundo, mas é chato. Voltei a conseguir dormir, só acordando com um ou outro desconforto pontual, e durante o dia tenho algumas dormências e dores nas articulações, mas estou bem melhor. Diz a médica que, depois do parto, pode demorar até 2 meses a passar completamente... O que vai dar imenso jeito com uma recém-nascida para cuidar. Mas tudo bem.

Mas... E porque nem tudo é mau... Há uma série de outras coisas que são comuns na gravidez e das quais não me posso queixar: não tenho grandes dores nas costas, não estou particularmente inchada, ainda consigo andar sem parecer uma pata, não tenho grande sono (antes tivesse)... 

Não, nem tudo é mau. Mas a verdade é que me custa lidar com estas limitações que o meu corpo me auto-impõe, sinto-me meio inútil na maior parte dos dias, e não estou a adorar esta fase. Mas diz que está quase a acabar...

Do que pensamos que é a vida dos outros, que raramente é o que a vida dos outros realmente é...

Soubemos este fim-de-semana da morte do actor Pedro Lima e muito se tem dito e escrito sobre isso nos últimos dias. Por todo o lado, se multiplicam as fotografias, as homenagens, as últimas palavras, as mensagens de apoio.

Também não têm faltado os textos de partilha de quem já passou por uma depressão, de quem já esteve no fundo do poço, de quem já viu de perto o difícil que a vida pode ser. Partilham-se desabafos, desenterram-se fantasmas, dão-se conselhos. Por todo o lado, a mensagem é unânime: não tenham vergonha e peçam ajuda.

O problema reside, precisamente, aí: pedir ajuda. Sobretudo, pedir ajuda em relação a algo que ainda é tão tabu na nossa sociedade. Nós não falamos sobre saúde mental. Nós achamos que tudo o que diga respeito ao foro psiquiátrico, é coisa de maluquinhos. Nós não estamos conscientes para procurar em nós sintomas de um possível desequilíbrio mental. Falando pelas mulheres, dizem-nos para fazermos citologias, para fazermos o auto-exame do peito, para controlarmos os sinais e manchas que temos no corpo e a sua evolução, e todo um sem fim de coisas a que devemos estar atentas, cuidando do nosso corpo, que é só um. Mas em momento algum nos dizem para estarmos atentos ao que nos vai na alma, ao que nos passa pela cabeça, ao nosso estado de espírito. Não há um despiste, não há uma lista dos sinais de alerta a que devemos prestar atenção, não há um protocolo de como devemos cuidar da mente, como cuidamos do corpo.

Se estamos em baixo, é porque a vida é difícil, é a pressão do trabalho, é o dinheiro que não estica, é a rotina do dia-a-dia que cansa. Se estamos desanimados, dizem-nos que logo passa, que as férias estão aí à porta, que uma noite de copos tudo resolve.

Se um amigo tem febre, não hesitamos em dizer-lhe que tome paracetamol e que vá ao médico, caso não passe. Se um amigo nos diz que se sente sistematicamente em baixo, na melhor das hipóteses, sugerimos um jantar, uma conversa para desabafar. Na pior das hipóteses, trocamos umas mensagens com palavras de consolo e assobiamos para o lado, que isto a vida é difícil para todos e todos temos os nossos problemas.

É fácil dizer: peçam ajuda. Difícil é oferecer essa ajuda a quem é incapaz de a pedir. Porque pedir ajuda é uma tarefa hercúlea para quem nem percebe bem o que se passa consigo... Quando achamos que estamos, de facto, maluquinhos, torna-se difícil, senão mesmo impossível, reconhecer isso perante os outros, quanto mais pedir ajuda!... O problema das doenças do foro psíquico é que, raramente, nos apercebemos delas. Raramente temos consciência que delas padecemos. Raramente percebemos que precisamos de ajuda. E vamos andando, no lento correr dos dias, de sorriso de dia e lágrimas de noite, num desespero profundo, sem perceber o que se passa, achando que está tudo bem e que nós é que fazemos tempestades em copos de água, que temos tanta coisa boa na vida, que somos uns ingratos e insatisfeitos permanentes. À nossa volta, tudo nos diz que devíamos estar felizes. Dentro de nós, tudo nos faz sentir miseráveis. E não percemos. E, em não percebendo, também não percebemos por que raio haveríamos de pedir ajuda, se nem saberíamos para quê pedir ajuda. 

A depressão é uma merda. É uma grandessíssima merda. Porque não é visível. Porque não vem no relatório de um exame. Porque ainda olhamos para ela como uma coisa abstracta, intangível, subjectiva. E é uma merda. 

E enquanto, todos e cada um de nós, não mudarmos a forma como olhamos para a nossa saúde mental, enquanto não formos todos sensibilizados desde cedo para tomarmos conta do espírito como tomamos conta do corpo, vai continuar a ser uma grandessíssima merda. Porque vamos continuar sem pedir ajuda. E vamos continuar a assistir a estas tragédias que nos deixam em choque, impotentes, culpados. 

