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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Do parto da Isabel...

O parto da Isabel não foi nada do que eu queria, sonhara ou idealizara. Em parte, já sabia que assim seria, desde que ficou decidido que seria cesariana. Mas, ainda assim, foi muito diferente do que esperava.

Não consigo dizer que foi o momento mais bonito da minha vida. Se bem que também não consigo dizer qual foi o momento mais bonito da minha vida. O problema está em mim, certamente. 

Quando penso no nascimento de um bebé, no acto de trazer um novo ser humano a este mundo, penso em algo muito carnal, muito animal, muito natural. Penso no regresso aos nossos instintos mais básicos e ao que faz de nós aquilo que somos. Penso na vida a gerar vida. Penso no milagre da natureza. 

Ora, numa cesariana não há nada disso. Uma cesariana é um procedimento cirúrgico. Numa cesariana não há nada de animal, de instinto, de vida a gerar vida. Numa cesariana há alguém inerte deitado numa mesa de operações, há muitos e variados profissionais de saúde em redor, há uma barriga que é cortada e de onde é extraído, contra a sua vontade, um pequeno ser. Não consigo ver grande beleza nisto. O problema está em mim, certamente. 

Achei o procedimento frio. Senti-me meio perdida naquele bloco operatório, até o Pai se ter juntado a mim. Foram minutos que pareceram horas. Tive medo. Senti-me ansiosa. Achei que tudo podia correr mal. Senti-me impotente e inútil, incapaz de trazer a minha filha ao mundo. 

Foi estranho sentir tudo. Sentir o frio do desinfectante a ser esfregado na minha barriga. Não senti o corte, mas senti a pele a ser afastada, a barriga como que esventrada, os movimentos dentro de mim, tudo demasiado real. Sem dor, mas sentindo perfeitamente o que se passava. Foi rápido. Muito rápido. 

Em poucos minutos, o choro da nossa filha. Da nossa Isabel. Nesse momento, já tinham baixado o campo cirúrgico e o Pai pode vê-la vir ao mundo. Eu, só podia ouvi-la. E que bem que ela se fez ouvir! Guardo na memória aqueles primeiros gritos. Vi, depois, as primeiras imagens que o Pai fez questão de captar. A nossa filha no mundo, gritando desalmadamente, mostrando a garra que traz consigo.

Quando ma mostraram, não pude não chorar. No meio de toda aquela estranheza, as lágrimas caíram, ao ver a nossa filha pela primeira vez. Era real. Ela estava ali, junto a nós, a iniciar a sua longa jornada, nesta viagem que é a vida. E nós, ali, a iniciar a nossa longa jornada, nesta viagem que é a parentalidade. 

Senti-me assoberbada por tudo. Custou-me não poder reagir, não lhe poder pegar, mal a conseguir ver. Parecia tudo demasiado surreal e eu continuava a sentir-me mais num procedimento cirúrgico do que naquele que se queria que fosse o momento mais bonito da minha vida. 

Eventualmente, levaram-na. E ele foi com ela. E eu fiquei ali, sozinha e perdida, no meio de estranhos, a ser suturada. Acho que só quando cheguei ao recobro e os reencontrei aos dois, é que respirei de alívio e me caiu a ficha. Só quando ficámos ali os três, em namoro completo, com ela junto a mim, comigo a querer examinar cada centímetro do corpo dela mas sem me conseguir mexer, é que eu percebi o que estava a acontecer. 

Eventualmente, ficámos só as duas. A conhecer-nos. A reconhecer-nos. A cheirarmo-nos mutuamente. A ver ao vivo o que imaginámos durante meses a fio. Não sei quanto a ela, mas eu, o que senti, é que era tudo infinitamente melhor do que eu poderia ter imaginado. 

O parto da Isabel não foi uma experiência bonita, ou memorável, ou o melhor momento da minha vida. Mas o que é que isso importa, com tudo o que virá depois?... 



[Texto escrito a 9 de Julho, duas semanas depois de a Isabel nascer. Não o publiquei na altura, por ter sido escrito a quente. Mas, hoje, o sentimento não melhorou. Sobretudo, porque tenho agora a certeza de que fui sujeita a uma cesariana desnecessariamente. Talvez um dia eu ultrapasse isto. Talvez eu tenha outro filho e o parto que idealizei. Ou talvez não. Mas teremos sempre a terapia, não é verdade? Foquemo-nos na última frase e em tudo o que já veio e o que ainda está para vir.]

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Da Gravidez... - XVII (ou da [in]fertilidade...)

Uma pessoa passa a vida a ouvir histórias de pessoas que engravidam sem querer, que engravidam só por respirar, que engravidam à primeira, e mais um sem fim de coisas que nos fazem acreditar que engravidar é fácil. Uma pessoa fica a achar que é só fazer o amor e puff... Fez-se o bebé! (só para quem se lembra do anúncio do Chocapic).

Depois uma pessoa depara-se com a realidade, que é bem diferente do que vemos nos filmes e ouvimos nas histórias, e percebe que engravidar pode não ser assim tão fácil.

Numa outra vida, eu já tinha tentado engravidar durante um ano, pelo que já sabia que não era fácil.

Desta vez, com mais uma cirurgia pelo meio e mais uns aninhos em cima, eu sabia que ia continuar a não ser fácil. Mas quis fazer diferente. E a melhor forma de fazer diferente, é informarmo-nos. E eu informei-me. Muito.

Antes de mais nada, tive de esperar que passasse o tempo necessário após a minha cirurgia. Depois disso, e de termos a certeza de que era isto que queríamos e que estava na altura certa (se é que isso existe!...), fiz os exames habituais para ter a certeza que estava tudo bem, e comecei a tomar a suplementação recomendada.

Depois disso, fui então informar-me. Comecei pelo trabalho da Patrícia Lemos, com o seu Círculo Perfeito. Vasculhei o seu site de uma ponta à outra, devorei o seu ebook, li tudo o que tinha no Instagram. E eu aprendi. Aprendi tanto, tanto, tanto sobre mim e sobre o meu corpo, que fiquei a achar que passara 35 anos da minha vida completamente a leste do que se passava em mim. Sem fundamentalismos nem extremismos, mas a verdade é que somos muito mal preparados para estas questões do auto-conhecimento e da fertilidade. Acho que todas as mulheres deviam ler o ebook dela e perder um bocadinho de tempo a pensar sobre este tema, que não tem nada a ver com querer engravidar. 

Ainda me choca a quantidade de mulheres que oiço dizer que tomam a pílula para regular o período, ou que usam aplicações para ver o dia da ovulação (que, curiosamente, calha sempre no meio do ciclo...). Não critico, não condeno, não censuro. Eu também era assim. Mas, depois, informei-me. E agora sinto-me um bocadinho no dever de informar e espalhar a palavra pelas pessoas à minha volta.

Nesta luta para perceber melhor o meu corpo e o meu sistema reprodutor, também comprei a bíblia da fertilidade feminina: o livro Taking Charge of Your Fertility. Mais uma vez, não se trata apenas de conseguir engravidar. Trata-se, acima de tudo, de entender o nosso corpo, saber percebê-lo, conhecê-lo e ler os seus sinais.

Em ambos os casos, é abordado o Método Natural de Fertilidade (Fertility Awareness Method), que é um método que ajuda a engravidar, evitar uma gravidez e, acima de tudo, a conhecer o nosso ciclo e detectar eventuais problemas (as hormonas que produzimos dizem muito mais sobre nós do que poderíamos imaginar). Foi assim que eu comecei a olhar para mim e para o meu ciclo com outros olhos, a estar atenta aos sinais, a fazer o registo da minha temperatura basal, a olhar para gráficos e curvas. Aqui sim, existem aplicações que podem ser úteis, desde que devidamente alimentadas com a informação necessária (a informação é mesmo tudo e, sem ela, não há milagres).

Foram meses de descoberta, de aprendizagem, sempre com um sentimento de choque em relação ao quão mal andei a tratar o meu corpo durante tantos anos!... Não percebo como é que não há mais informação e mais atenção a um tema tão importante, e andamos a encher as adolescentes, e futuras mulheres, de pílulas, só porque sim e porque é mais prático.

