quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Do dia em que eu fui operada (outra vez)...

Foi há uma semana que fui operada. Ainda pensei se valeria a pena escrever sobre isto por aqui, mas depois pensei que, tal como eu, podia haver mais gente que andasse por essa internet fora à procura de experiências de quem passou pelo mesmo. Por mais que médicos e enfermeiros nos expliquem o que se vai passar, é sempre diferente ouvirmos e lermos relatos de pessoas reais, como nós, com as mesmas dúvidas e medos.

A cirurgia em si não teve nada de especial. Acredito que, para as médicas que me operaram (tive uma equipa exclusivamente feminina de volta de mim - e onde raio é que eles arranjam médicas tão giras?), era apenas mais uma coisa simples e rotineira. Que era. Mas para mim não era assim tão simples nem rotineira. Apesar de já ter feito uma cirurgia do género há 15 anos atrás (adeus, ovário direito!), não deixava de ser uma cirurgia.

Não me lembro de grande coisa, obviamente. Lembro-me de me deitar na maca em que me levaram para o bloco. Lembro-me de passar da maca para a mesa no bloco. Lembro-me de perguntar pela anestesista e de querer saber que anestesia me iam dar. Lembro-me de me porem fios, de me prenderem à mesa, de haver todo um aparato à minha volta, de me dizerem que me iam começar a injectar a anestesia. E depois não me lembro de mais nada. Não houve contagens regressivas, nem elefantes cor de rosa, nem últimas palavras. Nada. Adormeci e acordei no recobro, cerca de 3 horas depois.

Confesso que tinha duas grandes preocupações: o meu útero e a anestesia geral (que nunca tinha levado). Nunca tinha pensado muito sobre isso, mas quando, na consulta de anestesia, o anestesista me explicou ao certo o procedimento, confesso que não fiquei muito confortável com a ideia. Além de ter de o ouvir comentar que, normalmente, as pessoas não faziam tantas perguntas e não queriam saber tantos detalhes. Mas ele era o sósia do Professor e eu queria ouvir tudo o que ele tinha para dizer. E então, disse-me ele, uma anestesia geral é mesmo isso: geral. Provavelmente, toda a gente sabe isto, mas eu nunca me tinha debruçado sobre o tema e ainda não tinha percebido exactamente que o conceito de anestesia geral é muito próximo de um shutdown total do nosso corpo, com uma fé absoluta de que, no final da cirurgia, vão conseguir fazer um reboot. E isso, ainda agora, não me deixa muito confortável. Mas eles lá devem saber o que fazem, ou não estivesse eu aqui a contar a história.

O pós-operatório podia ter sido pior: no próprio dia estava completamente drogada, lembro-me vagamente das visitas que tive, e queria mesmo era dormir. Nem fome eu tinha, se tal é possível!... Mas o dia seguinte foi duro. Estive estupidamente enjoada e acabei por vomitar duas vezes. Ora, depois de uma cirurgia abdominal, em que um simples espirro nos dá dores pouco suportáveis, o acto de vomitar é, além de pouco bonito de se ver, algo que nos faz desejar verdadeiramente que saia um alien de dentro de nós e nos mate de vez. Mas não. Continuei ali a sofrer até que, antes de dormir, me deram mais umas drogas para a veia, com a promessa de que, no dia seguinte, ia acordar fresca e maravilhosa (palavras da enfermeira). 

E, de facto, acordei bem melhor. Tão melhor que quando a médica me veio ver a meio da manhã, e depois de olhar para a minha linda cicatriz e os seus 13 agrafos, decidiu dar-me alta antecipada. Ou isso ou eu fiz um ar tão desesperado por me ir embora e ela teve pena de mim. Ou isso ou fez parte do plano de contingência que estava a ser activado por causa do calor e que fez com que a enfermaria onde eu estava (e onde chegámos a ser 9!), ficasse completamente vazia quando eu fui a última a sair ao fim do dia. O que importa é que vim para casa no Sábado, e não Domingo ou Segunda, como previsto inicialmente.

E em casa continuo. Entre a cama, o sofá da sala e o sofá do escritório. Entre séries e livros, quando há cabeça para isso. A pegar no portátil pela segunda vez agora, para escrever este texto. Com sestas. Com neuras. Com pouca paciência. Com algumas visitas. Com um gato cada dia mais mimado e que está agora encostado a mim, porque está imenso frio e precisamos de nos aquecer mutuamente.

E com dores. E com tonturas. E a enrolar a barriga em película aderente quando quero tomar banho, num momento sempre ridículo, sempre caricato. E a sentir-me cansada. E frustrada por me sentir inútil e incapaz de fazer o básico. E encharcada em drogas. Mas a sentir-me a melhorar, a pouco e pouco. Dia após dia. Sei que é uma questão de tempo até recuperar a minha mobilidade, até as dores e as tonturas melhorarem, até poder voltar a fazer alguma coisa e sentir-me produtiva.