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Da Gravidez... - VI (ou dos testes e exames diversos...)

Ao longo da gravidez, são muitos e variados os testes e exames que fazemos. Alguns são obrigatórios, mas alguns são opcionais.

Nunca tive grande problema com médicos, nem exames, nem agulhas, e sempre encarei tudo com alguma tranquilidade, perante a inevitabilidade da sua existência.

Já perante os não inevitáveis, surgiram algumas dúvidas.

Por já ter 35 anos (e ter feito os 36, entretanto), levantou-se a questão de fazer, ou não, a amniocentese. Foi nesta fase que começámos a ser seguidos por uma obstetra no privado, porque achámos que a médica de saúde não nos podia dar o acompanhamento e esclarecimento suficientes, em temas mais complexos e sensíveis. E foi também nesta altura que se deu um dos momentos em que percebi que, a partir do momento em que engravidamos, o nosso corpo deixa de ser apenas nosso. Falámos com a obstetra, que recomendou o teste Harmony e não a amniocentese. Sem surpresas, claro. E eu acabei por fazê-lo. Mais por vontade dele do que minha, confesso. Mas a minha vida deixou de ser só minha, a partir do momento em que comecei a carregar em mim a nossa filha.

Outro dos exames mais afamados que se faz durante a gravidez é a Prova de Tolerância à Glicose Oral, que consiste em tirar sangue em jejum, beber um "xarope" muito açucarado, e depois tirar sangue outra vez, ao fim de 1 e 2 horas, para ver como o corpo processa a glicose. A maior parte das pessoas diz horrores deste exame. Que custa, que é horrível, que dá vómitos. Eu ia preparada para o pior. Pois que, chegada a hora, pedi que me dessem o sabor a limão e em versão fresca, e bebi aquilo tudo quase de uma vez. Quando acabei, juro que a única coisa que me ocorreu foi: quem acha que isto é horrível, nunca provou certos géis da Prozis. A sério! Não é assim tão mau, e não custa assim tanto.

Claro que, depois disto, achava-me a maior, porque não me tinha custado nada. O pior estava para vir... Tive uma quebra de tensão brutal, e acabei deitada nas cadeiras da sala de espera, com toda a gente que entrava na clínica a olhar para mim... As figuras que uma pessoa faz!... Eventualmente, fiquei melhor, fiz as duas colheitas de sangue, fui tomar um bom pequeno-almoço e voltei para casa. Eu sou pessoa que precisa de comer, e as análises em jejum e eu nunca nos demos muito bem... Curiosamente, essa foi a última vez que tomei o pequeno-almoço fora de casa, estávamos nós no início de Março.

Mas... Não fiquei por aqui, no que a quebras de tensão diz respeito... Quando fiz a primeira CTG (há umas semanas), estava toda entusiasmada, porque ia estar a ouvir o coração da bebé e a ver as contracções do meu útero. O entusiasmo durou uns bons 3 minutos, depois do exame começar. Comecei com os calores, comecei a sentir-me enjoada, comecei a sentir-me tonta. Chamei o enfermeiro, que foi impecável, e rapidamente me deitou e pôs de lado, deu-me água, ofereceu-me um rebuçado, e tratou de me medir a tensão (que tinha medido antes de começar o exame e estava óptima). Estive lá cerca de 40 minutos, com a tensão a ser medida muitas e diversas vezes, e cheguei ao incrível valor de 65/38... Já tinha dois enfermeiros e uma médica à minha volta. Eventualmente, fiquei melhor. Aqui, acho que o problema foi o calor que estava na sala de exames e o raio da máscara que estava a usar. Esta treta da Covid-19 tem estas implicâncias, e obriga a que nos adaptemos a toda uma nova realidade. E sim, em ambientes quentes, custa respirar com a máscara. E eu achei que me ficava ali... A bebé? Estava óptima, na sua vidinha, a dar os seus pontapés.

Nesta fase, no que a exames diz respeito, falta-me apenas uma CTG (já fiz mais duas, entretanto, e sobrevivi sem quebras de tensão!), e falta-me fazer o exame da Covid... Se a princesa não se lembrar de nascer mais cedo!...

Houve alturas em que entre consultas, exames e análises, senti que precisava de toda uma agenda, só para o seguimento da gravidez... Mas a verdade é que cada exame, cada análise, cada ecografia, nos tranquiliza um bocadinho mais, na ansiedade constante que é saber se este pequeno ser que habita em nós, estará bem de saúde.

domingo, 21 de junho de 2020

Da Gravidez... - V (ou da gravidez e do exercício físico...)

Eu sempre achei que seria daquelas grávidas super activas durante a gravidez. 

Já tinha lido sobre o assunto e, quando descobri que estava mesmo grávida, li ainda mais sobre o exercício físico na gravidez, em geral, e sobre a corrida, em particular. Tinha uma perspectiva muito idílica da gravidez e do treino e achava que ia continuar a treinar como se nada fosse.

