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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Dos milagres na nossa vida...


Há dias cruzei-me com esta citação num qualquer grupo de corrida. E é isto. É tão isto.

Precisamente seis meses depois da minha primeira Maratona, e quando ainda me custa escrever isto (eu fiz mesmo uma Maratona?), o sentimento é o mesmo: o meu milagre não foi ter feito uma Maratona. O meu milagre foi ter feito a inscrição, foi ter passado por meses de treino, foi ter vivido mil altos e baixos pelo caminho, foi ter abdicado de muita coisa, foi ter arranjado forças ainda não sei bem onde, foi não me ter deixado abater pelo que aconteceu nos dias antes da prova, foi não ter desistido ainda antes de começar. O meu milagre foi mesmo ter posto os pés na linha de partida naquele dia 22 de Abril em Madrid.

Ainda hoje, não sei como fui capaz. Ainda hoje, digo o mesmo a quem me pergunta: fazer uma Maratona não custa. Custa é todo percurso até lá.

Mas vale tanto a pena!

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Do fim-de-semana pela Régua...

Não foi fácil já ir a caminho quando soubemos do cancelamento das provas mais longas do Douro Ultra Trail, mas achámos que o melhor a fazer (ou mesmo a única coisa a fazer), era tentar aproveitar o fim-de-semana prolongado que tínhamos pela frente. E assim fizemos!


Depois de irmos levantar o dorsal dele, e de beber um copo na fantástica esplanada do Museu do Douro, fomos jantar a um italiano (que não deixou grandes saudades, confesso).


Eu comi uma salada. É verdade!... Foi a minha única tentativa de ser saudável no fim-de-semana inteiro. Mas, pelo menos, tentei!


Ficámos confusos com esta mensagem no elevador do hotel, mas decidimos ser rebeldes e agarrámo-nos um ao outro. Sobrevivemos.

Marquei este hotel única e exclusivamente porque tinha piscina. Achava eu que ia aproveitar o tempo que ele ia demorar a fazer os 45km para ganhar a cor que não ganhei durante o Verão que passei fechada em casa... Pois que a piscina era um pequeno lago verde, pois passou a estar fechada desde o dia 1 de Outubro. Pois. 


Como sou uma pessoa amorosa (ou não), Sábado acordei cedo e fui com o louco mais louco do que eu até à partida dos 25km. Na verdade, a alternativa era ele ter de apanhar um dos autocarros que partiam até às 7h30... Ninguém merece, certo?


Pontos muitos positivos para esta partida dos 25km do Douro Ultra Trail! Tivemos direito a um rancho popular a tocar e a cantar, tivemos um abastecimento (acredito que tenham ficado com muita comida a mais, depois do cancelamento das outras duas provas), e tivemos aquela coisa que a malta super saudável das corridas come: nutella. Muita nutella.


Tivemos? Eu não tive nada... Mas tiveram todos os bravos atletas que alinharam naquela meta no Sábado de manhã.




Pouco depois das dez lá foram eles, encosta acima. E eu? Eu fiquei ali, arrepiada, emocionada, de lágrimas nos olhos (benditos óculos escuros!), a tentar gerir as estranhíssimas emoções de, pela primeira vez, assistir à partida de uma corrida na qual não participei. E a vontade que eu tinha de participar!... Custou-me. Custou-me mesmo muito. Eu estava inscrita nesta prova. Eu devia ter ido correr. Mas quis a minha recuperação que assim não fosse. E custou-me... Quem corre sabe bem o que é a adrenalina do início de uma prova, os olhares cúmplices, os sorrisos mais ou menos nervosos, as últimas palavras trocadas, a emoção em crescendo até ouvir o som da partida. São sensações únicas. E das quais eu tenho demasiadas saudades!...

Mas, em não tendo muito mais para fazer, e tendo companhia de outra roadie, aproveitei para dar umas voltas, e acabámos por ir até ao Pinhão. O Douro e as suas paisagens merecem mesmo o título de Património da Humanidade, e é impossível não nos apaixonarmos um bocadinho por aquela região. Não há fotografias que lhe façam justiça.



À tarde, depois da prova concluída, do banho tomado, e de um almoço numa tasca daquelas mesmo típicas, decidimos espreitar o Museu do Douro.




E foi uma bela surpresa! É um museu pequeno, mas que nos permite aprender algumas coisas sobre a história do Douro, e descobrir algumas curiosidades sobre esta região, que está intimamente ligada à produção do vinho do Porto.





Incluído no bilhete do Museu está um copo de vinho do Porto, em jeito de prova, que tomámos a apreciar o pôr-do-Sol e a vista magnífica.


O jantar foi em Lamego, no restaurante Vindouro. E foi tão bom! O espaço, o atendimento, o vinho, o meu filete de robalo e o bacalhau dele, as sobremesas... Não é barato, mas aproveitámos uma promoção do The Fork e acabou por ficar a um preço bastante aceitável para a qualidade do que nos foi servido. Se forem para aqueles lados, vale mesmo a pena! 


No dia seguinte, rumámos a Viseu, já a caminho de Lisboa. Já não ia a Viseu há muitos anos e, apesar de ter sido uma visita curta, deu para passear um pouco pelas ruas e visitar a Sé.


Roupa estendida numa janela Manuelina é um luxo que não é para qualquer um, não!







Almoçámos muito bem, pois claro, que neste país só come mal quem quer, ainda fomos comprar uns doces típicos de Viseu (só para o lanche... não fosse dar-nos a fome pelo caminho), e rumámos a sul. 

Apesar da desilusão com o Douro Ultra Trail, acabou por ser um excelente fim-de-semana, que deu para passear, para descobrir novas coisas no nosso país, para descansar, e para ganhar mais quilos do que aqueles que gostaria.

Não tendo tido férias de Verão, cada um destes fins-de-semana fora sabe-me pela vida! E só comprova aquilo que já todos sabemos: não precisamos de ir para fora para passar bons momentos, comer bem, beber melhor, e ver coisas incríveis!

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Dos regressos (lentos)...

Esta semana voltei a correr. Ou voltei a fazer algo parecido com correr, mas que não sei se será bem correr.

Foi na segunda-feira, depois de jantar. Sim, depois de jantar. Fomos até à expo, para aquilo que seria uma caminhada para eu me voltar a mexer para então, uns dias depois, voltar a correr. Mas foi mais forte do que eu. Ele ficou para trás a tirar fotografias à incrível lua que estava sobre o rio, e eu continuei a caminhar sozinha. Às tantas, resolvi voltar para trás a correr. 100 metros. Só 100 metros. 

