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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Da minha capacidade incrível para suster a respiração...

Estamos a dia 4 de dezembro. O mês do Natal. O último mês do ano.

E o que é que eu fiz no que ao Natal diz respeito? Montei a árvore de Natal. Literalmente. Montei a árvore, com os seus muitos e variados ramos porque talvez tenhamos comprado uma árvore demasiado grande mas não faz mal porque eu gosto dela assim. Montei-a e deixei ali no seu esplendor verde. E também deixei no seu esplendor as caixas com todas as decorações, que vieram da arrecadação e que estão pousadas no hall de entrada, para gáudio de pequeno Snow.

Portanto... A pessoa que vibra com o Natal. A pessoa que adora o Natal. A pessoa que se perde em decorações e planos. A pessoa que planeia tudo com uma antecedência, por vezes, considerada (de forma injusta) exagerada. 

Essa pessoa, este ano virou Mr. Scrooge e não quer saber do Natal.

Não quero. Não me apetece. Não tenho vontade. Não tenho, sequer, planos definidos. Não sei onde vou passar nem o dia 24 nem o dia 25. Não só porque não depende só de mim, mas porque mesmo quando o que não depende de mim estiver resolvido, eu vou ser forçada a tomar uma decisão que não me apetece ter de tomar.

Não consigo pensar no Natal. Presentes? Nem vê-los. Certo é que deixei de dar presentes nos últimos dois anos. Limito-me a comprar algumas coisas para os sobrinhos, e tudo o resto vai corrido a pequenas oferendas comestíveis que saem da minha cozinha. Prefiro pegar no dinheiro e doar a instituições que realmente precisam. Mas nem isso eu ainda fiz este ano!.... Nem pensei nos presentes dos sobrinhos (e tinha sido tão inteligente aproveitar a Black Friday para isso....), nem pensei no que vou fazer para oferecer, nem escolhi as instituições que vou apoiar.

Não consigo pensar no Natal.

Tenho demasiado em que pensar. Tenho a minha vida em suspenso. Estou assim a modos que a conter a respiração, semana após semana, à espero da altura em que vou poder respirar de alívio. Se é que vou poder respirar de alívio. Não sei. Não sei nada.

Se pudesse, avançasse no tempo até ao final do ano. Até ao momento em que terei certezas (ou, assim o espero...). Adormecia agora e só acordava daqui a umas semanas, com a minha vida em ordem e o futuro traçado a régua e esquadro (como eu tanto gosto). Mas não! Porque a vida não é desenhada a régua e esquadro e, mais uma vez, fez questão de me mostrar isso mesmo.

Tinha aqui escrito, em Outubro, que estava deprimida com o final do ano, e com o facto de não ter cumprido dois dos três objectivos que tinha definido para 2019. Pois que a vida resolveu pôr-me a cenourinha à frente do nariz e, apesar de ser certo que já não vão acontecer em 2019, talvez, só talvez, se concretizem em 2020. Com muitos medos e dúvidas, com muitas incertezas, com decisões tremendas para tomar, com coisas que não dependem de mim. Mas pode ser que 2020 seja o ano. Pode ser. 

Assim a vida queira colaborar comigo e queira dar-me um final de ano feliz e sereno. Ou só feliz, que sereno duvido que seja. Mas que eu possa voltar a respirar. Já não era mau.




(Prometo que tudo isto um dia fará sentido. Não sei é quando. Obrigada a quem estranhou a ausência e se preocupou.)

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Dos dias em que viver cansa...

Hoje o acordar foi difícil. Ele é que fez uma Maratona, e eu é que tenho a sensação de ter sido atropelada por um camião.

Talvez seja das dores de dentes. Ou da sua ausência. Já que o que me dói é o vazio deixado pelo dente que arranquei na sexta-feira.

Não consegui dormir em condições, o que seria bastante razoável, depois de ontem ter acordado antes das seis da manhã. Eu nasci para dormir. Eu preciso de dormir. E, se não durmo, não funciono.

Acordei cansada, (ainda mais) rabugenta, desanimada e deprimida.

Ontem ao final do dia tomei uma decisão importante. Havia uma pequena esperança de uma grande mudança na minha vida em breve, mas ontem eu disse adeus a essa esperança. Ontem, no rescaldo da Maratona dele, pus-me a fazer contas à vida e decidi fechar uma porta. Talvez se abra uma janela, já diz o cliché. Mas eu não gosto de clichés, nem neles acredito. Acredito no que é racional. E ontem fui racional.

Talvez por isso tenha acordado assim. Pesada, no espírito e no corpo. Com o semblante carregado e a barriga inchada, reflexo dos abusos do fim-de-semana. Ele é que ia correr, mas eu fui solidária na ingestão dos hidratos. Ou talvez tenha tentado encontrar nos hidratos o consolo que não encontro na vida.