Depois aconteceu a realidade. E voltamos, pela 3ª vez, à bela lição nº 1 da maternidade, já por aqui referida: nada será como tinhas planeado. E não foi.


Eu continuei a correr nos primeiros tempos. Pouco, mas ia correndo.

Quando, uma semana depois de sabermos que eu estava grávida, tivemos a Family Race, decidimos que não fazia sentido fazer os 15km. Eu não andava a treinar para fazer 15km e, se em circunstâncias normais, eu teria ido na mesma nem que demorasse 3 horas, naquelas circunstâncias, seria só parvo insistir nisso.

Talvez agora faça mais sentido para algumas pessoas por que raio eu só fiz 6 ou 7km da prova... Está explicado!

História curiosa: lembro-me de ir na prova, nos primeiros quilómetros que fiz com o João Lima e de irmos entretidos na conversa, como sempre. Perguntava-me ele que maratonas é que tínhamos previstas para os próximos tempos, e eu disse-lhe que o louco mais louco do que eu estava a pensar ir fazer Valência em 2020, mas que eu não estava a pensar nem nessa nem em maratonas nos próximos tempos. O João, insistindo, perguntou-me se eu não tinha assim nenhuma nos meus sonhos que gostasse de fazer este ano. Eu, sem me descoser, disse-lhe que os meus sonhos para este ano eram outros. Felizmente, a conversa morreu ali, comigo a rir-me por dentro, e com o João talvez a pensar que eu ia desistir de correr.

Pouco tempo depois, fui fazer um treino na expo, porque queria mesmo continuar a correr, mas ao mesmo tempo passei o treino todo a pensar se estaria a fazer a coisa certa ou se estaria a correr o risco de hipotecar algo tão importante, só pelo capricho de continuar a correr. Incrível como, grávida de tão poucas semanas, e já todo o meu esquema mental se estava a alterar e tudo girava à volta daquele pequeno ser dentro de mim!... Acabei por falar com a minha médica de família sobre isso, que me disse apenas para ter juízo e reduzir a intensidade.

Duas semanas depois da descoberta, tivemos os Trilhos de Casainhos. Na altura, escrevi para mim: O meu regresso aos trilhos, por um lado, e provavelmente o meu último trail durante uns tempos, por outro. Ele foi amoroso e fez a prova comigo. Morreu de tédio, mas não saiu de ao pé de mim um segundo, sempre preocupado, sempre a perguntar se eu estava bem. Já não me lembro da última vez que tínhamos feito uma prova juntos, mas foi muito bom este regresso. Se não tivesse feito a prova com ele, muito provavelmente, teria desistido. Tê-lo ao meu lado ajudou-me a acalmar e a não estar constantemente a pensar no disparate que era estar a pôr em risco esta gravidez pelo capricho de fazer aquele trail. Vá, não foi um risco assim tão grande quanto isso, se tivermos em consideração que demorei quase duas horas e meia para fazer aqueles 15km. Digamos que fomos dar um passeio pelo monte, inseridos numa prova de trail. Não me andei a matar, não andei no limite, caminhei sempre nas subidas e abrandei sempre que senti que o ritmo cardíaco estava a disparar. Tentei esquecer-me que estava grávida e tentei aproveitar. As saudades que eu tinha de andar nos trilhos!... Do verde, dos single tracks, da lama (nem tanto), dos cheiros e dos sons... Sim, provavelmente foi a minha despedida dos trails durante muito tempo. E, por isso mesmo, valeu a pena!

Seria mesmo a minha despedida dos trails. Ainda estava inscrita em mais duas provas (Picos do Açor e Trilhos dos Reis), mas não me sentia mesmo confortável em andar sozinha no meio dos trilhos, com tudo o que isso implica. Se correr em estrada tem os seus riscos, mas em qualquer altura paramos e temos assistência, quando andamos nos trilhos qualquer pequena queda (e eu sou pessoa que gosta de cair nas provas de trail...) pode provocar estragos e pode acontecer em sítios inacessíveis e aos quais a ajuda pode tardar em chegar. Assim, despedi-me dos trails em Casainhos, e foi uma bela despedida!

Já das provas de estrada, demorei mais um bocadinho a despedir-me.

Ainda fiz as duas primeiras provas do Troféu de Oeiras (Porto Salvo e Cruz Quebrada), fiz a São Silvestre de Lisboa e fiz a São Silvestre dos Olivais em modo caminhada.

A São Silvestre de Lisboa acabou por ser a minha última prova. Nem cheguei a escrever o relato da prova, porque não saberia explicar por que motivo demorei 1h15 a fazê-la. Agora é fácil perceber. Eu sabia que não queria faltar a esta prova. Foi a minha primeira prova de 10km de sempre e é aquela a que todos os anos volto, sem falhar. Também foi a primeira prova que fizemos a dois, em tempos idos. E, em 2019, eu não ia falhar. Fui, ciente de que faria o que conseguisse, como conseguisse, sem me preocupar com tempos ou ritmos. E assim foi. Tive a companhia do meu pai durante uma boa parte do tempo, mas aos 6km disse-lhe que seguisse, porque eu precisava de caminhar um pouco. Estávamos no Terreiro do Paço e, a partir daí, fui alternando corrida e caminhada, preocupada, com algum desconforto e com medo de fazer algum disparate. No final, cortar aquela meta teve um sabor especial. Foi a primeira São Silvestre de Lisboa da nossa filha. De muitas, não tenho dúvidas!