Mas, já se sabe, não sou a pessoa mais paciente do mundo e este processo, que se quer lento e repleto de descanso, consome-me aos poucos e cansa-me.

 E ainda só passou uma semana!...


13 comentários:

  1. Tudo o que relatas no final é natural e humano. Mas foca-te na parte optimista de que estás a melhorar dia a dia. Não tens que ser sempre produtiva, também tens que ter os teus momentos assim.

    Beijinhos e envio muita energia positiva para melhorares o mais rápido que for possível mas, principalmente, da forma mais eficaz. Força!

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    1. Muito obrigada, João :) É só arranjar paciência e saber saber esperar!

      Um beijinho

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  2. Olá, faz este mês 2 anos que também fui operada, uma coisa simples e que complicou, relacionada com o aparelho digestivo.
    Foi a minha primeira cirurgia em 35 anos de idade.
    Quando acordei, achei estranho tanta atenção comigo, por parte do staff do hospital (privado). Apercebi-me depois que a cirurgia que eram os 3 furinhos na barriga, ficou uma cicatriz de 27 agrafes!!!
    Para piorar a situação, tive que andar com 2 sacos a drenar pendurados do meu corpo.
    Um dreno tirei ao fim de 1 mês, o segundo tirei ao fim de 4 meses.
    Demorava quase uma manhã a tomar banho, desinfectar e fazer curativo!! Só conseguia dormir 3 horas seguidas à noite, porque tinha de dormir de barriga para cima e as costas começavam a doer!!! O primeiro mês foi mau!!! Parecia que a anestesia ainda fazia resultado, cansada, sem forças e lenta de raciocínio.
    Quando regressei ao trabalho, demorava muito tempo na deslocação, não tinha forças. Chegava ao fim do dia estoirada.
    Mas passou, ainda tenho mazelas, não sinto metade da barriga, e claro uma cicatriz enorme para não me esquecer.
    Força.
    Sophia

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    1. Não imagino o sofrimento que tenha sido para ti! De facto, mesmo as coisas simples se podem tornar complicadas, daí estes receios que temos sempre com estes procedimentos.

      Muito obrigada pela tua partilha, Sophia! E ainda bem que o pior já passou :) Felizmente, o meu caso é mais simples, mas acredito que tenha sido desesperante passar por um período de recuperação tão longo, em que é difícil lidar com esta sensação de incapacidade e dependência dos outros.

      Obrigada!

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  3. O importante é que te sintas cada dia um bocadinho melhor que o anterior! Beijos, muitos!

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    1. Sim, é mesmo isso :) Obrigada, querida! Beijinhos

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  4. Olha... Por mim podes abrir o portátil mais vezes e escrever mais coisitas :) Um grande beijinho e boa recuperação!

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    1. Assim eu tenha cabeça para isso :) Obrigada e um beijinho!

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  5. Anestesias gerais?? Já perdi a conta de quantas anestesias gerais fiz nesta minha carreira de ET... O segredo para não vomitar é fazer "um bom jejum" antes, e quando acordas esperar um pouco até beber ou comer. Sou uma pró nestas coisas... E agora, muita paciência e vais ver que estás a 100% num instante. Entretanto podes continuar a escrever aqui, a malta agradece!!
    **

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    1. E eu aqui a queixar-me!...

      Jejum eu fiz, que aquela gente matou-me à fome nos dias anteriores... Enfim, espero não voltar a precisar das tuas dicas tão cedo!

      Um beijinho e espero que andes melhor das tuas maleitas (essas sim, sérias!)!

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  6. Eu fiz uma laparoscopia por causa da endometriose e levei anestesia geral e sim, tinha noção que geral é geral e é sempre um "vai que ela acorda"...
    No meu caso não reagi assim à anestesia, só tive sono mas levantei-me mal me puseram no quarto e nem tive muitas dores, apesar de insuflarem o abdómen para verem tudo lá por dentro, sendo laparoscopia tinha menos pontos.
    Da cesariana mais pontos mas na mesma poucas dores, felizmente...
    Também sou pessoa de fazer muitas perguntas ahahah acho que eles se arrependem quando dizem "pergunte o que quiser" hihihi...

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    1. Ainda bem que correu tudo bem contigo :) Acho que são sempre processos complicados, e o que importa mesmo é que corram bem e tenhamos a nossa saúde :)

      Comigo não têm hipótese, que eu quero saber sempre tudo! Ahahaha!

      Obrigada :)

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