Faltam dois meses para o final do ano. E isso deprime-me. Cansa-me. Desanima-me. 



Ou então está tudo lindo, maravilhoso e fantástico na minha vida, e eu acordei mesmo foi com TPM.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Das coisas que me ocupam os pensamentos pela manhã...

Estou cansada deste corpo.

Não sei quando foi a última vez que tive uma relação saudável com o meu corpo. Não sei se alguma vez tive uma relação saudável com o meu corpo. Não gosto particularmente deste corpo que habito. É um facto. Na maior parte dos dias, temos uma relação cordial de tolerância mútua. Eu tento tratá-lo o melhor possível, numa vã tentativa de me redimir dos erros do passado, ele tenta não me chatear muito. 

Mas há dias em que a relação fica difícil. Há dias em que ele me cansa, em que ele me irrita, em que ele me revolta.

Sim, eu sei. Há por aí tanta gente com coisas gravíssimas e eu aqui a lamuriar-me das minhas pequenas coisas. Eu sei. É estúpido. Mas eu também tenho direito a ser estúpida de quando em vez. E, hoje, as minhas pequenas coisas chateiam-me. Este pequeno corpo defeituoso chateia-me. Chateia-me esta carga genética. Chateia-me que tenha de haver sempre qualquer coisa que não está bem. Chateia-me começar o dia com mais uma porcaria de um exame, que me devia dar ânimo e esperança, e que só serviu para me deixar com dúvidas na cabeça.

Também me chateia a minha falta de resiliência, diga-se. Eu chateio-me a mim própria. Bastante facilmente, até. Uma pessoa quando vai numa corrida, seja de 5 ou de 42 quilómetros, sempre sabe que existe uma meta, um objectivo, um final, que será atingido. Nesta relação com o meu corpo chateia-me não saber bem que final é esse, não saber se vou atingir algum objectivo, não saber nada, na verdade. E chateia-me a facilidade com que eu me abato, com que eu baixo os braços, com que eu tenho vontade de me fechar na concha e de desistir de todo e qualquer esforço. É estúpido. Eu sei.

Amanhã eu sei já passa, mas agora estou assim...

domingo, 5 de maio de 2019

Do Dia da Mãe...

Andei o dia todo com um nó na garganta. Pensei diversas vezes vir aqui escrever mais um post melancólico e deprimente sobre este tema mas já nem eu tenho paciência para mim mesma e este não é, claramente, o melhor sítio para continuar a bater nessa tecla.

Há bocado cruzei-me com este artigo. E é isto. Talvez um dia eu seja capaz de olhar para o Dia da Mãe de uma forma diferente. Hoje não é o dia. 

terça-feira, 16 de abril de 2019

Do tempo que passa e nada muda...

Foi há um ano. Um ano. Passou um ano e eu continuo a sentir-me exactamente da mesma forma. Sem saber como reagir, como lidar, como aceitar. A questionar-me, a culpar-me, a pôr tudo em dúvida.

Passei o último ano a questionar-me se deveria voltar à terapia. Não voltei. Obviamente, não voltei. Talvez passe o próximo ano a questionar-me se deveria voltar à terapia. Provavelmente, não vou voltar. 

A terapia é cansativa e eu já tenho demasiadas coisas cansativas na minha vida. Sim. Faz bem. Faz maravilhas, até. Em querendo, ide todos para a terapia. Mas eu não quero. Não me apetece voltar a começar do zero. Não me apetece ter de contar a história toda da minha vida. Não me apetece esmiuçar os meus muitos e variados traumas, feridas e fantasmas. Já disse que isso é cansativo? Também é cansativo encontrar um terapeuta em condições. E é ainda mais cansativo fazer terapia com alguém que não nos espicaça, que não mexe connosco, que não põe o dedo na ferida. É tudo cansativo. 

Lembrei-me agora do meu recente post sobre as relações. Sobre a preguiça nas relações. Sobre o comodismo e o facilitismo. Eu estou numa fase comodista. Não me apetece ter trabalho. Deixai-me ser preguiçosa.

Talvez um dia isto mude. Talvez um dia eu me dedique a falar sobre isto. Me dedique a arrumar os macacos no meu sótão. A entender emoções. A aceitar. A perdoar(-me). A seguir em frente sem mais amarras no passado. Sem mais dúvidas. Sem mais remorsos.

Talvez um dia.

Hoje não é o dia.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Dos meus treinos e das lições de vida...

Sábado era dia de treino longo. E foi. Mais ou menos.

Devia ter feito 25km. Idealmente, 27km. Mas fiz apenas 22km. Que me custaram horrores, naquele que foi o treino mais duro que fiz nesta minha jornada a caminho dos ovos moles... Quando a cabeça não quer e os pés não ajudam, as pernas não correm. Foi esta a lição do dia.