No meu caso, mesmo assim, a coisa não foi tão rápida como gostaria, e em Setembro passado tive uma consulta na MAC. Nessa consulta, e perante o meu historial e a minha idade, a obstetra decidiu encaminhar-me para a Consulta de Apoio à Fertilidade. Ainda me lembro do que me custou subir as escadas até esse departamento, o ar pesado que lá senti, e a quase vergonha ao dizer que estava ali para me inscrever naquelas consultas. Deram-me um monte de papéis para preencher com dados meus e dele, pediram-me para aguardar uns minutos que pareceram horas, e fizeram uma primeira consulta de triagem. Aí, disseram-me logo: os tempos de espera para a primeira consulta eram de cerca de um ano.

Como se não bastasse o que custa uma pessoa andar a tentar e, mês após mês, não conseguir, ainda tem de esperar um ano por uma consulta de especialidade, numa especialidade que, só por si, luta contra o tempo. Triste país o nosso, no que toca à saúde!...

Apesar de tudo, do choque do encaminhamento para esta consulta, do choque do tempo de espera, do abanão que levei, ao fim de uns dias eu consegui mentalizar-me que isto não era uma sentença de morte. Que era apenas uma recomendação da médica, uma forma de "pouparmos" tempo se eu não conseguisse entretanto, porque os tempos de espera eram mesmo absurdos. Apesar de tudo, eu tentei não desanimar, continuei a cuidar do meu corpo, continuámos a tentar.

No ciclo seguinte, engravidei. 

Nove meses depois, no mesmo dia em que eu soube que ia fazer uma cesariana, no preciso instante em que saía dessa consulta, toca o meu telemóvel e eu vejo no ecrã: MAC. Era para marcarem a primeira consulta.

Coincidências ou curiosidades da vida. Nem sei...

Isto tudo para dizer: informem-se, leiam, aprendam, conheçam o vosso corpo e os sinais que ele vos dá. Não se deixem levar (e frustrar) pela história dos ciclos de 28 dias e a ovulação ao 14º dia. Esqueçam aplicações com algoritmos fraquinhos que dão o mesmo resultado a toda a gente, quando toda a gente é diferente. Seja para engravidar, para evitar uma gravidez, ou só para saber se está tudo bem: oiçam o vosso corpo.


E, com este post, encerro (por ora) o tema da gravidez. Talvez se me lembrar de mais alguma coisa, volte a ele, mas acho que isto já se arrasta há demasiado tempo, já nem eu tenho paciência para mim, e acho que acabamos em bom. Seguem-se 137 posts sobre a aventura que é a maternidade e o pós-gravidez, pois claro.

domingo, 23 de agosto de 2020

Da Gravidez... - XVI (ou dos momentos amorosos...)

Já por aqui referi que não gostei particularmente de estar grávida, e que também acho que o devo (em parte) à nossa amiga Covid, que nos obrigou a estarmos mais fechados e isolados do mundo.

Mas até entrarmos em confinamento, a gravidez teve os seus momentos bons, os seus momentos amorosos, os seus momentos em que me senti mais acarinhada pelas pessoas à minha volta.

Desde o meu sobrinho de 4 anos a dar festinhas e beijinhos à minha barriga, aos presentes inesperados, às atenções e cuidados redobrados com a minha pessoa. Desde muito cedo, percebi que a Isabel ainda não tinha nascido e já tinha muita gente a gostar dela e a torcer para que tudo corresse bem, e isso foi maravilhoso.

Lembro-me também, e não queria deixar de o registar por aqui, de um momento em particular que me deixou de lágrimas nos olhos (as hormonas! ai, as hormonas!). Estávamos em Arganil, para os Picos do Açor. Eu estava inscrita para os 18km, ele para os 36km. Eu estava com quase 3 meses de gravidez e decidi não participar na prova, sobretudo, porque estava mau tempo e era um disparate arriscar uma queda na lama ou algo pior. Por coincidência, estava no mesmo hotel que a ET e tive de lhe mentir com uma desculpa esfarrapada qualquer para justificar não ir correr, e outra para justificar quando nos encontrámos no pequeno-almoço e eu lhe disse que não tinha ido assistir à partida da prova dele. Que raio de roadie é que nem assiste à partida da prova? Uma roadie grávida, enjoada e a precisar de dormir, pois claro!...

Continuando... Nós não somos particularmente emocionais, nem de grandes demonstrações de afecto. Por isso, quando naquele dia frio de Dezembro, antes de sair do quarto para ir para a prova, ele me pediu para ver a minha barriga porque lhe queria dar um beijinho de despedida, eu não pude não ficar completamente derretida... Ainda estávamos tão no princípio, ainda era tudo tão surreal, mas aquele pequeno ser já nos estava a mudar e a conquistar... 

Ao longo da gravidez, fomos tendo vários momentos assim, em que percebemos que ela ainda não tinha nascido, mas nós já estávamos a nascer como pais. Nós, e as pessoas à nossa volta, já estávamos irremediavelmente mudados por uma Isabel que ainda vinha a caminho, para abalar ainda mais o nosso mundo. E era uma sensação incrível!

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Da Gravidez... - XV (ou do dia em que eu soube que ia fazer uma cesariana...)

Corria o longínquo dia de 2 de Junho de 2020 quando, depois de mais uma CTG, a minha obstetra me disse, definitivamente, que a Isabel iria nascer de cesariana.

E eu tive, mais uma vez, a confirmação daquilo que já vinha a descobrir nos últimos meses na gravidez: nada é como tínhamos imaginado. Podemos ler, fazer cursos, sonhar, planear, tudo e mais alguma coisa. Mas a maioria das coisas fogem do nosso controlo, e resta-nos aceitar.

Lembro-me de me ter sentido particularmente inútil. Eu não servia para trazer a minha filha ao mundo. Dramático, eu sei. Exagerado, eu sei. Mas foi o que senti naquele momento.

A opção da obstetra pela cesariana era discutível e, apesar de ela já ter falado nisso uns meses antes, eu achei que era apenas uma possibilidade e que continuaria a haver a hipótese de se tentar um parto natural. Naquele dia, eu percebi que não. E fiquei sem chão.

Questionei tudo. Questionei-me a mim. Muito. Falei com várias pessoas e pedi várias opiniões, que se dividiam.

Eu não queria fazer uma cesariana. E não era um mero capricho meu de quem acredita em fadas e unicórnios. Eu não queria fazer uma cesariana porque eu não tinha a certeza de que a cesariana fosse a única opção, ainda que a minha obstetra achasse que era a melhor opção, para minha segurança e da bebé.

Mas a opinião da minha obstetra não era consensual, não era completamente objectiva, não era a única. E, com 36 semanas de gravidez (quase 37), eu só tinha duas opções: aceitar o que a obstetra dizia e queria fazer, ou mudar de obstetra (o que implicava mudar também de sítio onde a bebé ia nascer). Ainda consegui que uma amiga falasse com uma obstetra que seria uma hipótese para mim, e que achava que não era linear que eu fizesse uma cesariana, mas que não estava a aceitar novas grávidas. 

Foram tempos confusos em que, na verdade, não tinha muito tempo para uma decisão. Se, por um lado, uma parte de mim achava que eu devia ir à procura de outro obstetra que me desse uma hipótese, uma parte de mim já estava contaminada pelo grilo falante que iria estar sempre a perguntar-me se insistir num parto normal não seria um erro e se não estaria a pôr em causa a minha segurança e a da bebé. Conhecendo-me, eu sabia que mesmo que mudasse de obstetra, iria ter sempre aquela dúvida de saber quem é que teria razão e do que seria realmente melhor no meu caso. Até podia ter avançado para um parto normal, mas era provável que passasse o tempo todo com medo de uma eventual complicação (que podia ser muito complicada). Ou então não, e eu podia ter tido um parto natural espectacular. 

