terça-feira, 8 de maio de 2018

Da Maratona de Madrid... - III

Falemos então do primeiro quilómetro. Mas só do primeiro! Acham que eu consigo fazer isto render 42 posts e mais um extra pelos 195 metros? Tinha a sua piada, não?

Não. Pois que não.

Portanto...

Chegou o Domingo. O dia M. O dia 22 de Abril.

Acordei antes do despertador, pois claro. Nestas alturas acordo sempre com um espírito super focado e racional: tudo pensado, tudo cronometrado, tudo organizado ao milímetro. Acordar, tomar o pequeno-almoço (optar por um apartamento é fundamental por causa desta parte), vestir. Preparar tudo. Ver e rever se está tudo. Tentar enfiar os géis e as gomas todas na bolsa da cintura. Mais o telemóvel. Mais uns lenços de papel (just in case). Tirar as últimas fotos pirosas em frente ao espelho, já com o dorsal colocado. Sentir um nervosismo tremendo acompanhado de um entusiasmo tímido.

Claro que, apesar de tudo, saímos atrasados do apartamento. Claro que eu estava super nervosa. Claro que, por mim, tinha ido a correr até à partida. Mas não. Fomos de metro. E quando cheguei ao metro e vi muita gente que também ia para a prova, relaxei um pouco em relação às horas.

Chegámos ao local de partida com cerca de meia hora de antecedência. O que não é muito, obviamente. Fomos à casa-de-banho e fomos à procura dos nossos "cajóns". O meu era o último, naturalmente. O dele era outro, mas já nem me lembro qual.

Estava muita, muita, muita gente. Os números oficiais falavam em 33 mil participantes para as três provas e 11 mil para a maratona, sendo que a meia e maratona partiam juntas. Era mesmo muita gente! Ainda assim, não achei confuso, não havia filas por aí além para as casas-de-banho e a entrada nos "cajóns" parecia funcionar bem.

Comecei a entrar no espírito, a sentir-me nervosa porque tinha de percorrer aquilo que me parecia um caminho infinito até chegar ao meu "cajón", e a hora a aproximar-se. Mas lá cheguei. 

E chegou a hora da despedida. E eu abracei-me ao louco mais louco do que eu. E as lágrimas começaram a encher os meus olhos. E eu a olhar para o céu e a tentar respirar fundo. E eu agarrada a ele com as lágrimas a cair. Ele a insistir que ficava comigo. Eu a mandá-lo embora para o "cajón" dele. Ele a insistir que ficava. Eu a dizer-lhe que era um disparate tremendo estar a prejudicar-se numa prova destas por causa disto. Ele a insistir que ficava. E acabou mesmo por ficar e eu senti-me muito grata por isso. Sei que se tivesse ficado sozinha, ia ser um inicio ainda mais difícil. Já assim, o esforço para controlar os soluços e as lágrimas foi tremendo. Quando tocou o We Will Rock You, a emoção foi enorme. Os arrepios eram muitos e eu cada vez mais nervosa, mais emocionada, mais tudo. 

A espera até ao início da prova foi longa e sofrida. Mas, a pouco e pouco, fomos ficando mais próximo do pórtico da partida. E as emoções cada vez mais fortes. Até que chegou a hora. Última despedida. Ele de sorriso nos lábios, eu a perguntar-me o que raio fazia ali. E a prova começou. Eram 9h18 quando eu passei o pórtico da partida e comecei a minha primeira maratona.

Sabem aquelas pessoas super tontas que nós vemos a sair da prova para ir à casa de banho pouco depois da partida e ficamos a pensar por que raio não foram antes da prova começar? Eu fui uma dessas pessoas. Pouco depois de entrar no "cajón", achei que precisava de ir (outra vez) à casa-de-banho. Mas não queria abandonar o louco mais louco que eu, que ali tinha ficado comigo. E queria perceber se aquilo eram nervos apenas. Mas não. Comecei a correr e percebi que a minha bexiga estava a sentir-se demasiado pressionada e que a coisa não ia correr bem. Seiscentos metros depois da partida, eu saí da corrida para ir à casa-de-banho. Mas que fique registado que não fui a única!..

Assim, tive um primeiro quilómetro muito lento... Mas valeu a pena porque parecia que depois ganhei nova força. O facto de ir na recta final da prova, e com menos confusão, também ajudou.