Acabei por não fazer mais provas... Ainda corri algumas vezes e ainda fui algumas vezes ao ginásio, durante estes primeiros 3/4 meses de gravidez.

Mas depois... Depois veio a dura realidade: eu não tinha vontade. Eu andava cansada e permanentemente enjoada. Chegava ao final do dia e a última coisa que me apetecia era treinar. Acabei por cancelar o ginásio e arrumar os ténis.

Depois veio a Covid-19, eu vim para casa em teletrabalho e em reclusão total, e parei completamente de treinar. Ao fim de algum tempo, comecei a fazer uns treinos de força que via no YouTube, e ao fim de mais tempo ainda, com indicação médica, eu comecei a fazer pequenas caminhadas na expo e aqui no bairro.


Depois veio a indicação de repouso e tenho estado parada. E é isto.

Uma pessoa até queria... Uma pessoa tinha mil e uma expectativas e mil e um sonhos... Mas depois acontece a vida. 

De tudo o que li e investiguei sobre o tema, tudo indica que quem já tem uma vida activa e pratica desporto, pode e deve continuar a fazê-lo (com eventuais adaptações, que devem ser vistas caso a caso). O desporto faz bem ao corpo e à alma, e pode ser uma grande ajuda na preparação para o parto e na recuperação do mesmo.

Tenho pena, tenho mesmo, de não ter treinado mais e durante mais tempo. Mas os enjoos e a preguiça tomaram conta de mim... Resta-me esperar por poder regressar aos treinos depois dela nascer!

sábado, 20 de junho de 2020

Da Gravidez... - IV (ou dos primeiros dias depois da descoberta...)

Os primeiros dias (semanas?) depois de sabermos, foram de um misto de emoções.

Eu estava bastante incrédula. Olhei para o teste de gravidez várias vezes ao longo dos primeiros dias. Mas ele continuava imutável, com uma sentença clara: estava grávida. Não me parecia real. Não acreditava. Não me sentia grávida. Nem podia, claro está. Não me emocionei. Não chorei. Não tremi. Não senti as pernas fraquejar nem borboletas no estômago. Porque não acreditava bem no que estava a acontecer e estava assustada com o que aí vinha.

Obviamente, decidimos esperar antes de contar a quem quer que fosse. Fui fazer a primeira consulta, as primeiras análises, e quisemos também esperar pelas 8 semanas para contar à família mais próxima. Para nós, foi o que fez sentido.

A pouco e pouco, a ficha foi caindo. Eu fui tomando consciência do que aí vinha, e dei comigo preocupada com coisas que antes não me passavam pela cabeça e mais alerta para o mundo em geral. Mais cuidadosa para não escorregar no chão e não cair (coisa não tão rara assim em mim...), a olhar 3 vezes antes de atravessar a passadeira, a ver e rever listas de ingredientes antes de comer o que quer que fosse... 

Escrevi na altura: O meu corpo deixou de ser só meu. O meu corpo é, também, deste ser que agora o habita. E é, também, dele. Como lhe disse no Domingo, uma parte dele está dentro de mim. Os genes dele estão dentro de mim. E não sei se pode haver maior representação do nosso amor do que essa: agora, carrego-o comigo todos os dias. E é incrível!

Com as certezas do que estava a acontecer, e as análises que confirmaram o óbvio, começaram a surgir os primeiros receios e dúvidas. Estava a dar início ao maior desafio da minha dúvida, ao mais definitivo, ao que representava a maior responsabilidade da minha vida. E isso era aterrador.

Menos de uma semana depois de descobrirmos, demos início à primeira viagem a dois depois de sabermos. Primeira viagem a três, na verdade. Destino? O Porto. O Porto que foi o destino da primeira viagem a dois que fizemos juntos. Coincidência ou outra coisa qualquer. Assistimos ao concerto dos Ornatos, estivemos com um monte de gente boa (o Perneta ficou a dever-me um gin!), e ainda dei um passeio pela Family Race. Foi um fim-de-semana alargado cheio de memórias boas, e com aquele sorriso cúmplice de quem guardava um segredo tão nosso.

As primeiras semanas mantiveram-se neste misto de sentimentos: incrédulos, felizes, assustados. Numa montanha-russa de emoções constante. Que nem sequer podíamos partilhar com ninguém.

Releio o que escrevi na altura e parece mesmo que foi noutra vida... O tempo voou e diria que os sentimentos se mantêm: continuamos igualmente felizes e assustados. Mas está tudo bem.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Da Gravidez... - III (ou de como tudo começou...)