Nunca vou saber. Na altura, decidi manter-me com aquela obstetra. Hoje? Arrependo-me profundamente. Já aceitei e já quase me perdoei. Sei que tomei a decisão que me fez sentido na altura, com a informação que tinha. Também sei que me faltou alguma força e coragem, mas, às 36 semanas de gravidez, eu tive medo de bater o pé e pôr em risco a bebé. Também sei que não seria fácil arranjar novo obstetra naquela fase da gravidez. E sei que nunca me perdoaria se alguma coisa tivesse corrido mal, porque eu tinha mudado de obstetra de repente. Na altura, mesmo sabendo que talvez a opção pela cesariana não fosse a melhor, eu decidi como me fez sentido. Agora, já não há nada a fazer em relação a isso. No futuro, já sei quem será a minha nova obstetra.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Da Gravidez... - XIV (ou do meu primeiro breakdown... e de todos os outros...)

Uma das coisas boas da gravidez, é que podemos culpar as hormonas por 99% das coisas que nos acontecem. Têm as costas muito largas, as pobres hormonas.

Curiosamente, eu não me senti muito "hormonal". Bom, talvez alguém cá em casa discorde. Mas foi o que eu achei.

Claro que tive os meus momentos e as minhas crises. Claro que chorei pelas coisas mais tolas e me emocionei por coisas que antes talvez ignorasse. Mas podia sempre culpar as hormonas, e estava tudo bem.

Culpa das hormonas, ou não, lembro-me perfeitamente do meu primeiro breakdown a sério. De repente, já não sei a propósito de quê, eu dei comigo na casa de banho a chorar convulsivamente. De repente, eu pus tudo em causa.

Naquele momento, eu perguntei-me se seria capaz de ser mãe, se estaria à altura do desafio, se teria nascido para ser mãe, se não seria tudo um grande erro. Chorei, chorei, chorei. Depois enfiei-me na banheira, chorei, chorei, chorei, e, eventualmente, passou. Podia sempre culpar as hormonas.

Mas culpa das hormonas, ou não, ao longo da gravidez fui tendo diversos momentos de dúvidas e medos.

O meu principal medo? Aquele que mais me assaltou, que mais me tirou o sono, que mais me fez chorar? O mais óbvio: serei eu capaz de ser melhor mãe do que a minha mãe foi para mim? Se, por um lado, a resposta parece evidente: não é difícil ser melhor mãe do que ela foi. Por outro lado, é difícil eu conseguir acreditar que posso ser melhor mãe, quando não tenho grandes referências ou exemplos. Houve muitos momentos em que eu me questionei se seria capaz de, não tendo tido uma boa mãe, ser uma boa mãe.

Ainda me faltam muitos anos de terapia para resolver e arrumar de vez aquilo que foi a minha relação com a minha mãe. Com ela morta, a coisa fica ainda mais difícil. Mas um dia eu hei-de lá chegar. Enquanto não chego, é inevitável que isso condicione a minha experiência enquanto mãe. Claro que, de forma muito racional, eu sei perfeitamente o impacto que isso pode ter e uso todas as estratégias possíveis para que isso não me influencie negativamente. Posso não ter as coisas bem resolvidas, mas tenho consciência delas e, lá está, sendo muito racional, sei perfeitamente que posso fazer diferente. Muito diferente. O problema são aqueles momentos em que eu não consigo ser muito racional, e em que eu me vejo condenada ao fracasso, incapaz de ser uma boa mãe para a Isabel. São poucos esses momentos, são cada vez menos, mas, de quando em vez, ainda me assaltam os pensamentos.

Para além de todos os grandes desafios que a maternidade nos traz, para mim, trouxe este muito difícil: o obrigar-me a olhar para mim, para a relação que tive com a minha mãe, para o que fui enquanto filha e o que (não) quero ser enquanto mãe. E tem sido uma luta monstruosa!...

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Da Gravidez... - XIII (ou da forma como toda a gente te diz que te deves sentir, que nem sempre corresponde à forma como te sentes...)

O tema da maternidade está, todo ele, envolto em muitas e variadas opiniões, que são, muitas vezes, extremadas e radicais. Isso, só por si, já me cansa. Pior ainda quando, na maior parte dos casos, as minhas opiniões não condizem com as da maioria.

Comecemos pelo princípio. 

Para a larga maioria das mulheres, ser mãe é algo relativamente óbvio e natural. Para algumas, é mesmo algo com que sonham desde crianças. Para umas e outras, é algo que faz parte dos planos, do caminho natural da vida, dos passos que pretendem ir dando e dos objectivos que querem alcançar. Não conseguem sequer conceber a vida sem filhos. E está tudo bem.

Depois, há as outras. As que não querem ter filhos. As que não se imaginam com filhos. As que acham que também pode haver vida sem filhos. E já não está tudo assim tão bem.

Eu fiz parte do segundo grupo durante muitos anos. Nunca me imaginei como mãe, nunca pensei que as crianças fossem o melhor do mundo, nunca me derreti particularmente com bebés, nunca me senti "mãezinha", nunca achei que me faltasse essa peça na minha vida para ser feliz. Mas quis a vida que, um dia, eu mudasse de opinião, e eu passei a querer ter filhos. Mas essa foi a única coisa que mudou. Não baixou em mim todo um instinto maternal, nem passei a adorar criancinhas de um momento para o outro, ainda que possa vir a achar que a minha criança é o melhor do mundo (mas só a minha, sorry!).

Eu sou uma pessoa (relativamente) racional. Pouco emocional e fria, até, em algumas coisas. Calhou (ou não calhou porque fui eu que escolhi assim) ter ao meu lado uma pessoa igual ou ainda pior do que eu. Não era por acaso que, nos inícios da relação, eu lhe chamava cubo de gelo. Somos os dois assim, e está tudo bem.

Daí que, ao longo de toda a gravidez, eu tivesse dificuldade em lidar com perguntas como "estão super felizes?", ou afirmações como "aproveita a gravidez que é uma experiência única e vais ter saudades", ou ainda "ser mãe é a melhor coisa do mundo". Também é comum vermos e ouvirmos relatos de quem diz que amou os seus filhos desde o momento em que soube que estava à espera deles, num amor gigante e crescente. E eu, confesso, senti-me meio alien por não ter sentido isso. Na nossa racionalidade, a verdade é que acho que sentimos os dois dificuldade em criar relação com um ser que não víamos e que ainda não era bem real para nós. Até ao momento em que a Isabel nasceu, eu tive dificuldade em acreditar que ela era mesmo real, e tive dificuldade em sentir esse amor de que toda a gente me falava.

Também tive dificuldade em adorar a gravidez, mas já falámos sobre isso.

Agora, que a Isabel nasceu, eu continuo a sentir-me alien, por continuar a não me identificar com muitas das coisas que oiço e leio por aí. Não devia, mas fico a questionar-me se haverá algo de errado em mim, se não nasci mesmo para ser mãe, se terei algum defeito. Talvez daqui a uns anos se venha a descobrir que sim, que tenho, e já fica aqui o registo da minha consciência do facto.

Nestas 5 semanas (fez ontem!), eu já me afastei da Isabel algumas vezes. Três, se não estou em erro. Todas para ir ao médico e cerca de 2 horas de cada vez. Em momento algum eu me senti culpada ou preocupada. Não me custou, não fiquei a sofrer, não morri de saudades. A Isabel estava com a pessoa que, a par de mim, melhor pode cuidar dela. E eu não vi qualquer razão para estar preocupada. Mas fiquei preocupada por não ficar preocupada. O que é só parvo, mas é o que toda a pressão em torno deste tema me faz sentir.

Hei-de voltar a falar nisto, noutra perspectiva, mas confesso que é algo que me preocupa: não estar a sentir a maternidade como a generalidade das pessoas a sentem.

Também já me perguntaram coisas como "estás a adorar ser mãe?" ou "apaixonaste-te pela tua filha assim que a viste"?. E eu fico sempre na dúvida se dou a resposta verdadeira, ou a resposta politicamente correcta. 

No caso da primeira pergunta, depende da hora a que me perguntarem. Neste momento, em que tenho a Isabel envolta no pano, em pele com pele, encostada ao meu peito, sem chorar há uma hora, e lhe vou dando beijos na testa enquanto escrevo este post, sim, estou a adorar ser mãe. Se me perguntarem às duas da manhã, quando ela berra desalmadamente, quando nada a acalma, e quando ninguém neste prédio dorme, talvez eu responda que não estou a adorar assim tanto. 

