quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Do que custa...

O que custa não é todo o mal que me fizeste. O que custa, o que custa mesmo, o que me tira o ar e me revolve as entranhas, é aquilo que tu destruíste em mim.

Com o mal que tu me fizeste eu consigo lidar. Uns dias melhor, uns dias pior. Na generalidade dos dias, melhor. E será uma questão de tempo, não tenho dúvidas, até que todo e qualquer dia seja um dia em que lido bem com isso.

Eu não consigo lidar é com o que tu destruíste, talvez irremediavelmente, em mim. Tu destruíste aquilo em que eu acreditava. Mais do que isso, e como se não bastasse, tu destruíste em mim a capacidade de acreditar. Tu destruíste também os meus sonhos. A minha fé nas pessoas. Esmagaste a minha inocência. Espezinhaste o caleidoscópio colorido com que eu via o Mundo.

Tu não me fizeste só mal. Tu não me destruíste apenas. Tu não deitaste só fora o nosso passado. Tu hipotecaste o meu futuro.

E é isso que não te perdoo. É isso que não te vou perdoar nunca. Não creio que haja terapia suficiente no mundo que me possa ajudar a perdoar-te por teres destruído em mim a capacidade de acreditar.

Tu plantaste em mim as sementes da insegurança, da desconfiança, do cepticismo, da frieza. Não só as plantaste como as deixaste bem alimentadas, garantindo que criavam raízes profundas.

E é isso que custa. Muito. Tanto.

É o querer ser feliz e não conseguir. Não ser capaz. É o não ter em mim forças para querer voltar a acreditar. É o não querer correr riscos. É o ter um medo grande, tão grande, de voltar a sentir o que tu me fizeste sentir, que não quero dar um passo sequer para sair da minha bolha e voltar a confrontar-me com o Mundo. Tu deixaste-me bloqueada. Bloqueada por este pânico de voltar a passar pelo mesmo.

E não tinhas esse direito. E ao mesmo tempo que não tinhas esse direito, fui eu que to dei. E, em última análise, é isso que eu não quero. E é isso que eu acho que não vou voltar a ser capaz de fazer: dar a alguém o direito de me magoar como tu me magoaste.

Foi isto que tu me fizeste. E é isto que custa. Muito. Tanto.

6 comentários:

  1. Imagino que custe. Já passei por isso. Mas hoje, com 42 anos, costumo dizer que o tempo cura todas as feridas...embora possa deixar cicatrizes.

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    1. É, não é? Também tenho esperança que sim :)

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  2. Percebo-te muito bem, e percebo esse sentimento de perda, e sinto-o ainda muitas vezes. Há feridas que são tão profundas que nunca cicatrizam completamente e deixam marcas durante anos. Mas acredito que sabes o que e como aconteceu, o que fizeste para permitir, já é um passo na resolução desses sentimentos. O tempo nem sempre cura, mas ajuda. Força.

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    1. Obrigada pelas tuas palavras. Não sei ao certo o que se passou contigo, mas já fomos identificando algumas semelhanças. E ver que estás bem agora, ver que estás a abrir o teu ninho e que voltaste a ser feliz, dá-me alguma esperança :) Um beijinho!

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  3. minha querida. eu tb sou assim, vivo as coisas intensamente. há gente que dá cabo de uma pessoa, é verdade. marcam-nos muito, algumas pessoas. mesmo que nos abandonem. morremos por dentro, choramos, entristecemos. que se fodam! é possivel ultrapassar tudo, só temos de querer muito. :) e sim, o amor é uma grande merda :) mas, o que será de nós, se não tentarmos sempre?

    Marta

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    1. Sim, tudo passa! Mas, às vezes, perdemos a vontade de voltar a tentar :)

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