Corria o longínquo mês de Outubro.

O meu período já estava atrasado uns dias, ainda que eu não soubesse dizer quantos. 

Depois de ter deixado de tomar a pílula, o meu período foi tudo menos regular. Por isso, quando lhe disse que achava que o meu período estava atrasado, não lhe soube dizer quantos dias. Dei-me ao trabalho de calcular a média do meu ciclo nos últimos seis meses. 27 dias. O único assim mais longo tinha sido de 29 dias. Pelo menos nisso, o meu corpo foi generoso comigo e não andou a brincar comigo e a criar-me falsas expectativas, enquanto andámos a tentar.

Ainda assim, quando este ciclo chegou aos 29 dias, eu tentei ser racional e pensar que era só mais um ciclo mais longo, que tinha sido um mês particularmente stressante (com dois dias de 12 horas de trabalho, com um dente arrancado, e com mais coisas que não interessam para aqui). 

Quando chegou aos 30 dias, eu achei que era normal, e achei que as dores que sentia ao fim do dia no fundo da barriga e no peito, eram apenas sintomas de um período que estaria a chegar. 

Quando chegou aos 31 dias, falei com ele. Ele, ainda mais racional do que eu, perguntou se não poderia acontecer saltar um período. Não, não poderia. Na versão simplista da coisa, pelo menos. Eu sabia que tinha ovulado, por isso, o período havia de aparecer. Também sabia que tinha ovulado mais tarde do que o normal, por isso, achava perfeitamente normal que o período viesse mais tarde. 

Quando chegou aos 32 dias, disse-lhe que estava a dar em louca. Que precisávamos definir um prazo para considerar que eu estava mesmo com um atraso e que havia uma possibilidade... Decidimos esperar até ao Domingo seguinte, que seria o dia 34 do meu ciclo. Li na net muitos relatos de mulheres que, antes mesmo de terem o período atrasado, já estavam a fazer testes de gravidez. Não me identificava minimamente com isso e pareceu-me bastante razoável esperar pelo dia 34. Sabia que ia ter dificuldade em lidar com um resultado negativo, por isso, quis fazê-lo apenas quando o atraso já era evidente. 

Sábado. Fomos ao supermercado e eu comprei o teste. Não fui a correr fazê-lo. Mais uma vez, não queria lidar com um resultado negativo, por isso, quis garantir que o fazia na melhor altura para os melhores resultados: de manhã. 

Domingo. Dia 27 de Outubro e dia 34 do meu ciclo. Acordámos super cedo, graças à mudança de hora. Ele foi à casa de banho e voltou para a cama. Passado um bocado, perguntou-me se não queria ir também à casa de banho e fazer o teste. Tínhamos combinado que era ele que ia ver o teste. Mais uma vez, eu não queria ter de lidar com um resultado negativo, por isso, fiz a coisa egoísta e quis deixar essa responsabilidade para ele. 

Fui à casa de banho, reli as instruções todas, vi-me aflita para tirar o teste de dentro da embalagem (e ainda pensei que o pudesse ter estragado, por isso, se desse negativo, podia ser por isso - toda eu a inventar desculpas...). Lá fiz chichi para a palheta. Contei os segundos. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Nem mais, nem menos, para não estragar o teste. Pus a tampa na palheta e pousei o teste no lavatório, na horizontal, como mandavam as instruções. Acabei de fazer chichi. Arrumei a embalagem vazia e preparei-me para lavar as mãos. Olhei para o teste. Vi a linha de controlo aparecer. Pensei que estava tudo bem e ainda bem. Comecei a ver ao lado a outra linha a aparecer. Gritei pelo nome dele. Gritei outra vez e insisti para que ele viesse à casa de banho. 

- Então? 
Mostrei-lhe o teste. 
- O que é que isso quer dizer? 
Dei-lhe o papel das instruções para a mão, apontando para a parte que explicava os resultados. 
- Então mas não era preciso esperar 3 minutos? 
- Supostamente... 
- Então mas isso pode não estar bem. Vamos esperar os 3 minutos. Vá, anda para a cama. 

Não sei qual dos dois o mais incrédulo. Voltámos para a cama e eu expliquei-lhe a lógica do funcionamento do teste e falei-lhe na beta HCG. Entretanto, passaram uns minutos e ele foi à casa de banho outra vez. Voltou passados uns segundos, para vir buscar o telemóvel porque queria tirar uma fotografia. 

Era real. Estava grávida.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

De Berlim... - VI - Notas soltas...