Depois disso, continuei a fazer 200m a caminhar e 100m a correr. Fiz dois quilómetros assim e, no terceiro, resolvi fazer 200m a correr e 100m a caminhar. E foi isto. Três quilómetros, a alternar corrida e caminhada. Devagar, devagarinho.

Fiz tão pouco mas senti que fiz tanto!... E fiquei tão feliz! Nunca pensei que fazer algo como voltar a correr me fosse deixar tão feliz. Mas deixou. Acho que foi o aliviar de toda a frustração que acumulei dos últimos dois meses parada. Se há uns anos atrás me dissessem que um dia chegaria a isto, não acreditava. Mas é verdade.

E, entretanto, já estou inscrita para a Meia dos Descobrimentos e para a São Silvestre de Lisboa. Quem se junta?

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Deste ano que nunca mais acaba...

Estou cansada de 2018. Não sei se há na sabedoria chinesa (ou em qualquer outra, na verdade) que fale sobre este ano, ou sobre os anos que acabam em 8, ou sobre o alinhamento cósmico que só existe a cada três séculos e meio, ou que já os Maias previam que isto ia ser assim (quando é que é o fim do Mundo, mesmo?), ou qualquer outro motivo em que alguém queira acreditar para justificar por que raio este ano está a ser assim. Não sei. Talvez me desse algum conforto acreditar em alguma coisa que me desse uma breve explicação para o que não entendo. Mas não acredito. Acredito que a vida é o que é, é o que tem de ser, e a única coisa que pode mudar é a forma como a vivemos e lidamos com ela.

Estou cansada de 2018. Estou cansada da morte. Estou cansada das doenças. Estou cansada das más notícias. Estou cansada dos sustos. Estou cansada de estar cansada. E estou cansada de sentir que estou constantemente a queixar-me mas sentir, ao mesmo tempo, que não tenho tido uma folga este ano. Há sempre alguma coisa a acontecer. Há sempre uma preocupação. E outra. E outra. Não me lembro da última vez em que respirei fundo e pensei que estava tudo bem. E não, não é porque eu seja dramática, porque adore queixar-me, porque vejo problemas em tudo. É mesmo porque este ano está a ser estupidamente exigente, com quedas atrás de quedas. E ainda faltam três meses e meio e ainda muito pode acontecer.

Na maior parte dos dias, continuo a sorrir e a acenar. Está tudo bem. Não se passa nada. Mas aqui, aqui escrevo o que me apetece e a única coisa que me apetece escrever é que estou cansada. 

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Sati do Areeiro (15/07/2001 - 13/09/2018)

Até já, Sati!

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Das coisas que eu faço com 3 meses de atraso...

Ainda só passaram 3 meses desde que a Vera me lançou um pequeno desafio, mas eu achei que era hora de responder. 

O desafio tem algumas regras, e é suposto eu inventar outras tantas perguntas e nomear outras tantas pessoas para responder, mas já passou tanto tempo, que me vou limitar a responder às perguntas da Vera, por achar que é uma forma engraçada de falar de temas dos quais habitualmente não falo mas que podem revelar muito sobre mim. Vamos a isso!

1) Onde viverias se pudesses escolher e porquê? Eu gosto de viver onde vivo mas, se fosse para mudar, ou voltava para a linha de Cascais (o mar faz-me falta, e o rio não é a mesma coisa), ou era pessoa para me mudar para Londres. Adoro a cidade e é aquela onde mais facilmente me consigo imaginar, se tivesse/quisesse emigrar.

2) Que sonho tens por realizar? Tantos! No dia em que deixar de ter sonhos por realizar, não vou saber o que ando a fazer nesta vida...

3) És feliz quando... As minhas pessoas estão felizes. Quando cumpro um objectivo ao qual me propus. Quando como aquelas coisas de que gosto mesmo. Quando estou na praia e dou mergulhos no mar. Quando viajo. Eu sou feliz com pouco, na verdade!

4) O teu ídolo é... O meu pai

5) Não conseguia viver sem... As minhas pessoas.

6) Praia ou campo? Os dois. Adoro praia, mas também gosto muito do sossego do campo.

7) Arrepender-me do que não fiz ou do que fiz? Até agora, tenho passado por ambas as situações. Meio termo e ponderação, sempre.

8) Há esperança para a humanidade? Na maior parte dos dias, acho que não. Mas todos os dias luto para que sim.

9) O que mais te irrita... A injustiça. Tira-me mesmo do sério.

10) Os teus 3 piores defeitos e qualidades. Estive imenso tempo a tentar responder a esta e desisti... Talvez alguém queira responder por mim?

11) Se não tivesses a tua profissão o que serias... Chef!

12) Cinema ou filmes em casa? Gosto muito de ver filmes em casa mas adormeço quase sempre, por isso... Cinema e pipocas!

13) A tua vida dava um livro com que tema? Pergunta-me quando a minha vida acabar!

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Do meu estado actual...

Devia ter voltado ontem ao trabalho. Não voltei. Tive consulta com a médica de família e ela achou melhor eu ficar mais uns tempos em casa, até ter a consulta na MAC e termos a certeza de que está tudo bem.

Continuo cansada, continuo com dores, e estou cada vez mais farta de estar em casa. Tenho saído raras vezes, e por pouco tempo. Quando abuso, ressinto-me logo. E é mesmo desesperante esta sensação de incapacidade e inutilidade.

Tenho aproveitado para fazer algumas coisas. Poucas, mas algumas. Voltei a pintar, apenas para ficar com vontade de deitar tudo fora e nunca mais pegar nos pincéis na vida. Vi um documentário interessante, sobre o qual talvez escreva aqui. Pensei em comprar malhas e agulhas, para me dedicar ao tricot, mas desisti a tempo. Já arrumei papéis que estavam enfiados numa estante desde o dia em que me mudei para esta casa. Continuo sem me decidir em relação à mesa de jantar. Já fiz 2 certificações da Google. Já fiz algumas caminhadas leves mas entretanto desisti delas não sei por quanto mais tempo. E podia enumerar mais umas quantas coisas nesta tentativa de provar a mim mesma que não tenho sido assim tão inútil. Sendo racional, eu sei que não. 

Mas estou rabugenta. E tenho direito a isso.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Das várias vidas que temos numa só vida...

Há 9 anos atrás a esta hora, eu estava a casar-me. Eu, de vestido de noiva e véu na cabeça, estava a jurar amor eterno perante uma centena de convidados, a prometer amor e respeito até que a morte nos separasse. Sendo que nenhum de nós morreu entretanto foi então, naturalmente, a vida que nos separou. Como seria expectável, até.