No caso da segunda pergunta, não, não me apaixonei pela Isabel assim que a vi. Peço desculpa por isso, mas a verdade é que não acredito em amor à primeira vista (desculpem, não resisti!). A seu tempo, hei-de pôr aqui o texto sobre o nascimento dela, o que poderá ajudar a explicar isto.

No fim do dia, estou a adaptar-me a esta nova condição da minha vida, a esta nova realidade, a este novo ser que me desafia e apaixona em medidas (quase) iguais. E está tudo bem.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Da ilustração que faltou no post anterior...


Os exemplos são mais do que muitos, mas cruzei-me agora mesmo com esta publicação no Facebook e achei tão apropriada ao post anterior, que não resisti... 

Da Gravidez... - XII (ou da Toxoplasmose...)

Um dos temas que causa muito debate e troca de opiniões durante a gravidez é a toxoplasmose. O nível de desinformação é chocante, e o alarmismo é elevado.

Calhou que eu não sou imune à toxoplasmose. Eu tinha esperança de ser e poder ter uma gravidez sem me preocupar com esse tema, mas não sou.

Assim, investiguei muito sobre a gravidez e a toxoplasmose. Li artigos, pesquisei, informei-me. Informação é poder e fiquei com a clara sensação de que ainda não há informação suficiente sobre a gravidez e a toxoplasmose, o que leva à proliferação de mitos e crenças tontas. Talvez seja um tema que não renda muito dinheiro, e ninguém se dedica muito a estudá-lo, apesar de ter encontrado um artigo que referia estar em estudo uma vacina para a toxoplasmose... 

O único estudo que encontrei que referia a taxa de prevalência da toxoplasmose na gravidez em Portugal, falava numa taxa de 1,04%, mas era um estudo antigo. Ainda assim, este é uma taxa bastante baixa, o que não significa que este tema não mereça preocupação, uma vez que apesar da baixa probabilidade, o impacto de contrair toxoplasmose durante a gravidez, pode ser muito elevado, e ninguém quer isso.

Além das confusões habituais que se multiplicam nos famosos grupos de mães no Facebook, em que a toxoplasmose é associada a coisas como marisco, e em que há quem ache boa ideia excluir completamente da alimentação coisas como alface, tomate e frutas que não se possam descascar, há o eterno drama à volta dos gatos, que mexe com o meu sistema nervoso.

Sim, em 2020 ainda há quem use a toxoplasmose como desculpa para se ver livre dos gatos, durante a gravidez. Não sei se por ignorância ou por conveniência, mas é assustador.

Vamos lá ver...

Não vou entrar aqui em explicações demasiado técnicas e perdoem qualquer incorrecção, que não sou minimamente da área mas, basicamente, para um gato poder espalhar toxoplasmose por aí, ele tem de ter ingerido carne de animais infectados com toxoplasmose (ratos ou pássaros, por exemplo). Só assim, o gato contrai o parasita e expele os seus "ovos" nas suas fezes, coisa que acontece durante cerca de 14 dias e apenas uma vez durante toda a existência do gato (em gatos saudáveis, pelo menos). Para que uma grávida contraia toxoplasmose, a grávida tem de ingerir esses "ovos". Ou seja, precisa de comer essas fezes contaminadas ou andar a mexer-lhes com as mãos e levá-las à boca sem as lavar. Aqui entra também a questão dos cuidados com frutas e legumes frescos, que devem ser bem lavados, porque pode dar-se o caso de um gato que tenha o parasita durante aqueles exactos 14 dias ter feito as suas fezes em cima da maçã ou alface que vamos comer. Escrito assim, parece-me meio ridículo, mas talvez o problema seja só meu. 

Voltemos aos gatos de casa. No caso do meu Snow, que está comigo há 4 anos, que não tem contacto com outros animais, que não tem acesso ao exterior (ele bem queria), que não come carnes cruas (ele bem queria), digamos que a probabilidade de ele poder ter o parasita da toxoplasmose é assim a modos que nula... E, mesmo que o tivesse, seria por um período muito limitado no tempo. E, ainda assim, eu tinha de ingerir os ditos "ovos"... Assim, a probabilidade de eu poder contrair toxoplasmose graças a ele, é assim a modos que menos que nula... 

Eu sei que, saindo do contexto de cidade, há muita gente que tem gatos que andam na rua. Também sei que há muitos artigos estrangeiros, em que as realidades são bem diferentes, uma vez que em países como o UK o normal é os gatos entrarem e saírem de casa a toda a hora. Nesses casos, a preocupação deve ser diferente. Mas precisamos de ter a capacidade de pensar na nossa situação específica e no nosso caso.

E, no meu caso, não seria pelo Snow que eu iria contrair toxoplasmose. Ainda assim, o louco mais louco do que eu, a partir de certa altura, insistiu em ser ele a limpar a casota. Por mais que eu lhe tentasse explicar que não havia problema, ele quis fazer essa tarefa. E eu, obviamente, também não me queixei, não é verdade?

Posto isto: parai de crucificar os gatos por causa da toxoplasmose, e preocupem-se mais com as carnes mal passadas e as saladas e frutas fora de casa. Mas também não entrem em paranóia e não excluam da alimentação alguns alimentos que são tão importantes e saudáveis... Bom senso e informação nunca são demais... E deixem os gatos em paz!

terça-feira, 28 de julho de 2020

Da Gravidez... - XI (ou do enxoval...)

Uma pessoa pensa que ter um filho, é só ter um filho. Não é, Senhores. Há todo um mundo que gira à volta disto de trazer um pequeno ser ao mundo.

Eu, pessoa precavida, investiguei sobre o tema, fiz um excel xpto que partilhei com ele, fiz toda uma listagem e levantamento do que íamos precisar, e íamos registando o que já tínhamos, o que faltava comprar, comparávamos preços, líamos artigos e reviews.

Isto é mesmo um mundo. Ou então não, que uma criança precisa de muito pouco, e nós é que gostamos de complicar. Quem sabe?!...

Comecemos pela roupa. Não há respostas objectivas sobre a quantidade de roupa de que um recém-nascido vai precisar. Cada pessoa diz uma coisa e não há um consenso. Eu achei por bem não comprar demasiada coisa, porque ela podia nascer maior ou mais pequena, porque era Verão, porque logo se via, porque seria para usar pouco tempo... Claro. Nos primeiros dias sujou muito mais roupa do que eu estava à espera, e lá foi preciso pedir um reforço de emergência. Ninguém me tinha dito que havia uma elevada probabilidade de ela precisar de várias mudas de roupa num só dia. Aliás, no dia em que escrevo este post, já ela tem um mês, e em menos de 24 horas, já vai em 4 mudas de roupa. Ninguém me preparou para isto, e eram 5 da manhã e estava eu a fazer mais uma encomenda de roupa (mal sabia eu que, horas depois, ela me estaria a vomitar em cima e a mudar de roupa outra vez)... Também nisto, a Covid-19 nos condicionou: a generalidade das pessoas tem tendência a oferecer conjuntinhos fofinhos e amorosos mas, dado que mal saímos de casa, não lhes temos dado grande uso. A necessidade passa mesmo pelos básicos, que é o que ela veste na maior parte do tempo.

Também ninguém me preparou para o tédio que seria estar horas a cortar mini etiquetas de mini roupas nem outras tantas horas a estender e a passar as mini roupas. São amorosas, mas são uma canseira!...

Além da roupa, passámos pela escolha do berço, do carrinho, do ovo, da espreguiçadeira, do intercomunicador, da banheira, e de mais 137 mil coisas que fico cansada só de pensar...

Para nós, havia duas coisas importantes: o ovo, fundamental do ponto de vista da segurança, e o carrinho, que queríamos que fosse assim mais xpto para grandes passeios e eventuais corridas.