Quando fomos para Berlim, já a Covid-19 andava a dar ares de sua graça pela Europa. Ainda não havia casos em Portugal mas já havia na Alemanha e nos dias antes da viagem eu ia, religiosamente todos os dias ao site da WHO, ver o número de casos em cada país. Quando fomos para a Alemanha, tinham 16 casos, se não me engano. Tivemos dúvidas, sim. Questionámos de devíamos ir. Falei com a minha médica e o que ela me disse estava alinhado com o que a WHO dizia na altura: não havia indicação para não se realizarem viagens dentro da Europa. E nós fomos. Fomos com meia-dúzia de máscaras atrás (just in case) e com álcool-gel, que usávamos várias vezes ao longo do dia, sobretudo quando tínhamos de carregar em botões, mexer em maçanetas, etc., e sempre antes de toda e qualquer refeição. Enquanto estivemos em Berlim, foram raríssimas as pessoas que vimos de máscara, vimos algumas a usarem o álcool-gel, e a meio da viagem vimos afixarem no nosso hotel um documento a alertar para as boas práticas que cada um podia/devia ter, para evitar a propagação do vírus, bem como os sintomas e sinais de alerta. As coisas ainda estavam relativamente tranquilas, apesar de rapidamente terem descambado em Itália, e nós sentimo-nos relativamente tranquilos.

Esta viagem era particularmente importante para nós, mais do que pelo meu aniversário, mas por ser uma espécie de babymoon: a nossa última viagem a 2, antes da nossa vida dar uma volta de 180 graus e da vida como a conhecemos até agora, mudar completamente. A partir de agora, tudo será diferente. Talvez por isso mesmo, a viagem foi ainda melhor, mais especial, mais nossa. Apesar da minha rabujice, das minhas birras, das minhas hormonas, das crises de choro sem razão aparente. Tivemos muitos momentos muito bons e sei que vamos sempre guardar esta viagem com um carinho especial.

Berlim não é uma cidade que eu tenha adorado ou que ache inesquecível. No entanto, é uma cidade que eu acho que merece uma visita. É daquelas cidades que toda a gente devia visitar uma vez na vida. Porque é mesmo uma cidade única. Berlim é uma mistura de novo e velho, sendo que há muito pouco de velho. Enquanto que noutras cidades europeias temos centros históricos antigos, temos muitos monumentos, temos edifícios com 300 ou 500 ou mais anos, em Berlim há pouco de velho e há muito de novo. Há obras em toda a parte. Há uma cidade que ainda não parou de crescer. E há um peso muito grande de tudo o que ali aconteceu. Há uma carga emocional tremenda. Há uma herança pesada, e um olhar para um futuro que se quer diferente, livre, sem tabus.

Algumas dicas sobre a cidade:
  • a cidade é barata - transportes, refeições, alojamentos, etc. Consegue visitar-se bem a cidade sem gastar muito dinheiro, há muita coisa gratuita para ver e a oferta de restaurantes (para todos os bolsos) é infinita.
  • os transportes funcionam muito bem - estamos na Alemanha, não é verdade? Não é muito fácil perceber como funcionam os bilhetes (há partes do site oficial que nem traduzidas estão...), mas há um passe de 7 dias que custa 34€ e que pode compensar. Sobretudo, porque inclui o acesso ao aeroporto de Tegel, e permite viagens gratuitas para crianças até aos 6 anos ou um acompanhante adulto que viaje com o portador do passe, nos dias de semana a partir das 20h, aos fins-de-semana e aos feriados (quão interessante isto é?!). Existe uma aplicação que permite comprar e gerir os bilhetes, podemos pagar por paypal, e em todo o processo há zero papel e zero dinheiro (físico) envolvido. Gente evoluída, hein?
  • é normal pagar para ir à casa de banho na maior parte dos sítios - 20 ou 50 cêntimos são suficientes.
  • a generalidade das pessoas falam inglês, ainda que não sejam muito simpáticas.
  • os supermercados têm preços muito simpáticos, sobretudo se compararmos os ordenados deles com os nossos. Foram uma opção para lanches, fruta e snacks mais saudáveis.
  • há produtos que para nós ainda são premium e caros, e que lá encontramos ao preço da chuva no supermercado. Exemplo: desodorizante de pedra de alúmen. É uma coisa muito específica, eu sei, e talvez venha a falar sobre ela, porque faz parte da minha caminhada contra o consumo excessivo de plástico e de materiais demasiado processados e industrializados que insistimos em colocar no nosso corpo. O que é certo é que lá o selo "bio" e "natural" não implica a inflação de preços que implica cá e vale a pena.
  • relativamente perto de Berlim há um campo de concentração/memorial - o Sachsenhausen. Fica a cerca de uma hora de transportes de Berlim e a entrada é gratuita. Nós optámos por não ir lá, com muita pena minha, mas íamos perder muito tempo e não dava para tudo. Fica a sugestão, para quem queira visitar um espaço destes.

E, por agora, acho que chega. Foi, como já disse, uma viagem inesquecível, por muitos e variados motivos.

Não consigo dizer o que gostei mais em Berlim. Para mim, não há algo que consiga assinalar. Para mim, Berlim é um todo. É pouco provável que lá volte, mas gostei mesmo de Berlim, por contraditório que isso possa parecer. Serei a única a ter sentido isto?

quarta-feira, 17 de junho de 2020

De Berlim... - V

O último dia em Berlim foi o dia de regresso e não fizemos nada de especial.