Há 9 anos atrás eu não sabia que aquele casamento não ia resultar. Ou, e nunca o admiti até agora, talvez soubesse. Talvez no fundo de mim eu já soubesse que aquele casamento não podia resultar. Mas, na minha ingenuidade, na minha vontade de ser feliz, na minha necessidade básica e primária de ser amada e ter alguém ao meu lado, eu quis acreditar que tudo ia correr bem. Eu quis acreditar que, acreditando muito, aquele casamento podia resultar. Na minha habitual arrogância, eu achei que a minha vontade e empenho, seriam suficientes para levar aquela relação a bom porto. Nada disto foi suficiente. Obviamente.

Curiosamente, se há coisa que eu tenho bem resolvida na minha cabeça é este episódio da minha vida. Talvez seja redutor chamar-lhe isto. Mas a verdade é que é algo tão distante, de uma pessoa tão diferente do que sou hoje, que parece que não foi a mesma pessoa que se casou há nove anos atrás, e a que hoje escreve sobre isso. São mesmo pessoas diferentes e hoje falo disso com toda a tranquilidade e naturalidade do Mundo.

Mas não foi sempre assim. Não foi fácil assumir aos 27 anos que estava divorciada. Não foi fácil terminar um casamento ao fim de apenas 2 anos. Assumir o falhanço, o fracasso, o erro. Mas não tenho a mínima dúvida de que foi a decisão certa. Nunca tive, aliás.

Ter casado, ter estado casada, ter passado por um divórcio, foi apenas uma das muitas vidas que já levo nesta vida. Sem dúvida que foi algo que me fez crescer, aprender, evoluir, chegar onde cheguei.

São curiosas as vidas que a volta dá, as vidas que vivemos, as pessoas que vamos sendo, as crenças que deixamos de ter, as novas crenças que passamos a ter, as inseguranças que vão e vêm. A nossa essência está sempre lá, mas não deixo de me maravilhar com o tanto que pode acontecer com o passar dos anos. A vida continua a espantar-me com a forma como nos surpreende, como nos muda e molda, com tudo o que nos oferece durante o período de tempo em que por cá nos permite andar. Fico sempre a pensar no que será que a vida tem para mim a seguir.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Das coisas em que eu penso...

Ainda penso em ti. Muitas vezes. Demasiadas vezes, talvez.

Não penso em ti por ter saudades, por sentir a tua falta, por querer ter-te de novo na minha vida.

Penso em ti, apenas e só, porque ainda não fui capaz de me perdoar por todo o mal que me fizeste. Talvez um dia consiga ultrapassar isso. Talvez um dia volte à terapia. Talvez toda a terapia do Mundo não seja suficiente para eu aceitar que ter-te permitido que me fizesses tanto mal, não faz de mim uma pessoa menor.

Além de todas as feridas evidentes e óbvias, há todas as outras que ninguém sabe, que ninguém conhece, mas que trago gravadas em mim e das quais não me consigo livrar, por mais que queira.

Não sou uma pessoa bem resolvida, não levo uma vida perfeita, não tenho as ideias milimetricamente arrumadas e não estou cheia de certezas. Tenho dúvidas, tenho medos, tenho uma bagagem imensa que me faz questionar-me. Muito.

Gostava de escrever sobre o quão feliz sou. Sobre o quão grata me sinto pelas coisas boas que a vida me deu. Sobre o quão sortuda me sinto, tantas vezes. Que sou. Feliz. Grata. Sortuda.

Mas não o sou todos os dias. Não consigo. E, hoje, só consigo ficar a olhar para mim e para o passado, e continuar a tentar perceber como foi possível, como é que eu, pessoa que se considera inteligente, permiti que tudo aquilo acontecesse, como é que eu desperdicei tempo de vida daquela maneira, como é que eu não fiz nada. Como?... E o pior? O pior é saber que pode voltar a acontecer. Porque é tão fácil!...




Nota: este post já foi escrito há algum tempo. Hoje estou como sou. Não no Alta Definição, mas feliz, grata e sortuda, nesta casa de onde pouco ou nada tenho saído e que me dá para devaneios com pouco sentido.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Das caixinhas mágicas...

Como referi por aqui, em Julho tive um casamento no Douro. Em Santa Marinha do Zêzere, mais precisamente. Nunca tinha estado naquela zona, e é impossível ficarmos indiferentes à beleza do que vemos, àquelas paisagens, à forma como o Douro serpenteia entre aquelas encostas, que se sucedem umas a seguir às outras, até ao fim do que os nossos olhos conseguem alcançar.



Não houve tempo para muito, mas ainda deu para passear um bocadinho, comer muito boa comida, e ficar com vontade de lá voltar, para explorar melhor a região (será em Outubro, com ou sem trail!).




Não me alongarei muito a falar de um casamento que não o meu, porque acho sempre que este tipo de cerimónias são tão pessoais e íntimas, que devemos guardá-las para quem teve o privilégio de nelas participar, por ser essa a vontade dos noivos. Mas não podia deixar de escrever sobre aquilo que de mais importante trouxe comigo, naquele dia, e para o resto da vida.

Eu não sou uma pessoa religiosa. Já há muitos anos que me desliguei completamente da Igreja Católica (se é que algum dia estive verdadeiramente ligada), e nunca me debrucei sobre outras religiões, pelo que continuo a acreditar nas minhas crenças muito próprias e pessoais, e pouco mais.

Assim sendo, e sabendo que os noivos são pessoas muito religiosas e crentes, bem como os seus familiares e amigos, estava à espera de uma cerimónia religiosa com tudo a que as mesmas têm direito, demorada e pouco interessante para quem, como eu, não se identifica com a religião.

E o que aconteceu foi exactamente o oposto! Foi uma cerimónia muito bonita, muito personalizada, em que, mais do que uma religião, celebrou-se o amor entre aquelas duas pessoas.

E o mérito é não só dos noivos, pelas escolhas que fizeram e pela forma como se preocuparam em fazer uma cerimónia bonita e inclusiva, mas também do Padre escolhido (o Padre Vasco Pinto Magalhães), um Padre muito especial, que conhecia bem os noivos, que fez uma cerimónia única, com um tom descontraído mas sério, com as piadas certas no momento certo. As leituras escolhidas, as mensagens passadas, o coro, o ofertório feito pelos padrinhos (nunca tinha visto nada assim!), foi tudo pensado ao mais ínfimo pormenor e resultou numa cerimónia realmente bonita. Ali, não se falou de religião, falou-se de amor, de entrega, de partilha, de fazer o bem, de humildade, de saber perdoar. Tudo coisas com as quais me identifico inteiramente, e que vão muito para além de qualquer Deus no céu ou na terra.

