Importa começar por dizer que eu sou uma acérrima defensora do Serviço Nacional de Saúde. SNS, para os amigos.
Já aqui falei deste tema noutras ocasiões, e acho que é das coisas mais importantes que temos e que deve ser preservado e valorizado.
Ultimamente, lemos e ouvimos cada vez mais notícias sobre a degradação do SNS, sobre as greves, sobre as faltas de pessoal, sobre a degradação das condições e sobre a dificuldade no acesso àquele que é um direito básico e consagrado na nossa Constituição.
Em Setembro, no espaço de poucos dias, tive experiências completamente opostas no SNS.
Como já por aqui contei, no dia do casamento da minha irmã, eu ainda dei um salto às urgências pela manhã. Fiz o que achei melhor na altura: liguei para a Saúde 24 (um serviço que merece todas as minhas vénias e aplausos), falei com uma enfermeira amorosa que me fez mil e uma perguntas, e que me disse que o melhor mesmo era ir às urgências, verificar se tinha o dedo partido ou não.
E lá fui eu, para o hospital da minha área de residência. Entre entrar, ir à recepção, passar pela triagem, fazer um raio-x, ter a consulta com o médico, e ir novamente à recepção, demorei menos de 30 minutos. Menos de 30 minutos. Sim, era Sábado de manhã, estávamos em Setembro e estava um belo dia de praia. Mas foram 30 minutos para uma situação que era tudo menos urgente.
Além do espanto com a rapidez do atendimento, ainda fiz figura de tola, porque fui perguntar quanto e onde é que se pagava. Porque não paguei nada. Nada de nada. Nem sequer o parque de estacionamento, cujo ticket me validaram na recepção.
Parece que por ter sido encaminhada pela Saúde 24, estava isenta da taxa moderadora. Felizmente, não vou vezes suficientes às urgências para saber disto. Mas parece que é mesmo assim.
E esta situação deixou-me perplexa e a pensar sobre o assunto.
Dias depois, numa consulta num dos maiores hospitais do país na sua área de actuação, fui encaminhada pela minha médica para uma consulta dentro do mesmo hospital, mas de uma área específica. Fui inscrever-me nessa consulta e disseram-me que o tempo de espera médio para a primeira consulta é de um ano. Um ano. Numa especialidade em que, por definição, estamos a lutar contra o tempo.
E esta situação deixou-me perplexa e a pensar sobre o assunto.
Eu não sei se concordo com o facto de não ter pago nada, ou de pagar uma ninharia, quando vou às urgências ou a uma consulta no SNS. A sério. Não me faz muito sentido usufruir de um serviço e não pagar por ele. Porque eu posso pagar por ele.
Acho que a saúde deve ser gratuita para quem, de facto, não a pode pagar. Acho que o Estado social deve intervir quando é necessário. Mas também acho que deve ser equilibrado e sustentável. E não me parece que o seja, nem de longe nem de perto.
Eu sei que há muito quem não concorde. Há quem ache que, como pagamos impostos, devemos ter direito a tudo e mais alguma coisa. Eu, sinceramente, não tenho uma opinião fechada sobre isso. Mas acho que não é justo que eu não pague nada, e que alguém com dificuldades tenha de pagar a taxa moderadora de umas urgências. Não sei. Talvez criar escalões? Inventam tanta coisa, inventem também uma forma de ajudar quem realmente precisa, mas sem fazer do SNS um buraco sem fundo de dívidas.
Sim, todos os meses o Estado recebe umas centenas de euros à minha conta, entre o que eu desconto e a minha entidade empregadora desconta. Mas desconfio que isso não seja suficiente para pagar o que eu usufruo em saúde, em polícia, em estradas, em escolas, em mil e uma coisas. E muito menos será suficiente para pagar a minha reforma um dia.
Se eu posso pagar, eu acho que devia pagar. Quanto mais não seja, porque se houvesse mais gente a pagar, ou se os preços fossem adaptados às possibilidades de cada um (como nos jardins-escola, por exemplo), talvez houvesse dinheiro para mais médicos. Talvez se o sistema fosse mais equilibrado e sustentável, os tempos de espera reduzissem.
Sim. Eu preferia pagar 20 euros da taxa moderadora, mais 10 ou 15 ou 20 ou o que fosse do raio-x que fiz. Preferia pagar o parque de estacionamento. Preferia pagar. A sério que preferia. E talvez assim eu não tivesse de esperar um ano por uma consulta de especialidade.
Mas, lamentavelmente, não há essa opção. O SNS continua a definhar. E eu vou continuar a ver o tempo a passar.
Se me podia virar para o privado? Podia. Mas sempre achei que, para o que realmente importa, é no SNS que devemos estar. Porque é lá que estão os maiores especialistas, os tratamentos mais avançados, os melhores equipamentos. Ou estavam. Que agora já nem sei.
Uma última nota, em jeito de curiosidade: o hospital onde vou esperar um ano por uma consulta, é de gestão pública, o hospital onde demorei 30 minutos nas urgências, é uma PPP. Vale o que vale. Ou então não vale nada.
Só sei que nada sei. Que estou confusa e perdida. E preocupada. Muito preocupada. Porque se nos falha a saúde e a educação (que está pelas ruas da amargura), não sei que país será este...