Diria que o carrinho foi, provavelmente, aquilo em que perdemos um bocadinho mais a cabeça. Vimos várias opções de carrinhos de corrida, sempre online (obrigada, Covid-19!), das marcas mais reconhecidas: Thule, Baby Jogger, Bob Revolution, etc. Estes carros pensados para correr são caros. Bem mais caros do que os carros normais... Mas queríamos mesmo um modelo de 3 rodas, com mais suspensão, pneus xpto, mais confortável, e mais umas quantas coisas, que permitissem aventuras maiores do que a voltinha pelo quarteirão ou pelo centro comercial. Acabámos por ir para uma solução intermédia, o B-Motion 3 Plus da Britax Römer, que, não sendo específica para correr, tem todas as características que procurávamos e que está feito também para correr (em modo jogging, pelo menos...). A verdade é que não sabemos se vamos usá-lo assim tanto para correr, até porque as opiniões dividem-se mas nunca seria para usar antes dos 6/9 meses, e tínhamos excelentes opiniões sobre a marca, pelo que achámos que era a opção sensata. Já o testámos em Monsanto e portou-se lindamente!

Também perdemos um bocadinho a cabeça no berço, e optámos pelo famoso Next 2 Me, da Chicco. Até agora, estamos muito satisfeitos com a compra! É, de facto, muito prático, apesar da ginástica que me obriga a fazer sempre que entro e saio da cama... Mas tolera-se. Se é um bem essencial? Não é, de todo. E hoje talvez tivéssemos optado por outra solução, mas acho que a Covid-19 e o facto de não podermos andar nas lojas a ver e experimentar tudo, acabou por condicionar algumas decisões.

Como em tudo na vida, há um sem fim de opções no que diz respeito aos artigos de puericultura. O marketing é agressivo e ficamos sempre com o nosso inconsciente a perguntar-nos "será que estou a comprar o melhor para o meu filho?". Porque, em princípio, todos queremos o melhor para os nossos filhos, e a pressão é muita, nesse sentido. Há coisas em que conseguimos ser mais racionais, noutras, nem tanto. E está tudo bem. Não somos melhores nem piores pais por comprarmos isto ou aquilo. Mesmo que nos queiram fazer sentir assim. O melhor que lhes podemos dar é colo e amor e, isso, não se compra.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Da Gravidez... - X (ou da minha relação com o meu corpo...)

Não é exagero dizer que há, pelo menos, 20 anos que eu não tenho uma relação particularmente saudável com o meu corpo. Já houve momentos melhores e momentos (muito) piores. Já houve alturas em que eu não suportava olhar-me ao espelho, e já houve alturas em que eu até conseguia gostar do que via.

Naturalmente, a gravidez e as inevitáveis alterações que provoca no corpo de qualquer mulher, voltaram a trazer este tema à baila. 

Houve vários momentos em que tive dificuldade em lidar com a imagem que via ao espelho e com os números na balança, e fui passando por várias fases ao longo dos meses.

Tinha para mim que não queria engordar muito na gravidez, que me queria manter activa, controlar o peso e manter-me relativamente elegante (para uma pequena lontra, entenda-se). 

Nos primeiros tempos, e por causa dos enjoos, cheguei mesmo a perder peso. E percebi que não podia continuar assim... De todas as alturas da vida em que eu podia estar preocupada com dietas, a gravidez não devia ser uma delas. E comecei a obrigar-me a comer, tentando contrariar os enjoos e a falta de apetite.

Depois veio o Natal e a passagem de ano (fomos tão felizes em Lagos!), depois veio o deixar de correr, vieram jantares e almoços, veio Berlim, os meus anos e o confinamento... E eu fui engordando. E o meu corpo foi crescendo. E os números na balança foram aumentando.

Com 5 meses, quando levei suspiros cor de rosa para o escritório, para anunciar que vinha uma menina a caminho. 

A juntar a isto, uma opinião externa a criticar o quanto eu já tinha engordado e eu a sentir-me um pequeno cachalote. Pessoas, não se comenta o peso dos outros, muito menos de uma grávida! Vá lá... Não é assim tão difícil. Na altura, por mil e um motivos, isso mexeu demasiado comigo. Feliz ou infelizmente, coincidiu com a época em que eu tive indicação para começar a fazer as minhas caminhadas. Entre o regresso à actividade física, e a neura por me acharem gorda, a verdade é que o meu peso estabilizou e pouco engordei nos últimos meses.

Também me dediquei aos treinos de força em casa.
Aqui, com quase 7 meses. 

Foi difícil para mim ver o meu corpo mudar. Ver a barriga crescer, as ancas e o rabo (ainda) maiores, a perda de mobilidade, a incapacidade de fazer uma série de coisas. Desde cedo, fiquei meio em choque quando me faltava o ar ao subir dois lanços de escadas. Como é que eu já tinha feito duas maratonas, e agora ficava cansada com as escadas do metro?... Foi uma luta para mim ir aceitando as minhas crescentes limitações, com o passar do tempo. Uma parte do meu cérebro deve ter achado que eu engravidava mas que ia continuar tudo igual, a fazer na mesma tudo o que já fazia antes, como se nada se passasse. O meu corpo fez o favor de, rapidamente e sem margem para dúvidas, me mostrar que não ia ser assim.

Com quase 8 meses. 

Foram meses de adaptação a esta nova realidade, de sentimentos estranhos e confusos, de alguma frustração e de muito espanto. Tanto dava por mim a olhar para o espelho e a sentir-me disforme, como dava por mim a olhar para o espelho e a sentir-me maravilhada com a minha barriga gigante, casulo da nossa filha.

Agora, precisamente duas semanas depois do parto, continuo com dificuldade em ver-me ao espelho. Se antes procurava consolo na ideia de carregar em mim uma nova vida que viria a este mundo, agora não há consolo possível que advenha destes quilos a mais aqui instalados. Já perdi 8 quilos, faltam 5,5. E eu conto os dias para poder voltar a treinar...

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Da Gravidez... - IX (ou da escolha do nome...)

Curiosamente, quando começámos a falar em nomes, rapidamente surgiram várias opções para nomes de menino. De menina, nem por isso...

Lá fomos trocando ideias, íamos falando no assunto antes de adormecer ou em viagens de carro, fomos pensando no assunto, mas sem chegar a grande conclusão.

A dada altura, achei por bem ir pesquisar sobre o dia em que eu achava que ela ia nascer (que não é o dia da data prevista para o parto, porque eu também achei por bem fazer os cálculos à minha maneira - talvez um dia fale sobre isso). E descobri que nesse dia (4 de Julho), tinha nascido a Infanta D. Isabel Maria de Bragança (regente de Portugal), e tinha morrido a Rainha Isabel de Aragão (mais conhecida por Rainha Santa). E, foi assim, que o nome Isabel começou a estar em cima da mesa.

Eu gostei do nome. Ele gostou do nome. É um nome clássico, é um nome tradicional, é um nome de rainha, não é um nome muito comum e não é um nome "da moda". Um dos meus critérios sempre foi, precisamente, ser um nome que não estivesse na lista dos nomes mais utilizados em Portugal em bebés registados no último ano. Manias. Cada um com as suas. 

Não foi uma escolha muito consensual. Houve muito quem dissesse que achava um nome bonito, mas também houve (mesmo na família mais próxima) quem não achasse muita piada. A parte boa disto de termos uma filha nossa é que somos nós que mandamos, não é verdade?

Isabel será.



(nota: é possível que a bebé nasça, entretanto, e é também possível que isto vire meio bipolar, entre eventuais posts agendados e a realidade do momento, por isso, sem grandes promessas ou compromissos, fica a ideia: isto há-de voltar à normalidade, eu hei-de conseguir publicar os mais 137 posts que tenho pensados sobre a gravidez, e eu hei-de vir dar notícias, quando as houver e quando conseguir!)

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Da Gravidez... - VIII (ou de como é estar grávida em tempos de Covid-19...)

Por muitas e variadas razões, esta gravidez está a ser tremendamente diferente daquilo que eu tinha idealizado. Mas a culpa foi minha que idealizei o que quer que fosse. Já devia saber que não valia a pena!...

A Covid-19 não veio ajudar, obviamente.

Se, por um lado, provocou um acréscimo de ansiedade - mais uma variável que não controlamos, numa fase em que já há tanta coisa que não controlamos, por outro lado, veio obrigar a uma série de adaptações a uma nova realidade.