E lá fui. Os primeiros quatro quilómetros foram sempre a subir, o que é uma excelente forma de se começar uma maratona. Só que não. E lá fui. A tentar gerir. A tentar não me entusiasmar. A tentar não deixar que a subida me vencesse. A tentar mentalizar-me de que tudo aquilo era real e que estava a fazer a minha primeira maratona.

Os primeiros quilómetros foram, de facto, duros. Não só pela subida, mas por me sentir sozinha, por ainda ter as emoções todas à flor da pele, por todos os medos e dúvidas, pelos pés e pernas cansados a acusar a falta de descanso dos últimos dias. Era inevitável questionar-me se seria capaz de fazer uma prova daquelas, depois de tudo o que tinha acontecido, depois de tudo o que não tinha descansado, depois de tudo o que não tinha treinado na última semana. Mas lá fui.

Tentei manter-me num ritmo estável mas rapidamente percebi que isso era impossível. Com tanto sobe e desce, era muito difícil conseguir manter sempre o mesmo ritmo. Como tinha começado muito lenta, e o início era a subir, queria ir recuperando a pouco e pouco, e manter-me nos 6'30/6'35 (quem nasceu para tartaruga, nunca chegará a lebre...). E ia olhando para o rimo médio no relógio e a coisa estava a correr bem.

A única coisa que corria menos bem, é que depressa percebi que havia um certo desfasamento entre o que o meu relógio marcava e as marcações dos quilómetros ao longo do percurso. Acabei por pagar caro por isso no final (lá chegaremos).

 


Mas lá fui andando. Com tempos pouco estáveis. A ficar preocupada de cada vez que fazia um quilómetro mais rápido. Sabia que qualquer entusiasmo excessivo nesta fase, ia-me ser cobrado mais adiante. Assim, mesmo nas descidas, não me soltava muito.

E a coisa ia correndo relativamente bem. Os espanhóis são o que se sabe, ainda que não se tenham feito ouvir tanto nos quilómetros inicias. Mas bastou voltarmos mais para o centro, e era vê-los a gritar e a bater palmas nas ruas.

Houve um momento muito revelador nesta fase. Foi quando virámos à direita e entrámos na Velázquez. Foi mais forte do que eu. Eu olhei para aquela subida e não pude evitar um palavrão. Daqueles a sério. Descobri que, entre todas as outras coisas, a maratona fez-me dizer palavrões. E este foi o primeiro. Apesar de ter continuado sempre a correr, este foi o meu primeiro quilómetro mais lento, pois à subida juntou-se um abastecimento. Eu nunca parei nos abastecimentos, mas, por vezes, abrandava para tentar não tomar banho de isotónico. Um dia hei-de ser super croma e hei-de conseguir beber de copos enquanto corro sem qualquer problema. Ou então não.

(não faço ideia onde foi tirada esta foto mas sei que ainda foi no início)

O momento verdadeiramente marcante da primeira fase desta maratona foi a separação da meia e da maratona, que seguiram juntas até ao quilómetro 17. Depois, eles seguiram em frente e nós virámos à direita. Eu temia esta separação. Tinha medo de vacilar, de hesitar, de pensar em seguir em frente. Não esperava, nem um bocadinho, o que ia acontecer. Os corredores que seguiam para a meia não paravam de bater palmas, de nos incentivar, de gritar palavras de ânimo, de nos chamar campeões. Estou arrepiada só de me lembrar! A emoção, Senhores! Como é que uma pessoa não chora que nem uma madalena numa altura destas?! O que me custou! Vocês sabem lá o que é tenta correr e só querer chorar! Eles a baterem palmas e eu de lágrimas nos olhos. A tentar não soluçar. O que senti é indescritível. Foi incrível a força que os outros corredores davam a quem seguia para a maratona. E eu de lágrimas nos olhos, enquanto virava para a maratona e me perguntava se era merecedora daquilo tudo e se seria, de facto, capaz. Mais uma vez, a questionar-me e a perguntar-me se não deveria seguir para a meia. Mas não segui. Obviamente, não segui.

Pouco depois disto passámos por um viaduto onde estava mais um abastecimento com uns carros de bombeiros, e os respectivos bombeiros, sendo que um deles estava com um megafone a gritar palavras de ânimo e todos a bater palmas. É impossível ficar indiferente a isto! Uma pessoa arranja logo forças nem sabe bem onde e lá vai fazendo quilómetro após quilómetro, vendo o tempo a passar.