Uma das coisas que nunca esquecerei foi a caixinha mágica que o Padre ofereceu aos noivos. Uma caixinha invisível, onde ele colocou três palavras: obrigado, descentrar-se e acreditar.

Obrigado todos os dias por todas as coisas boas que temos nas nossas vidas. Porque é fundamental sentirmo-nos gratos pelo que temos, pelas pessoas à nossa volta, pelo que nos faz feliz, pelo facto de estarmos vivos.

Descentrar-se é saber não nos colocarmos no centro de tudo. É não pensarmos só em nós, no nosso centro, no nosso umbigo. É saber o que é estar no lugar do outro. É conseguirmos olhar para tudo o que nos rodeia e decidirmos e agirmos em função disso.

Acreditar é essencial. Temos de ter fé. Diz a Wikipedia que a fé "é a adesão de forma incondicional a uma hipótese que a pessoa passa a considerar como sendo uma verdade sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que se deposita nesta ideia ou fonte de transmissão". Acreditar é isto. É não duvidar. É ter a certeza de que vai correr tudo bem. É acreditar em nós, é acreditar no amor, é acreditar na nossa força e nas nossas capacidades. Acreditar, sempre. Mesmo nos dias em que tudo parece negro, acreditar. Sempre.

E nada disto tem a ver com religiões. Isto tem, apenas e só, a ver connosco, com a forma como escolhemos viver a nossa vida, com o que decidimos fazer para sermos felizes e fazermos os outros à nossa volta felizes. E o que é isso de ser feliz? Leiam mais aqui.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Das dúvidas que me surgem a meio de mais uma crise...

Qual é a quantidade de lágrimas que o nosso corpo consegue produzir? Corremos o risco de desidratar? De onde vem tanta água?

Todas estas dúvidas me assaltaram um dia destes quando, mais uma vez, chorei sem parar durante mais tempo do que o que seria recomendável. Eu, imóvel, e as lágrimas ali a escorrer, umas atrás das outras.

E eu, confesso, comecei a questionar-me sobre a origem de tanta água e sobre a capacidade do nosso corpo de produzir mais e mais lágrimas. Achava eu que devíamos ter um depósito de lágrimas algures (no saco lacrimal, talvez?), e que esse depósito seria finito. Parece que não. Parece que o nosso corpo consegue produzir mais e mais lágrimas, umas atrás das outras.

E, não se preocupem, não é possível desidratar por chorar demasiado. Diz o Tio Google que o nosso corpo sabe gerir a água que tem disponível e que, antes de nos deixar desidratar, corta-nos o stock de lágrimas.

Estou muito mais descansada agora. E esclarecida, já agora! Que uma pessoa não pode seguir com a sua vida, sem encontrar resposta para estas questões fundamentais da nossa existência.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Do dia em que eu fui operada (outra vez)...

Foi há uma semana que fui operada. Ainda pensei se valeria a pena escrever sobre isto por aqui, mas depois pensei que, tal como eu, podia haver mais gente que andasse por essa internet fora à procura de experiências de quem passou pelo mesmo. Por mais que médicos e enfermeiros nos expliquem o que se vai passar, é sempre diferente ouvirmos e lermos relatos de pessoas reais, como nós, com as mesmas dúvidas e medos.

A cirurgia em si não teve nada de especial. Acredito que, para as médicas que me operaram (tive uma equipa exclusivamente feminina de volta de mim - e onde raio é que eles arranjam médicas tão giras?), era apenas mais uma coisa simples e rotineira. Que era. Mas para mim não era assim tão simples nem rotineira. Apesar de já ter feito uma cirurgia do género há 15 anos atrás (adeus, ovário direito!), não deixava de ser uma cirurgia.

Não me lembro de grande coisa, obviamente. Lembro-me de me deitar na maca em que me levaram para o bloco. Lembro-me de passar da maca para a mesa no bloco. Lembro-me de perguntar pela anestesista e de querer saber que anestesia me iam dar. Lembro-me de me porem fios, de me prenderem à mesa, de haver todo um aparato à minha volta, de me dizerem que me iam começar a injectar a anestesia. E depois não me lembro de mais nada. Não houve contagens regressivas, nem elefantes cor de rosa, nem últimas palavras. Nada. Adormeci e acordei no recobro, cerca de 3 horas depois.

Confesso que tinha duas grandes preocupações: o meu útero e a anestesia geral (que nunca tinha levado). Nunca tinha pensado muito sobre isso, mas quando, na consulta de anestesia, o anestesista me explicou ao certo o procedimento, confesso que não fiquei muito confortável com a ideia. Além de ter de o ouvir comentar que, normalmente, as pessoas não faziam tantas perguntas e não queriam saber tantos detalhes. Mas ele era o sósia do Professor e eu queria ouvir tudo o que ele tinha para dizer. E então, disse-me ele, uma anestesia geral é mesmo isso: geral. Provavelmente, toda a gente sabe isto, mas eu nunca me tinha debruçado sobre o tema e ainda não tinha percebido exactamente que o conceito de anestesia geral é muito próximo de um shutdown total do nosso corpo, com uma fé absoluta de que, no final da cirurgia, vão conseguir fazer um reboot. E isso, ainda agora, não me deixa muito confortável. Mas eles lá devem saber o que fazem, ou não estivesse eu aqui a contar a história.

O pós-operatório podia ter sido pior: no próprio dia estava completamente drogada, lembro-me vagamente das visitas que tive, e queria mesmo era dormir. Nem fome eu tinha, se tal é possível!... Mas o dia seguinte foi duro. Estive estupidamente enjoada e acabei por vomitar duas vezes. Ora, depois de uma cirurgia abdominal, em que um simples espirro nos dá dores pouco suportáveis, o acto de vomitar é, além de pouco bonito de se ver, algo que nos faz desejar verdadeiramente que saia um alien de dentro de nós e nos mate de vez. Mas não. Continuei ali a sofrer até que, antes de dormir, me deram mais umas drogas para a veia, com a promessa de que, no dia seguinte, ia acordar fresca e maravilhosa (palavras da enfermeira). 

E, de facto, acordei bem melhor. Tão melhor que quando a médica me veio ver a meio da manhã, e depois de olhar para a minha linda cicatriz e os seus 13 agrafos, decidiu dar-me alta antecipada. Ou isso ou eu fiz um ar tão desesperado por me ir embora e ela teve pena de mim. Ou isso ou fez parte do plano de contingência que estava a ser activado por causa do calor e que fez com que a enfermaria onde eu estava (e onde chegámos a ser 9!), ficasse completamente vazia quando eu fui a última a sair ao fim do dia. O que importa é que vim para casa no Sábado, e não Domingo ou Segunda, como previsto inicialmente.