Eu vim para casa no dia 4 de Março. A minha obstetra, pessoa sensata, quis pôr-me logo de baixa, porque, prevendo o que aí vinha, não me queria a andar de transportes e a trabalhar em pleno Chiado. Eu, pessoa igualmente sensata, achei que daria em louca se entrasse de baixa tão cedo, e combinei com a minha entidade patronal que iria para casa, sim, mas que ficaria em teletrabalho até ser possível. Duas semanas depois, o país seguia o meu exemplo e entrávamos em estado de emergência... Copiões!

Eu passei estes últimos quase 4 meses em isolamento e confinamento. E não, nunca me passou pela cabeça que a minha gravidez pudesse ser assim!...

Acho que, lamentavelmente, isto condicionou muito a minha experiência da gravidez. O isolamento, o não ter as minhas pessoas à minha volta, o stress e a ansiedade que cada ida à rua provocavam... Nada disto ajudou a que a minha experiência fosse muito positiva. Eu não me senti particularmente bonita, porque também não me arranjava particularmente, para passar os dias fechada em casa. Eu não tive aquela sensação de ser particularmente acarinhada ou mimada pelas pessoas à minha volta, porque não havia pessoas à minha volta (fisicamente, vá). Eu não me senti resplandecente, a exibir a minha barriga por aí, porque 90% das vezes que saí de casa, foi para ir ao médico.

Eu não andei a passear, a fazer as minhas caminhadas, a combinar almoços e jantares com família e amigos, nas compras a preparar tudo para a chegada da bebé... Não andei a fazer tudo aquilo que tinha pensado, e que achei que poderia fazer para gozar o final da gravidez como ele merece ser gozado.

A juntar a tudo isto, a realidade que algumas grávidas e mães sofreram ainda mais do que eu (se tiveram os bebés nos primeiros tempos de pandemia): o Pai foi excluído do processo, a determinada altura. Ele deixou de poder acompanhar os exames e as consultas. E isto foi estranho. Tive a sensatez de escolher para ter ao meu lado alguém que sempre quis fazer parte do processo, que sempre quis ir às consultas, aos exames, que sempre quis estar tão informado como eu. Mas quis a Covid-19 que isso lhe fosse negado, a partir de meados de Março. E, ainda que compreensível, é triste.

Por último, a Covid-19 condicionou o acompanhamento e a escolha do sítio onde a nossa filha vai nascer. Já por aqui defendi diversas vezes o SNS, e desde o início que disse que queria que o parto fosse num hospital público. Porque acredito que o SNS tem um excelente serviço, tem excelentes profissionais, e é para lá que devemos ir, sempre que precisamos ou em caso de urgência. Lamentavelmente, em determinadas especialidades, e no caso específico da pandemia que estamos a viver, a resposta do SNS não é a mais satisfatória. E sim, a nossa filha vai nascer num hospital privado, contra tudo o que que queria, contra tudo aquilo em que eu acredito, contra tudo o que eu defendo. E porquê? Porque o SNS continua a excluir o Pai do processo. As coisas vão mudando, semana a semana, mas a maioria dos hospitais públicos ainda não deixa o Pai assistir ao parto, e os que deixam é por períodos muito limitados de tempo. A maioria, não permite que o Pai volte a visitar a mãe e o bebé, após o nascimento. Mãe e bebé ficam sós, até ao momento da alta. E, desculpem, mas isto não me faz qualquer sentido. Com Covid ou sem Covid, eu acho que este é um momento que deve ser vivido a três, e acho que o Pai tem de lá estar. Comigo, com a nossa filha, a cumprir o seu papel, que é tão importante como o meu. Percebo (em parte) as limitações impostas pelo SNS, percebo que se resguardem profissionais de saúde e pacientes, e percebo que se queiram minimizar os riscos. Mas, em tendo outra opção, eu opto por não me sujeitar a algo que não me faz sentido. Não foi uma decisão fácil, foi uma decisão muito ponderada, tomada a dois, mas que representa aquilo que, para nós, faz sentido, e que achamos que é o melhor para nós, e para a nossa filha.

Acho que esta pandemia nos vai deixar marcas a todos, miúdos e graúdos, e que está a ter um impacto muito maior do que imaginamos no que somos e no nosso bem-estar. A médio prazo, veremos... Para já, sei que teremos muitas histórias para contar à nossa filha, sobre como foi estar grávida dela e vê-la nascer, numa altura tão particular como esta!

terça-feira, 23 de junho de 2020

Da Gravidez... - VII (ou de como a gravidez não é doença mas...)

Gravidez não é doença,

Quem nunca ouviu isto?...

De facto, gravidez não é doença, mas... 

Mas eu sinto-me muito pouco saudável, na maior parte dos dias.

Ou estou enjoada, ou estou com azia, ou estou com alguma dor, ou fico sem fôlego se subo dois lanços de escada. Gravidez não é doença, mas é cansativo e pode ser exasperante, para alguém que estava habituada a um certo nível de actividade.

Chego ao final da gravidez em modo repouso e a tomar 10 comprimidos por dia.

Se isto é estado de graça, eu não vejo onde está a graça (perdoai a piada óbvia).

Comecemos pelo princípio: os enjoos. Eu não vomitei uma única vez ao longo da gravidez, felizmente. Sei que há mulheres que passam muito pior do que eu e talvez nem me devesse queixar. Mas eu passei tanto tempo tão enjoada, Senhores!... Os enjoos começaram logo no início e esqueçam lá a conversa dos enjoos matinais. Eu tinha enjoos de manhã, à tarde e à noite. Eu tinha enjoos com chá, eu fazia um esforço tremendo a lavar os dentes, eu cheguei a correr para a sanita algumas vezes, eu sofria horrores no caminho de e para o trabalho (entre o percurso a conduzir e o percurso no metro em hora de ponta, não sei o que era pior). Mais ou menos no final do 1º trimestre, eu comecei a tomar o Nausefe. E a minha vida melhorou. Ligeiramente, mas melhorou. Quando comecei a ser acompanhada no privado, a obstetra mandou-me alterar a forma como tomava o Nausefe, e a quantidade. E a minha vida melhorou. Ligeiramente, mas melhorou. Quando comecei a trabalhar a partir de casa, mais ao menos aos 5 meses de gravidez, a obstetra aumentou-me ainda mais a dose. Não o quis fazer antes porque, em teoria, o Nausefe dá imenso sono, e ela não me queria a conduzir com sono. Quando aumentei a dose, a minha vida melhorou mais significativamente. Os enjoos diminuíram e eu comecei a sentir-me melhor. Curiosamente, há 3 ou 4 semanas, eu achei que era boa ideia reduzir a dose do Nausefe. Pensei eu para mim que, em estando no final da gravidez, já não haveria de ter enjoos. Pois... Má ideia. Bastou o primeiro dia, para eu chegar a meio da tarde terrivelmente enjoada, e perceber que hei-de tomar o Nausefe até entrar para a sala de partos. E está tudo bem.

Não me posso esquecer de uma conversa telefónica que tive com o meu Pai, em que eu comentava os enjoos e ele me dizia:
- Oh, deixa lá! Dizem que isso depois dos 3 meses passa.
- Sim, Pai. O problema é que eu já faço 5 meses para a semana!...
- Ah! Então fazes parte da excepção que há sempre em todas as regras...

Podia ser pior, eu sei.

A juntar às coisas chatas da gravidez que, não sendo doença, pode fazer-nos sentir doentes, resolvi arranjar mais uma coisa gira: Síndrome do Tunel Cárpico.

Diz que é coisa que afecta 25% das grávidas. Não é tão raro assim, portanto. Surge graças às maravilhosas alterações hormonais que o corpo sofre durante a gravidez e ao inchaço natural deste estado.