E foi assim que cheguei à meia. Metade já estava. O meu relógio dizia-me que eu estava com cerca de duas horas e vinte, e isso parecia-me bem. Chegar à meia foi, obviamente, um marco importante, mas coincidiu com a parte em que andámos mesmo pelo centro de Madrid, pela zona das compras, e houve ali uma altura em que estava mesmo a sentir-me incomodada pelo percurso. Estava a ficar com uma pequena neura, porque passávamos pelo meio de muita gente, em ruas mais estreitas, com empedrados terríveis, e eu estava a sentir-me desconfortável com isso. 

(esta foi nessa fase no centro e eu nem para a foto consegui sorrir...)

Pouco depois, junto ao Palácio Real, mesmo ao meu lado vejo uma atleta cair. E não foi bom. Ela caiu, magoou-se mesmo, e eu parei mas percebi que ela estava acompanhada e vi os colegas dizerem-lhe que não era nada (ainda que ela tivesse a testa raspada e a escorrer sangue...). Com o apoio dos colegas, ela lá continuou a correr. Mas, claro, aquilo mexeu comigo, que já vinha meio abalada, e fiquei durante um tempo a pensar no que seria se me acontecesse o mesmo.

E foi assim que entrei naquilo que foi, para mim, a segunda fase da maratona.

Não percam o próximo episódio porque eu... Também não!

18 comentários:

  1. Magnifico. Obrigado pela partilha. o Km 17 é algo do outro mundo. Parabens.

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  2. Mas, mas????? .... isto não se faz :( ... é só isso que tenha a dizer :(
    ... tou a adorar e a conseguir "sentir" a tua prova ... despacha lá o resto mas é ...
    :):):)

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    1. Ahahah! Tenho de fazer render isto :)

      O resto vem a caminho!

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  3. Amei o teu relato... Estive aqui a controlar me para não chorar... Estou "em pulgas" para ler o resto!!

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  4. Estou a amar a emoção com que descreves a prova. E ao mesmo tempo estou a tentar sincronizar isso com o nosso acompanhamento através da app. :)

    Metade já está, não desistas agora, vamos! :)

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    1. Também gostava de ter acompanhado o vosso acompanhamento ;) sei bem o que isso é e também consegue ser muito emocionante!

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  5. Estou arrepiada com a tua história. Pessoal que lê este blog e que diz "esta miúda é incrível", eu só tenho a dizer: "eu já tomei o pequeno almoço na companhia dela, vá, roam-se de inveja". Que orgulho gigante em ti miúda!!

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    1. Ahahah! Que amor :) Obrigada! Não fiz nada que qualquerqualquer um não fizesse :)

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  6. Espetacular. Essa parte da separação então..incrivel. "obviamente, não segui". lindo. Venha a parte 2!

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    1. Foi mesmo um momento único, que dificilmente esquecerei! :)

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  7. A aguardar com entusiasmo e muita curiosidade!
    :)

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    1. Ai! Até tenho medo dessas expectativas todas!

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  8. Relato sentido de uma bela estreia.

    Já fui buscar as pipocas.

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    1. Se há palavra que me encanta em espanhol é palomita :D mas olha que isto ainda demora!

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  9. Ai ai ai... Estes relatos "partem-me" todo :)

    Magnifica primeira parte dum grande feito.
    Toda a emoção sentida na altura e que perdura ao escreveres, deixando as palavras para todo o sempre em partilha com o que ficará eternamente colado nas tuas melhores emoções e memórias!

    Tudo isso é uma Maratona, algo que se entrenha de forma inexplicável nos nossos sentidos.

    Impossível não emocionar com o que descreves, desde o abraço antes da partida ao momento da separação da Meia. Sublime!

    E agora fiquei a saber como foram os primeiros 5 km pois essa foi a parte que a app se passou e dizia que ias a 5.39 e eu em pânico a julgar que te tinhas passado. Afinal quem estava passada era a app que, felizmente, corrigiu a partir daí :)

    Nem sei o que dizer mais. Estes artigos dão mesmo cabo de mim, no melhor sentido :)

    Beijinhos, maratonista Inês e venga lo resto

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    1. É por isso que escrevo isto aqui... Para guardar estas memórias e emoções e para que possa vir relembrá-las sempre que queira!

      Ahahah! Ela deve ter-se baralhado com a minha ida à casa-de-banho (porque para ir passei por pontos de controlo). Ainda bem que depois atinou! Estas modernices permitem estas coisas fantásticas e ainda bem :)

      Um beijinho!

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