E em casa continuo. Entre a cama, o sofá da sala e o sofá do escritório. Entre séries e livros, quando há cabeça para isso. A pegar no portátil pela segunda vez agora, para escrever este texto. Com sestas. Com neuras. Com pouca paciência. Com algumas visitas. Com um gato cada dia mais mimado e que está agora encostado a mim, porque está imenso frio e precisamos de nos aquecer mutuamente.

E com dores. E com tonturas. E a enrolar a barriga em película aderente quando quero tomar banho, num momento sempre ridículo, sempre caricato. E a sentir-me cansada. E frustrada por me sentir inútil e incapaz de fazer o básico. E encharcada em drogas. Mas a sentir-me a melhorar, a pouco e pouco. Dia após dia. Sei que é uma questão de tempo até recuperar a minha mobilidade, até as dores e as tonturas melhorarem, até poder voltar a fazer alguma coisa e sentir-me produtiva.

Mas, já se sabe, não sou a pessoa mais paciente do mundo e este processo, que se quer lento e repleto de descanso, consome-me aos poucos e cansa-me.

 E ainda só passou uma semana!...


segunda-feira, 30 de julho de 2018

Das coisas que mexem comigo...

A injustiça.

A injustiça é algo que mexe profundamente comigo. A injustiça, nas suas mais diversas formas e feitios, é algo que me tira do sério.

E, na semana que passou, foram profundamente injustos comigo. E isso é coisa para me deixar fora de mim e me fazer tomar decisões drásticas.

Lamentavelmente, neste exacto momento da minha vida, não me posso dar ao luxo de decisões particularmente drásticas, pelo que não tive outra opção senão respirar fundo, sorrir e acenar. Mas as coisas hão-de acalmar, eu hei-de recuperar, a vida retomará a sua normalidade, e eu hei-de de arranjar forças para, à minha maneira, me revoltar contra essas injustiças.

Por ora, resta-me continuar nesta espera pela cirurgia que está prestes a acontecer, ao mesmo tempo que me debato entre querer que ela, de facto, aconteça ou que seja adiada, mais uma vez.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Das discussões...

Por todo o lado e a toda a hora, somos bombardeados com artigos e notícias que nos dizem que discutir faz bem, que discutir é saudável, que todos os casais discutem.

E eu, confesso, durante algum tempo, acreditava nisso.

Talvez por ter passado por relações em que se discutia muito. Talvez por à minha volta ver relações em que se discute muito.

Depois, vi-me numa relação em que não havia discussões. Estranhei nos primeiros tempos. Comentava, incrédula, com as pessoas mais próximas. Porque não percebia. Porque não me parecia normal. Mas os meses foram passando, e continuámos sem discutir.

Dizem os artigos da especialidade que quando um casal diz que não discute, é porque algo de muito estranho se passa. Dizem também, os mesmos artigos da especialidade, que a não existência de discussões é sinónimo de indiferença, de falta de preocupação, de um fosso entre o casal.

E eu, cada vez mais preocupada. Cada vez mais incrédula.

Até que, numa semana, discutimos duas vezes. E eu achei que estávamos safos.

Isso ou foi preciso eu estar numa fase estupidamente exigente (a todos os níveis, incluindo o profissional), extremamente cansativa, emocionalmente fragilizada, e com um humor de cão, para que nós nos deixássemos discutir.

Não, ninguém precisa de discutir para ter uma relação feliz e saudável. Podemos ser felizes sem discutir. 

Só posso falar por mim mas, a sensação que eu tenho, é que já discuti tanto na minha vida, que agora quero é paz e sossego. O que não é o mesmo que indiferença. É sim, o mesmo que uma busca pela tranquilidade, é o saber ceder quando devemos ceder, é o não bater o pé para ser sempre tudo como eu quero, é o aceitar que, por vezes, temos de deixar o outro ter razão, mesmo que não a tenha. É o perceber que somos diferentes, e aceitarmos que somos assim. É o não querermos que o outro seja o que nós queremos que ele seja. É o encontrar alguém com quem conseguimos chegar a um equilíbrio tal, que não precisamos discutir. Porque nos completamos de tal forma, porque nos encaixamos de tal forma, que conseguimos sempre estar de acordo no que verdadeiramente importa, e conseguimos saber pôr de lado as coisas sem importância em que não encaixamos, mas que minam as relações e o dia-a-dia.

É também o ter chegado a uma fase na minha vida em que não acredito em relações perfeitas, em que não acredito no para sempre, em que não dou nada como garantido. Hoje, encaixamos, funcionamos e não discutimos. Daqui a um mês, se eu continuar com este humor de cão, talvez seja diferente. Mas, pelo menos, que eu possa ter sempre a clareza de perceber os motivos por que discutimos. Que eu possa nunca esquecer tudo o que nos une, pondo de lado o que nos separa.

E que eu não esteja daqui a uns tempos arrependida de estar para aqui a escrever disparates sobre temas que me transcendem. Porque, aos 34 anos de idade, as relações humanas ainda me transcendem. Só vou fingindo que já sei alguma coisa sobre o assunto...

sábado, 21 de julho de 2018

Das marcas que o nosso corpo carrega...

Na quarta-feira à noite, enquanto tirava o verniz das unhas dos pés (mais uma das coisas que eu tive de fazer para ser operada... ah, espera!... não fui operada...), e contemplava a minha linda unha negra não-tão-linda-assim, pensava para mim que, se alguém me perguntasse o que me tinha acontecido, eu havia de encher o peito de ar e havia de responder: uma Maratona. O que me aconteceu foi uma Maratona.

E quando me perguntam o que me aconteceu à perna, eu digo sempre que o que aconteceu foi uma luta entre mim e uma rocha, ali para os lados da Ericeira. Uma luta em que eu ganhei, porque a rocha continua lá, e eu cheguei ao fim do trail que estava a fazer.

Não gosto da minha unha negra, tal como não gosto da tremenda cicatriz que tenho no joelho e na perna, tal como não gosto de outras não tão tremendas cicatrizes que tenho nas pernas. Mas olho para elas e lembro-me da Maratona de Madrid, do Ericeira Summer Trail, do Cork Trail, da primeira vez em que fiz trail em Monsanto.