Desde cedo na gravidez que eu sentia as mãos mais dormentes do que o normal. Com coisas simples e básicas (como estar mais tempo ao telemóvel), eu ficava com as mãos dormentes. Achava que era normal, e desvalorizava. E andei assim uns tempos. Até que ali pelos 6/7 meses de gravidez, a determinada altura, eu comecei a acordar a meio da noite cheia de dores na mão direita. A sensação que tinha era de que os dedos estavam a arder e dedos e mão estavam inchados. Estávamos em plena pandemia, e eu não queria ir ao médico por causa disso. Fiz uma teleconsulta e disseram-me que devia ser o dito Síndrome. Mandaram fazer gelo, repouso e ver se passava. A coisa melhorou, mas ao fim de umas semanas voltou a piorar, já me afectava as duas mãos, e eu achei melhor marcar uma consulta de ortopedia. Confirmou-se o diagnóstico e vim de lá com uma tala, para usar durante a noite, que imobiliza a mão e impede o pulso de dobrar (que é o que provoca as dores, ao comprimir o nervo). E é assim que eu estou há mais de um mês a dormir com uma linda tala, que dá imenso jeito (só que não). É chato. Não é nada do outro mundo, mas é chato. Voltei a conseguir dormir, só acordando com um ou outro desconforto pontual, e durante o dia tenho algumas dormências e dores nas articulações, mas estou bem melhor. Diz a médica que, depois do parto, pode demorar até 2 meses a passar completamente... O que vai dar imenso jeito com uma recém-nascida para cuidar. Mas tudo bem.

Mas... E porque nem tudo é mau... Há uma série de outras coisas que são comuns na gravidez e das quais não me posso queixar: não tenho grandes dores nas costas, não estou particularmente inchada, ainda consigo andar sem parecer uma pata, não tenho grande sono (antes tivesse)... 

Não, nem tudo é mau. Mas a verdade é que me custa lidar com estas limitações que o meu corpo me auto-impõe, sinto-me meio inútil na maior parte dos dias, e não estou a adorar esta fase. Mas diz que está quase a acabar...

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Da Gravidez... - VI (ou dos testes e exames diversos...)

Ao longo da gravidez, são muitos e variados os testes e exames que fazemos. Alguns são obrigatórios, mas alguns são opcionais.

Nunca tive grande problema com médicos, nem exames, nem agulhas, e sempre encarei tudo com alguma tranquilidade, perante a inevitabilidade da sua existência.

Já perante os não inevitáveis, surgiram algumas dúvidas.

Por já ter 35 anos (e ter feito os 36, entretanto), levantou-se a questão de fazer, ou não, a amniocentese. Foi nesta fase que começámos a ser seguidos por uma obstetra no privado, porque achámos que a médica de saúde não nos podia dar o acompanhamento e esclarecimento suficientes, em temas mais complexos e sensíveis. E foi também nesta altura que se deu um dos momentos em que percebi que, a partir do momento em que engravidamos, o nosso corpo deixa de ser apenas nosso. Falámos com a obstetra, que recomendou o teste Harmony e não a amniocentese. Sem surpresas, claro. E eu acabei por fazê-lo. Mais por vontade dele do que minha, confesso. Mas a minha vida deixou de ser só minha, a partir do momento em que comecei a carregar em mim a nossa filha.

Outro dos exames mais afamados que se faz durante a gravidez é a Prova de Tolerância à Glicose Oral, que consiste em tirar sangue em jejum, beber um "xarope" muito açucarado, e depois tirar sangue outra vez, ao fim de 1 e 2 horas, para ver como o corpo processa a glicose. A maior parte das pessoas diz horrores deste exame. Que custa, que é horrível, que dá vómitos. Eu ia preparada para o pior. Pois que, chegada a hora, pedi que me dessem o sabor a limão e em versão fresca, e bebi aquilo tudo quase de uma vez. Quando acabei, juro que a única coisa que me ocorreu foi: quem acha que isto é horrível, nunca provou certos géis da Prozis. A sério! Não é assim tão mau, e não custa assim tanto.

Claro que, depois disto, achava-me a maior, porque não me tinha custado nada. O pior estava para vir... Tive uma quebra de tensão brutal, e acabei deitada nas cadeiras da sala de espera, com toda a gente que entrava na clínica a olhar para mim... As figuras que uma pessoa faz!... Eventualmente, fiquei melhor, fiz as duas colheitas de sangue, fui tomar um bom pequeno-almoço e voltei para casa. Eu sou pessoa que precisa de comer, e as análises em jejum e eu nunca nos demos muito bem... Curiosamente, essa foi a última vez que tomei o pequeno-almoço fora de casa, estávamos nós no início de Março.

Mas... Não fiquei por aqui, no que a quebras de tensão diz respeito... Quando fiz a primeira CTG (há umas semanas), estava toda entusiasmada, porque ia estar a ouvir o coração da bebé e a ver as contracções do meu útero. O entusiasmo durou uns bons 3 minutos, depois do exame começar. Comecei com os calores, comecei a sentir-me enjoada, comecei a sentir-me tonta. Chamei o enfermeiro, que foi impecável, e rapidamente me deitou e pôs de lado, deu-me água, ofereceu-me um rebuçado, e tratou de me medir a tensão (que tinha medido antes de começar o exame e estava óptima). Estive lá cerca de 40 minutos, com a tensão a ser medida muitas e diversas vezes, e cheguei ao incrível valor de 65/38... Já tinha dois enfermeiros e uma médica à minha volta. Eventualmente, fiquei melhor. Aqui, acho que o problema foi o calor que estava na sala de exames e o raio da máscara que estava a usar. Esta treta da Covid-19 tem estas implicâncias, e obriga a que nos adaptemos a toda uma nova realidade. E sim, em ambientes quentes, custa respirar com a máscara. E eu achei que me ficava ali... A bebé? Estava óptima, na sua vidinha, a dar os seus pontapés.

Nesta fase, no que a exames diz respeito, falta-me apenas uma CTG (já fiz mais duas, entretanto, e sobrevivi sem quebras de tensão!), e falta-me fazer o exame da Covid... Se a princesa não se lembrar de nascer mais cedo!...

Houve alturas em que entre consultas, exames e análises, senti que precisava de toda uma agenda, só para o seguimento da gravidez... Mas a verdade é que cada exame, cada análise, cada ecografia, nos tranquiliza um bocadinho mais, na ansiedade constante que é saber se este pequeno ser que habita em nós, estará bem de saúde.

domingo, 21 de junho de 2020

Da Gravidez... - V (ou da gravidez e do exercício físico...)

Eu sempre achei que seria daquelas grávidas super activas durante a gravidez. 

Já tinha lido sobre o assunto e, quando descobri que estava mesmo grávida, li ainda mais sobre o exercício físico na gravidez, em geral, e sobre a corrida, em particular. Tinha uma perspectiva muito idílica da gravidez e do treino e achava que ia continuar a treinar como se nada fosse.

Depois aconteceu a realidade. E voltamos, pela 3ª vez, à bela lição nº 1 da maternidade, já por aqui referida: nada será como tinhas planeado. E não foi.


Eu continuei a correr nos primeiros tempos. Pouco, mas ia correndo.

Quando, uma semana depois de sabermos que eu estava grávida, tivemos a Family Race, decidimos que não fazia sentido fazer os 15km. Eu não andava a treinar para fazer 15km e, se em circunstâncias normais, eu teria ido na mesma nem que demorasse 3 horas, naquelas circunstâncias, seria só parvo insistir nisso.

Talvez agora faça mais sentido para algumas pessoas por que raio eu só fiz 6 ou 7km da prova... Está explicado!

História curiosa: lembro-me de ir na prova, nos primeiros quilómetros que fiz com o João Lima e de irmos entretidos na conversa, como sempre. Perguntava-me ele que maratonas é que tínhamos previstas para os próximos tempos, e eu disse-lhe que o louco mais louco do que eu estava a pensar ir fazer Valência em 2020, mas que eu não estava a pensar nem nessa nem em maratonas nos próximos tempos. O João, insistindo, perguntou-me se eu não tinha assim nenhuma nos meus sonhos que gostasse de fazer este ano. Eu, sem me descoser, disse-lhe que os meus sonhos para este ano eram outros. Felizmente, a conversa morreu ali, comigo a rir-me por dentro, e com o João talvez a pensar que eu ia desistir de correr.

Pouco tempo depois, fui fazer um treino na expo, porque queria mesmo continuar a correr, mas ao mesmo tempo passei o treino todo a pensar se estaria a fazer a coisa certa ou se estaria a correr o risco de hipotecar algo tão importante, só pelo capricho de continuar a correr. Incrível como, grávida de tão poucas semanas, e já todo o meu esquema mental se estava a alterar e tudo girava à volta daquele pequeno ser dentro de mim!... Acabei por falar com a minha médica de família sobre isso, que me disse apenas para ter juízo e reduzir a intensidade.