Ou melhor, eu não fiz. Ele levantou o rabo cedo da cama e foi fazer um pequeno treino de 22km, cujo trajecto coincidia em boa parte com o percurso da meia-maratona de Berlim. Eu fiquei na cama a dormir, com uma (ligeira) inveja dele, que teve oportunidade de conhecer algumas zonas da cidade que eu não cheguei a conhecer. Digam o que disserem, mas correr é também uma excelente forma de conhecer uma cidade!

Fizemos o check-out, fomos em direcção à Estação Central, comprámos o pequeno-almoço e partimos em direcção ao aeroporto (são cerca de 40 minutos de comboio). Acho que já aqui disse que o aeroporto de Tegel é meio estranho... Que é. Ou é diferente, vá. Achei curioso que cada vôo tivesse o seu controlo de segurança próprio, que dava acesso à sua porta de embarque. Completamente diferente do que temos cá e do que já vi por esse mundo fora... Os alemães lá devem saber!

Chegou a hora de embarque e a hora da maior surpresa do dia... O meu irmão foi, literalmente, buscar-me a Berlim! Nem imagino a minha cara quando o vi! São estas pequenas coisas que ficam na memória, não é verdade? Para ele, foi mais um dia de trabalho, para mim, uma surpresa que não esquecerei... E a confirmação do que já achava: aterrar e descolar no cockpit é muito giro, mas não é para mim.


 




E assim terminou a viagem a Berlim... Segue-se um post com notas diversas sobre a viagem e a cidade.

terça-feira, 16 de junho de 2020

De Berlim... - IV

Chegámos ao 4º dia em Berlim. 29 de Fevereiro. O meu aniversário, pois claro!

Como nota prévia, importa dizer que no último 29 de Fevereiro eu tinha acordado em Praga, na minha primeira viagem que fiz sozinha, naquilo que parece ter sido toda outra vida. Não deixa de ser curioso como em 4 anos apenas, a vida pode mudar tanto!...

Começámos o dia com um pequeno-almoço mais especial, num espaço muito engraçado que descobrimos perto do hotel, o Café Bell Chicco, e que, sendo Sábado, tinha menu de brunch a um preço simpático.



De barriga (bem) cheia, rumámos novamente à Ilha dos Museus, para deixar a alma cheia no primeiro museu do dia: a Alte Nationalgalerie, com obras dos séculos XIX e com destaque para as colecções do Romantismo e do Impressionismo.

A Catedral de Berlim, que só vimos por fora.
Dizem que a vista da cúpula vale a pena, mas os 270 degraus que são precisos para lá chegar,
não combinavam com o meu estado.



Eu adoro o Rodin...
Se um dia voltar a Paris, é só para ir ao museu dele outra vez.

 
Monet...
Pronto, se voltar a Paris, também é para voltar ao Museu d'Orsay.

Mais Monet, porque Monet nunca é demais.

Seguiu-se um almoço super decadente: no Burgermeister. É uma cadeia de fast-food com vários espaços, e apresentam-se como o melhor hamburguer em Berlim. Têm uma opção vegetariana e também são famosos pelas batatas fritas com queijo e jalapeños. O espaço não é feito para lá ficarmos muito tempo... Diria mesmo que o ideal é comprar para comer fora. Mas é toda uma experiência e vale a pena!


Depois do almoço, seguimos para a Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche. É uma igreja memorial construída nos finais do século XIX, e que ficou muito destruída num bombardeamento em 1943. Parte foi reconstruída, mas a maior parte foi deixada como ficou, tornando-se num memorial. Junto a esta igreja foi construída uma nova, com vários espaços, e com um interior único, coberto de vitrais em tons de azul, onde se destaca um crucifixo enorme. As fotos não fazem justiça ao que este espaço é, pelo que só mesmo lá indo...




Dica curiosa: atravessando para o outro lado da estrada, há um centro comercial - o Bikini Berlin. Lá dentro, encontram umas escadas que levam ao piso superior, e onde há acesso a um terraço muito simpático de onde se tem vista para... O Jardim Zoológico de Berlim! Não dá para ver muito, mas sempre se vêem alguns animais, incluindo as suricatas. E quem é que não gosta de ver suricatas?!... O espaço está mesmo preparado para esta observação do zoo, com bancos e placas a indicar os animais que vemos de cada sítio. Numa próxima ida a Berlim, o zoo não me vai escapar!


Daqui, seguimos para a Gemäldegalerie, mais um museu, com obras da pintura europeia do século XIII ao XVIII, e destaque para as obras de Rembrandt. Para quem não sabe, eu estudei História da Arte (noutra vida), pelo que passar o dia do meu aniversário rodeada de obras dos meus artistas favoritos, fez-me todo o sentido.

Raffaello

Botticelli
Ainda demos uma volta a pé, e passámos pelo Kultur Forum, onde vimos o edifício da Berliner Philharmonie, antes de regressarmos ao hotel.


