Enquanto corria pela Serra Amarela fora, lembrei-me do meu daltónico preferido. Lembrei-me de uma prova anterior em que ele se tinha queixado da dificuldade em identificar as fitas marcadoras do seu percurso, por causa da sua côr. Já não me lembrava ao certo qual era a côr que tinha gerado confusão, mas pensei para mim que esperava que tudo estivesse a correr bem com aquelas fitas, pois, para mim, o percurso parecia-me extremamente bem marcado (ocorreu-me mesmo que podia até haver quem achasse que estava exageradamente marcado, porque há sempre quem goste de criticar só porque sim).
Pois que não. Se lhe perguntarem, ele não achou o percurso nada bem marcado, teve várias vezes dificuldades em saber por onde seguir, e houve inclusivamente uma situação em que só se conseguiu orientar porque passou por ele um atleta em modo muito acelerado, que, sem a mínima hesitação, seguiu caminho, mostrando-lhe por onde devia ir.
Este é um dos momentos em que ser daltónico não é só uma coisa gira, com a qual eu posso gozar por aqui e por aí. Ser daltónico também é... [inserir música de fundo dramática] Uma questão de vida ou de morte! Ou quase, vá...Pode ser, de facto, uma questão de segurança. Não imagino o desespero dele em algumas situações, mas pelo que me contou, a coisa não foi fácil... E eu fico aflita por ele! Porque nunca passei por isso e não imagino o que seja.
Claro que lhe disse que podia enviar um email à organização, de forma simpática e cordial, a explicar a situação. Porque acredito, piamente, que quem escolhe as cores das fitas para fazer marcações de percursos em prova, não se lembre sequer deste pequeno pormenor. Se não fosse ter um daltónico ao lado, eu jamais me lembraria!... Só quando convivemos com as situações é que elas ganham relevância para nós. Mas também acredito que, em sendo sensibilizadas para esta questão, algumas organizações pudessem optar por fitas de outras cores, porque não lhes faria grande diferença.
Pelos vistos, as fitas alaranjadas confundem-se muito no meio da folhagem. Quer-me parecer que ele vê tudo entre o verde e o castanho, mas a verdade é que não sei ao certo, porque discutir cores com um daltónico é assim a modos que discutir física quântica (para mim, talvez não para ele). Ainda há dias lhe perguntei o que achava da minha cor nova de verniz, e depois de ele me dizer que era gira, perguntei-lhe se sabia que cor era. Não sabia. Claro que não sabia.
Entretanto, fui investigar um pouco sobre o tema (viva o Google!). Parece que existem vários tipos de daltonismo, e o mais comum é mesmo o que gera confusão entre os verdes e os vermelhos. Encontrei estas imagens:
Quero acreditar que isto possa estar um pouco exagerado, ou que possa representar uma situação de extremos. Não quero acreditar que o meu daltónico vê mesmo o mundo assim, porque isso seria demasiado triste e deprimente... Mas fica explicado porque é que as fitas laranjas não funcionam para ele!... Imaginem andar no meio daquele verde todo e daquela folhagem toda, à procura de fitas alaranjadas?...
Acho que vou deixar de gozar com ele por ser daltónico!... Ou talvez não.