Chateia-me querer vestir um vestido bonito, calçar uns saltos, e pôr-me em modo princesa (dentro do que isso é possível, para quem nasceu Cinderela), e não ter umas pernas bonitas. Por vezes, custa-me olhar para elas. Mas, na maioria dos dias, olho para elas e sorrio, ao lembrar-me de todas as memórias boas que elas me trazem.

Os nossos corpos, seja por que motivos for, carregam consigo marcas, cicatrizes. E todas elas carregam consigo memórias. Umas mais felizes, outras menos. Mas todas elas fazem parte de nós. Todas elas fazem parte da nossa história. E estão ali para nos lembrarmos do que já fomos, do que somos, do caminho que nos trouxe até ao dia hoje.

Que nunca nos esqueçamos disso.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Do poder do tempo...

Fez esta semana 3 meses que a minha mãe morreu. Às vezes, ainda acho que é mentira. Muitas vezes, ainda a vejo na rua, em pessoas que me fazem lembrar dela. Apenas e só para me lembrar que não pode ser ela.

Já passaram 3 meses e parece que foi ontem. Lembro-me como se tivesse sido ontem, na verdade. Lembro-me do telefone a tocar, lembro-me das palavras do outro lado, lembro-me de ficar sem reacção. Lembro-me de tudo com uma crueza que me arrepia. Mas, ao mesmo tempo, tenho muitas vezes a sensação de que não é verdade. De que não aconteceu.

Passaram 3 meses e no Sábado, estava eu deitada na praia, quando a BFF me perguntou como estava eu em relação a isso. E eu, eu hesitei uns segundos, desviei o olhar e, tentando conter as lágrimas, disse-lhe apenas a verdade: que ainda não tive tempo para processar isso. Ainda não parei para pensar nisso.

Arrasto-me no correr dos dias, que não páram uns atrás dos outros, e não me dou o tempo de que preciso para pensar verdadeiramente sobre isso. À minha volta, ninguém fala nisso. À minha volta, talvez acreditem que eu estou bem em relação a isso. Ou talvez tenham medo de perguntar. E a verdade é que eu também não quero falar sobre isso. A única pessoa com quem talvez quisesse falar sobre isso, é o meu irmão. Mas o meu irmão está sempre longe. Literal e metaforicamente falando. E eu guardo tudo para mim. Por ter pouca fé nas pessoas e na sua capacidade de compreender aquilo que eu própria não sei explicar. Por achar que não vale a pena. Por não querer mais ouvir palavras de consolo. Por não querer mais palmadinhas nas costas.

Continuo à espera que o tempo, esse mágico poderoso, exerça os seus fantásticos poderes e me ajude a aprender a lidar com isto. Se isso não for possível, que me ajude a acalmar a dúvida, a mágoa, a culpa. Quero muito acreditar que um dia eu vou saber lidar com isto. Preciso de acreditar nisso. Mesmo que não acredite.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Das fichas que caem logo pela manhã...

A estacionar o carro ao pé do metro, num dia banal como todos os outros, oiço o telemóvel começar a vibrar dentro da carteira pousada ao meu lado. Penso para mim que deve ser o profissional e que não deve ser nada que não possa esperar pela hora em que, efectivamente, já estarei a trabalhar. 

Depois ocorre-me que, apesar da hora, pode ser a chamada que tenho estado a aguardar nas últimas semanas. Curiosamente, meia hora antes enquanto tomava o pequeno-almoço, pensei ser eu a ligar para lá, mas acabei por me distrair com o gato e as habituais tarefas matinais.

Encostei o carro como pude e peguei no telemóvel. MAC. Apesar de ser um número para o qual não se pode ligar, tenho-o gravado para que me possa preparar e não ser apanhada de surpresa quando atendo. Também para garantir que atendo sempre.

Do outro lado, aquilo que eu queria ouvir mas que ao mesmo tempo queria não ter de ouvir: sou operada para a semana.

A cirurgia não é nada de complicado. Uma miomectomia, em termos técnicos. Tirar o pequeno alien que cresce dentro de mim, em termos leigos. É uma coisa simples, daquelas que os médicos fazem a toda a hora e sem grandes preocupações. Mas é o meu corpo. É o meu útero (com todos os receios ao seu futuro associados, caso alguma coisa não corra bem). É uma anestesia geral. E uma epidural, já agora. Não sei qual das duas me preocupa mais. Vai ser um pós-operatório chato. Vão ser as dores. Vai ser a minha falta de mobilidade e independência. Vão ser todas as coisas que ainda tenho bem presentes da última vez que fiz uma cirurgia deste género, quando, há quinze anos e um mês atrás, tirei um quisto e seu respectivo ovário (ou ao contrário). A única coisa boa é que me disseram que iam usar a mesma cicatriz da última vez. O que só deve querer dizer que vou ficar com uma cicatriz ainda mais feia e grossa. Mas quero acreditar que isso será sempre melhor do que duas cicatrizes. 

E tudo isto para me distrair e não pensar no que me trouxe aqui: foi agora que me caiu a ficha. 

Esta cirurgia já era uma possibilidade desde Dezembro. Depois de muitos exames e consultas, depois de dúvidas e opiniões médicas contraditórias, ficou decidido em Abril que seria mesmo operada. Entre a morte da minha mãe e a Maratona, ainda tive a consulta com o anestesista, que era o sósia do Professor (quem viu a Casa de Papel, entende). Depois tive mais uma consulta com a minha médica, e depois com as enfermeiras, que ficaram de me ligar a marcar a data. 

Portanto, há já muito que eu sabia que isto ia acontecer. E estava calma em relação a isso. Até já tinha aproveitado os saldos para comprar o robe e as camisas de dormir que preciso de levar para o hospital. E já tinha aproveitado a Feira do Livro para me abastecer para o muito tempo livre que vou ter. E eu falava disto sem problema. Sempre dizendo que era uma coisa simples. 

E é. Mas agora é real. Agora vai mesmo acontecer. Comigo. 

E eu não quero. E tenho vontade de bater o pé no chão e fazer birra e dizer que não. 

Tanta gente com problemas tão sérios e eu com os meus dramas infantis. Mas não quero saber. Hoje, eu posso. Amanhã já passou. 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Dos dias que passam mas que, na verdade, se arrastam apenas...

Os dias passam. Correm um atrás do outro. Não damos pelo tempo passar. Vamos andando. Vamos (sobre)vivendo. Fingimos que está tudo bem. Sorrimos e acenamos. A minha frase preferida dos últimos tempos.