Para o jantar, escolhemos um italiano maravilhoso: A Mano. Comemos lindamente, o serviço era super simpático com italianos a sério (que falavam connosco em italiano, assumindo que se éramos portugueses, os percebíamos perfeitamente), e ainda tive direito a uma sobremesa com vela e parabéns!



O dia chegou ao fim e a viagem também estava a terminar...

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Das fotografias que dão alegria... - Day 167


A foto é de ontem, mas faz de conta.

Ontem fomos em busca da Cascata do Boição, depois de ter visto que a Isa e o Vítor lá tinham ido, e de pedir as melhores dicas sobre como lá chegar.

Não é difícil, e é acessível até para pequenas baleias (com as devidas cautelas).

Ficou a vontade de lá voltar, noutras condições, e explorando melhor os muitos trilhos que há ali à volta. Temos tanto sítio giro à volta de Lisboa, ainda por descobrir!

domingo, 14 de junho de 2020

De Berlim... - III

O 3º dia em Berlim amanheceu com frio e chuva.

Tínhamos feito marcação para visitar o edifício do Reichstag (o parlamento alemão) às 9 horas, e a essa hora lá estávamos. Apesar de ser gratuito, dizem que convém fazer reserva, para garantir que conseguimos entrar quando lá chegamos. Passámos pela segurança e confirmámos o que já sabíamos: os alemães não são as pessoas mais simpáticas do mundo.

Também aqui recorremos aos audioguias (são gratuitos, é só pedir), e fomos fazendo a visita guiada, começando pela subida à icónica cúpula. Lá em cima, as vistas 360º sobre Berlim são incríveis, mas o tempo estava mesmo desagradável, e entre vento e chuva, acabámos por não aproveitar tanto assim. É possível passear pelo terraço que existe nos telhados do edifício, mas eu estava mesmo desconfortável e preferi ficar dentro do edifício, tentando resguardar-me do frio. Começou aqui a minha birra matinal, que ainda demoraria algum tempo a passar... Posso culpar as hormonas, certo?




As vistas são incríveis, mas o tempo que estava...


Saindo daqui, nova passagem pela Porta de Brandemburgo, e decidimos ir até à Potsdamer Platz e visitar o Spionagemuseum


Eu, de birra...
 

A Potsdamer Platz fez-me lembrar Nova Iorque...


Confesso que a escolha por este museu foi muito prática: era perto e estava incluído no Berlin Museum Pass, que tínhamos comprado. A ideia inicial era passear pelo Tiergarten, mas a chuva não dava tréguas, e pareceu-nos muito mais sensato ir para dentro de um museu.



Faz-vos lembrar algum livro/filme?

Eu, em modo 007!
E o museu até é giro! Fala sobre a história da espionagem, que se cruza em muito com a história de Berlim no século XX, é muito interactivo com experiências e jogos que desafiam o espião em cada um de nós, dá para tirar umas fotografias giras, e é uma boa forma de passar um par de horas.

Confesso que não me lembro onde almoçámos neste dia e o programa da tarde incluiu o Jüdisches Museum Berlin. Infelizmente, a maior parte da exposição estava fechada (estão a renovar a exposição principal), mas pudemos visitar a Torre do Holocausto, uma obra de Daniel Libeskind, que não deixa ninguém indiferente.





Daqui, seguimos para o Checkpoint Charlie, e depois para o Topographie des Terrors, um centro de documentação, cuja visita é gratuita, e que nos permite fazer uma viagem no tempo àquilo que foi o Nazismo, a Gestapo, as SS, a ascensão de Hitler, e todo o horror que marcou a vida de milhões de pessoas... É pesado. É muito pesado. E é, simultaneamente, incrivelmente esclarecedor e perturbador. Ao ficar a saber mais sobre como tudo aconteceu, é inevitável ficarmos assustados com a facilidade com que tudo aconteceu. Mais assustador ainda é, nesta época, em que vemos movimentos estranhos a ganhar força e voz em alguns países... Vale muito a pena.






Façam zoom, que vale a pena...

 Voltámos para o hotel, ele foi para a passadeira correr, e eu fui... Fazer a minha sesta pré-jantar, pois claro.

Procurámos um restaurante perto do hotel, e acabámos em mais um vietnamita: o Madami - Mom's Vietnamese Kitchen. Mais uma vez, comemos bem e não pagámos muito!



E assim chegou ao fim mais um dia, comigo de rastos. Nós bem tentámos fazer esta viagem num ritmo mais calmo, mas é mais forte do que nós... Acabamos sempre a ver mais isto e mais aquilo e mais uma coisa e mais outra... Fomos tentando andar mais de transportes, para eu poupar as pernas, e ir parando e sentando aqui e ali, mas é inevitável. Estamos numa cidade nova e queremos descobrir tudo, não é verdade?

Os devaneios Agridoces mais lidos nos últimos tempos...