Duas semanas depois da descoberta, tivemos os Trilhos de Casainhos. Na altura, escrevi para mim: O meu regresso aos trilhos, por um lado, e provavelmente o meu último trail durante uns tempos, por outro. Ele foi amoroso e fez a prova comigo. Morreu de tédio, mas não saiu de ao pé de mim um segundo, sempre preocupado, sempre a perguntar se eu estava bem. Já não me lembro da última vez que tínhamos feito uma prova juntos, mas foi muito bom este regresso. Se não tivesse feito a prova com ele, muito provavelmente, teria desistido. Tê-lo ao meu lado ajudou-me a acalmar e a não estar constantemente a pensar no disparate que era estar a pôr em risco esta gravidez pelo capricho de fazer aquele trail. Vá, não foi um risco assim tão grande quanto isso, se tivermos em consideração que demorei quase duas horas e meia para fazer aqueles 15km. Digamos que fomos dar um passeio pelo monte, inseridos numa prova de trail. Não me andei a matar, não andei no limite, caminhei sempre nas subidas e abrandei sempre que senti que o ritmo cardíaco estava a disparar. Tentei esquecer-me que estava grávida e tentei aproveitar. As saudades que eu tinha de andar nos trilhos!... Do verde, dos single tracks, da lama (nem tanto), dos cheiros e dos sons... Sim, provavelmente foi a minha despedida dos trails durante muito tempo. E, por isso mesmo, valeu a pena!

Seria mesmo a minha despedida dos trails. Ainda estava inscrita em mais duas provas (Picos do Açor e Trilhos dos Reis), mas não me sentia mesmo confortável em andar sozinha no meio dos trilhos, com tudo o que isso implica. Se correr em estrada tem os seus riscos, mas em qualquer altura paramos e temos assistência, quando andamos nos trilhos qualquer pequena queda (e eu sou pessoa que gosta de cair nas provas de trail...) pode provocar estragos e pode acontecer em sítios inacessíveis e aos quais a ajuda pode tardar em chegar. Assim, despedi-me dos trails em Casainhos, e foi uma bela despedida!

Já das provas de estrada, demorei mais um bocadinho a despedir-me.

Ainda fiz as duas primeiras provas do Troféu de Oeiras (Porto Salvo e Cruz Quebrada), fiz a São Silvestre de Lisboa e fiz a São Silvestre dos Olivais em modo caminhada.

A São Silvestre de Lisboa acabou por ser a minha última prova. Nem cheguei a escrever o relato da prova, porque não saberia explicar por que motivo demorei 1h15 a fazê-la. Agora é fácil perceber. Eu sabia que não queria faltar a esta prova. Foi a minha primeira prova de 10km de sempre e é aquela a que todos os anos volto, sem falhar. Também foi a primeira prova que fizemos a dois, em tempos idos. E, em 2019, eu não ia falhar. Fui, ciente de que faria o que conseguisse, como conseguisse, sem me preocupar com tempos ou ritmos. E assim foi. Tive a companhia do meu pai durante uma boa parte do tempo, mas aos 6km disse-lhe que seguisse, porque eu precisava de caminhar um pouco. Estávamos no Terreiro do Paço e, a partir daí, fui alternando corrida e caminhada, preocupada, com algum desconforto e com medo de fazer algum disparate. No final, cortar aquela meta teve um sabor especial. Foi a primeira São Silvestre de Lisboa da nossa filha. De muitas, não tenho dúvidas!

Acabei por não fazer mais provas... Ainda corri algumas vezes e ainda fui algumas vezes ao ginásio, durante estes primeiros 3/4 meses de gravidez.

Mas depois... Depois veio a dura realidade: eu não tinha vontade. Eu andava cansada e permanentemente enjoada. Chegava ao final do dia e a última coisa que me apetecia era treinar. Acabei por cancelar o ginásio e arrumar os ténis.

Depois veio a Covid-19, eu vim para casa em teletrabalho e em reclusão total, e parei completamente de treinar. Ao fim de algum tempo, comecei a fazer uns treinos de força que via no YouTube, e ao fim de mais tempo ainda, com indicação médica, eu comecei a fazer pequenas caminhadas na expo e aqui no bairro.


Depois veio a indicação de repouso e tenho estado parada. E é isto.

Uma pessoa até queria... Uma pessoa tinha mil e uma expectativas e mil e um sonhos... Mas depois acontece a vida. 

De tudo o que li e investiguei sobre o tema, tudo indica que quem já tem uma vida activa e pratica desporto, pode e deve continuar a fazê-lo (com eventuais adaptações, que devem ser vistas caso a caso). O desporto faz bem ao corpo e à alma, e pode ser uma grande ajuda na preparação para o parto e na recuperação do mesmo.

Tenho pena, tenho mesmo, de não ter treinado mais e durante mais tempo. Mas os enjoos e a preguiça tomaram conta de mim... Resta-me esperar por poder regressar aos treinos depois dela nascer!

sábado, 20 de junho de 2020

Da Gravidez... - IV (ou dos primeiros dias depois da descoberta...)

Os primeiros dias (semanas?) depois de sabermos, foram de um misto de emoções.

Eu estava bastante incrédula. Olhei para o teste de gravidez várias vezes ao longo dos primeiros dias. Mas ele continuava imutável, com uma sentença clara: estava grávida. Não me parecia real. Não acreditava. Não me sentia grávida. Nem podia, claro está. Não me emocionei. Não chorei. Não tremi. Não senti as pernas fraquejar nem borboletas no estômago. Porque não acreditava bem no que estava a acontecer e estava assustada com o que aí vinha.

Obviamente, decidimos esperar antes de contar a quem quer que fosse. Fui fazer a primeira consulta, as primeiras análises, e quisemos também esperar pelas 8 semanas para contar à família mais próxima. Para nós, foi o que fez sentido.

A pouco e pouco, a ficha foi caindo. Eu fui tomando consciência do que aí vinha, e dei comigo preocupada com coisas que antes não me passavam pela cabeça e mais alerta para o mundo em geral. Mais cuidadosa para não escorregar no chão e não cair (coisa não tão rara assim em mim...), a olhar 3 vezes antes de atravessar a passadeira, a ver e rever listas de ingredientes antes de comer o que quer que fosse... 

Escrevi na altura: O meu corpo deixou de ser só meu. O meu corpo é, também, deste ser que agora o habita. E é, também, dele. Como lhe disse no Domingo, uma parte dele está dentro de mim. Os genes dele estão dentro de mim. E não sei se pode haver maior representação do nosso amor do que essa: agora, carrego-o comigo todos os dias. E é incrível!

Com as certezas do que estava a acontecer, e as análises que confirmaram o óbvio, começaram a surgir os primeiros receios e dúvidas. Estava a dar início ao maior desafio da minha dúvida, ao mais definitivo, ao que representava a maior responsabilidade da minha vida. E isso era aterrador.

Menos de uma semana depois de descobrirmos, demos início à primeira viagem a dois depois de sabermos. Primeira viagem a três, na verdade. Destino? O Porto. O Porto que foi o destino da primeira viagem a dois que fizemos juntos. Coincidência ou outra coisa qualquer. Assistimos ao concerto dos Ornatos, estivemos com um monte de gente boa (o Perneta ficou a dever-me um gin!), e ainda dei um passeio pela Family Race. Foi um fim-de-semana alargado cheio de memórias boas, e com aquele sorriso cúmplice de quem guardava um segredo tão nosso.

As primeiras semanas mantiveram-se neste misto de sentimentos: incrédulos, felizes, assustados. Numa montanha-russa de emoções constante. Que nem sequer podíamos partilhar com ninguém.

Releio o que escrevi na altura e parece mesmo que foi noutra vida... O tempo voou e diria que os sentimentos se mantêm: continuamos igualmente felizes e assustados. Mas está tudo bem.

Os devaneios Agridoces mais lidos nos últimos tempos...