Sorrimos e acenamos e escondemos o que vai cá dentro. Acordamos e pomos a máscara da felicidade aparente. Fingimos que está tudo bem e que já passou. As vidas à nossa volta continuam e nós sentimo-nos forçados a continuar, mesmo que presos a um passado tão próximo e tão distante, ao mesmo tempo. Dividimo-nos entre a tentativa de compreensão e a revolta contra aqueles que, à nossa volta, esqueceram o que aconteceu. O que nos aconteceu. O que ainda nos invade os dias. O que ainda nos preenche os pensamentos. O que ainda mexe connosco como se tivesse sido ontem. E não foi?...

Fingimos que está tudo bem. Sorrimos e acenamos. Enquanto por dentro somos corroídos por uma dor que nos revolve as entranhas e que não conseguimos explicar quando nos perguntam o que é que temos. Nada. Não temos nada. 

Lutamos contra esta infecção que se espalha pelo nosso corpo, pela nossa mente. Tentamos seguir os conselhos de quem nos diz que vai passar, que vai ficar tudo bem. Tentamos não nos deixar levar para o fundo por esta corrente tão pesada que nos puxa, e puxa, e puxa.

Numa consciência total e absoluta em relação ao que se está a passar, sorrimos e acenamos e fingimos que está tudo bem. Numa ingenuidade que podia ser ignorância mas que é simplesmente estupidez, sorrimos e acenamos e fingimos que está tudo bem. 

Porque é isso que, à nossa volta, todos nos dizem: vai ficar tudo bem. 

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Dos meus sonhos...

Esta noite sonhei com a minha Avó. Sonhei que chegava a casa e ela estava ali. No hall de entrada. Com o seu sorriso à minha espera. Como se nada fosse. Como se tivesse sido apenas uma partida para nos enganar e brincar connosco.

Só me lembro de ter desfalecido e acordei em sobressalto. Foi só um sonho e não foi apenas uma partida.

34 anos de idade e ainda não sei lidar com a irreversibilidade da morte. Talvez nunca venha a saber.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Da Maratona de Madrid... - VIII

Este é o último post sobre este tema. Acho. Mas nunca se sabe...


Depois do relato, depois de falar da prova em si, falta escrever sobre mim na prova. 

Claro que, tudo o que eu escrevo aqui, é muito pessoal, é totalmente empírico, e eu não sou exactamente muito experiente no tema para poder falar muito sobre o mesmo. Longe de mim querer achar que posso estar para aqui a falar de Maratonas como se fosse muito entendida! Só acho que, precisamente por isso, e até para minha referência futura, pode ser interessante partilhar a minha experiência de alguém que olha para isto de forma muito simples e terra-a-terra, apenas com base no que viveu e aprendeu. Também sei que, dado o tempo que eu demorei a concluir a Maratona de Madrid, talvez o que eu aqui digo não seja muito legítimo. Não é o mesmo fazer uma Maratona em três horas ou em cinco. Talvez não faça sentido eu falar na gestão da alimentação que fiz durante a prova, porque, de facto, eu fiz mais um passeio por Madrid do que uma prova, mas foi o meu passeio e quero falar sobre ele. O mesmo quanto à preparação antes... Ou quanto às cãibras, que não tive. Talvez se eu corresse o tempo todo e depressa, tivesse tido. Talvez correndo ao meu ritmo, seja impossível tê-las. Não sei. Mas posso partilhar o que fiz para evitar que as tivesse, caso fosse possível tê-las quando se correr a ritmo de tartaruga.

Mas avancemos.

A decisão de ir a Madrid surgiu no seguimento do fracasso que foi a tentativa de ir ao Porto. Quando, em Setembro ou Outubro do ano passado, decidi desistir de tentar estrear-me na Maratona do Porto, naquela que foi uma decisão dura e difícil, a primeira coisa que o louco mais louco que eu fez foi procurar outras opções em que eu me pudesse estrear. Ainda pensei em fazer outra até ao final do ano, mas acabei por ficar desmoralizada e sem vontade. Sevilha também foi considerada. Mas implicava treinar muito durante o Inverno, e eu conheço-me. Por outro lado, no final do ano começou a surgir a possibilidade de eu vir a ser obrigada a parar durante uns tempos e começaram a surgir também outros planos de futuro. Com isto, eu sabia que ou fazia já uma Maratona, ou talvez nunca a fizesse. A pouco e pouco, surgiu Madrid em cima da mesa. Era perto, era barato, calhava junto ao 25 de Abril, o que permitia fazer umas mini-férias, nenhum de nós conhecia bem a cidade, já estaria um tempo mais simpático, tinha imenso tempo para treinar, ... E foi assim que, no Natal, o meu presente para ele foi a inscrição na prova. Consequentemente, inscrevi-me a mim também, mesmo sem ter a certeza se poderia fazer a prova.

E foi a partir da inscrição, que eu comecei a treinar. Criei um plano de treinos no My Asics, a que já tinha recorrido noutras ocasiões e sempre gostei muito. As projecções muito optimistas diziam que eu havia de fazer a prova em 4h26. Desde o princípio, sabia que isso era impossível.

Foram quase 4 meses de treinos. Treinos pouco consistentes, pouco regulares, muito incertos. Devia treinar 4 vezes por semana. Acho que isso não aconteceu mais do que uma ou duas vezes. Regra geral, treinei 3 vezes por semana. Houve semanas em que treinei 2, houve semanas em que treinei 1. Não sou a pessoa mais disciplinada e focada do mundo. Nunca serei. Pelo meio, houve uma mudança de casa e muita coisa a acontecer na minha vida pessoal, na minha saúde, e nas pessoas à minha volta. Sei que devia ter treinado mais, mas sei que fiz o possível, enquanto tentava aguentar-me em pé e ter vida para além da corrida (isso existe?).

Em jeito de preparação, fiz o Fim da Europa, fiz o Peninha Sky Race e fiz a Meia de Cascais, em três semanas seguidas. Parecendo que não, acabou por ser um bom arranque para os treinos. Depois disso, fiz um treino de 22km e dois de 25km. Não fiz treinos verdadeiramente longos. E isso deixou-me em pânico para o dia da prova. Há muitas e variadas teorias sobre esta questão. Eu, que não percebo nada disto, acho que os treinos mais longos são importantes, sobretudo, a nível psicológico. Não sei se as nossas pernas sabem bem se corremos 25, 30 ou 35km. Mas a nossa cabeça sabe perfeitamente e pode cobrar-nos isso. Na semana antes da prova, pelos motivos que se sabe, fiz apenas dois treinos de 5km. Levei o conceito de tapering ao extremo. E parece que até nem foi má ideia.

Um mês antes da prova, e por causa das minhas amigas bolhas, comecei a pôr creme anti-bolhas. Em quantidades monstruosas. Todos os dias. Duas, três, quatro vezes por dia. De manhã depois do banho, ao fim da tarde antes dos treinos, depois do banho a seguir aos treinos, antes de dormir. Tornou-se o meu ritual religiosamente cumprido. E foi a única coisa que, de facto, teve algum efeito. Claro que fiquei com bolhas durante a Maratona. Mas nada que se compare com a bolha de sangue que fiz no primeiro treino de 25km. Na verdade, e é certo que já se passou algum tempo, mas não tenho grande memória de as bolhas me terem incomodado muito durante a Maratona (ao contrário do que aconteceu em Cascais, por exemplo). Tive mais dores depois, com muitas dificuldades em calçar-me nos dias seguintes, do que propriamente na prova. E também nunca tive os pés tão hidratados! Fica a dica, para quem sofra do mesmo mal.

Uma semana antes da prova, comecei a tomar Magnesona diariamente. Torço um pouco o nariz a suplementos da moda e aquelas coisas que a malta super fit toma. Mas a Magnesona vende-se na farmácia e é dada, por exemplo, às grávidas, e é, de facto, muito eficaz na redução das cãibras. Mal não faz, de certeza. E o que é certo é que não tive uma única! Se foi por correr devagar ou foi por causa disto, nunca saberemos...

Já se sabe que os dias antes da prova não foram o ideal em termos de alimentação e descanso. Mas tentei, dentro do possível, ir bebendo muita água, e no Sábado privilegiei os hidratos de carbono ao almoço (pasta party!) e ao jantar (italiano). O pequeno-almoço antes da Maratona foi o do costume: papas de aveia com leite de soja, mel e frutos secos, acompanhadas de chá verde. Antes da prova, comi uma banana e bebi mais água. 

Durante a prova, tomei 3 ou 4 géis (já não me lembro ao certo), e acho que 2 gomas (acho que já disse que sou fã destas). Nos abastecimentos, que eram bastantes, fui apanhando alguns pedaços de banana, mas poucos, que não me apetecia muito e o que eu queria mesmo era laranjas, que não havia... Quando havia isotónico e água, o que fazia era pegar numa garrafa de água e num copo de isotónico. Bebia logo o isotónico e depois ia bebendo pequenos golos de água. Umas das minhas maiores preocupações era com a desidratação, sobretudo, porque estava bastante calor. Fui-me obrigando a beber água, a pouco e pouco, e ia molhando a cabeça, a cara e os braços. O objectivo era beber uma garrafa de água entre cada abastecimento. Nem sempre o fiz, mas quase. E não, não tive de parar mais nenhuma vez para ir à casa-de-banho (tirando aquela logo ao início). Aliás, só muitas horas e algumas cervejas depois da prova é que voltei a ir à casa-de-banho. Desculpem estes pormenores, mas é mesmo incrível o impacto que uma coisa destas tem no nosso corpo!...

Psicologicamente, a prova foi toda uma montanha-russa. Houve vários momentos em que me perguntei por que raio estava ali. Houve várias alturas em que achei que aquilo não era para mim. Mas nunca, em momento algum, pensei seriamente em desistir. Mesmo no meio de todas as inseguranças, eu sabia que havia de cortar aquela meta, custasse o que custasse. Eu pensava em tudo o que tinha passado para chegar ali, eu pensava em tudo o que estar ali representava, eu pensava nas pessoas todas que tinha a torcer por mim, e eu sabia que tinha de acabar a prova. E acabei. Ainda não sei bem como, mas acabei.

Outra coisa que eu achei, e perdoem-me os que discordam, é que fazer a Maratona não custa assim tanto!... Fazer a Maratona é chegar e correr. Sim, eu sei que demorei quase 5 horas e que isso me tira alguma moral para falar mas é mesmo isto que eu sinto... O que custa são os meses e meses de treino, é o acordar cedo, é o ter de abdicar de jantaradas, é o estar sempre a condicionar a vida à volta do plano de treinos, é o estar preocupada com a alimentação, é a pressão tremenda de ter de treinar, são as dores e as recuperações... É isso que custa. É isso que nos faz vacilar. No dia? No dia é calçar os ténis e correr! No dia, é tentar absorver tudo o que está a acontecer para conseguirmos guardar em nós todas as memórias daquela experiência única! No dia é aproveitar e ser feliz! Só isso!

E como é que eu me sinto quase um mês e meio depois da Maratona? Sinto que não fiz uma Maratona. É verdade. E poupem-me as palmadinhas nas costas. Eu fui educada com base na premissa "nothing is good enough", pelo que, ter demorado quase 5 horas e ter feito uma parte do percurso a caminhar, não me permite reconhecer-me o direito de me sentir verdadeiramente maratonista. Eu fiz a Maratona, sim, e eu fiz o melhor que podia, sim, e custou-me muito, sim, e esforcei-me muito, sim, e foi um feito do caraças dadas as circunstâncias, sim. Mas talvez tenha de voltar a fazer uma a sério um dia, para a coisa me saber a sério. Não me batam, por favor!... Não consigo explicar melhor o que sinto, e sei que vou ser mal interpretada, mas entendam isto como mais um dos muitos disparates que eu por aqui digo. É um sentimento estranho. Eu fiz a Maratona, mas sinto que não me posso pôr ao mesmo nível de tantas pessoas que conheço (e que não conheço) que são Maratonistas a sério... É estranho, mesmo. Mas é o que eu acho!...

Por último, esta prova só foi possível porque tenho à minha volta gente incrível. Se não fosse o louco mais louco que eu, não teria conseguido. Não tenho dúvidas disso. Foi ele que me apoiou desde o início, foi ele que me obrigou a treinar, foi ele que refilou comigo quando eu me armei em lontra e quis ficar na ronha, foi ele que me incentivou e empurrou para a frente quando eu duvidei de mim, foi ele que me acompanhou em muitos treinos sofrendo no meu ritmo lento-quase-parado, foi ele que abdicou de fazer uma prova melhor no dia M apenas para poder partir comigo. Muito do que fiz, devo-o a ele. Mas devo-o também a muitas outras pessoas, muitas pessoas que estão aí desse lado, que também me deram dicas e conselhos, que me deram forças, que me incentivaram, que me apoiaram e acreditaram. E é uma sensação incrível sentir esse apoio! Quanto mais não seja, a Maratona valeu por isso! Obrigada!



E assim encerro este tema por aqui. Por ora.

Os devaneios Agridoces mais lidos nos últimos tempos...