Tive um jantar com colegas de trabalho na sexta-feira e acabei por me deitar mais tarde do que devia. Quando o despertador tocou às sete no Sábado, eu só me queria virar para o outro lado e dormir. Ou chorar. Também me apetecia chorar.

A muito custo, lá me levantei. Despachei-me e saí de casa. Talvez tenha apanhado uma multa pelo caminho (ia de carro, não a correr... Não se entusiasmem!). Cheguei ao ponto de encontro do Treino Longo do Correr Lisboa já atrasada. Não fazia diferença. Seria sempre das últimas.

E fui. Comecei a correr, sem vontade alguma, no meu ritmo lento quase parado. Ao fim do primeiro quilómetro percebi que havia três outras corredoras que iam a um ritmo semelhante ao meu, e perguntei-lhes se me podia colar a elas. E colei-me. Soube bem a companhia nos primeiros quilómetros até ao abastecimento. Ia a um ritmo simpático, sentia-me bem e a coisa parecia que, afinal, não ia ser tão dramática como eu previra quando saíra de casa. Ou julgava eu.

Depois do abastecimento (abençoado!), ainda tive companhia até ao Terreiro do Paço, de uma atleta que depois ia subir pela Baixa e pela Avenida, para regressar a casa a correr. Ela morava em Telheiras. Logo ali, portanto.

Feitas as despedidas, decidi voltar para trás, porque se continuasse mais para a frente, já não ia a tempo de apanhar o abastecimento no regresso. E foi quando voltei para trás que percebi que o treino não ia mesmo ser fácil. O vento contra foi impedioso comigo. Nem os quilos a mais que tenho me ajudaram, e eu achei que ia voar a qualquer momento. Foi uma luta grande entre mim e o vento, e os metros teimavam em não passar.

Mas lá fui. Um pé depois do outro. Cheguei a pôr a hipótese de chegar ao abastecimento e pedir boleia de carro. As dores na coxa tinham começado aos 9km, o vento estava a irritar-me e eu comecei a achar que aquilo não era para mim.

Mas, claro, cheguei ao abastecimento, com 12km e qualquer coisa, e limitei-me a beber água e isotónico, pegar num gel para o caminho, e seguir viagem. Uma pessoa pensa muito em desistir, que pensa, mas até para desistir é preciso coragem, e isso é coisa que não abunda por aqui.

Segui viagem. A sofrer. Com os pés a começarem a acusar as bolhas e respectivas dores. Aquela parte entre Santa Apolónia e o Poço do Bispo é terrível. Estrada de um lado, contentores do outro. Eu, só e abandonada. O vento contra. A cabeça começa a falhar. Volto a pensar que aquilo não era para mim. Lá porque fiz uma maratona, quem é que eu me julgo para achar que faço outra? Não faço. Não quero fazer. Estou farta de tudo. Começo a deixar de conseguir respirar e sinto os soluços a formarem-se na garganta. Antes de largar num choro compulsivo, decido parar de correr, ir simplesmente a caminhar, e recorrer à ajuda telefónica do público. O louco mais louco do que eu, lesionado e fechado em casa, dá-me palavras de ânimo. Diz-me que estou quase na Expo e que só preciso de fazer mais 5 ou 6km para chegar ao carro. Acalmo-me. Desligo e volto a correr.

Vou tentando definir pequenas metas para me ir motivado. Agora até ao Prata. Agora até ao bebedouro no parque infantil da Marina. Páro. Alongo para tentar aliviar as coxas. Tomo um gel, convicta de que não posso fazer apenas os quilómetros que me separam do carro. Volto a correr. Só até ao Pavilhão de Portugal. Caminho 100 metros. Já ia com 17km. Precisava de fazer mais.

Volto a correr. Primeiro, decido fazer 20km, que devia ser o suficiente para chegar ao carro. Depois, penso que 20km é pouco. Passo pelo carro e decido seguir, para fazer os 21km. As dores são muitas mas eu penso que 21km já fiz mais do que uma vez. Preciso de fazer mais. Decido fazer os 22km, só para fazer mais do que nas outras vezes.

E fiz. Não sei como, mas fiz. Curiosamente, mesmo com algumas partes a caminhar pelo meio, fiz um ritmo médio perfeitamente alinhado com o que tenho feito ultimamente (6'27/km). E o meu quilómetro mais rápido foi o último (6'04). Não deixa de ser irónico constatar que o meu corpo dava para mais. Que eu sei que dava. A cabeça e os pés é que não.

Este foi o meu treino mais longo até agora. O que, a quatro semanas menos um dia da Maratona, é uma miséria. Eu sei.

Mas também sei que se no dia 28 eu não conseguir fazer aqueles 42km, esta preparação já valeu a pena por tudo o que me tem ensinado e pelas dezenas de euros que tenho poupado em terapia.

sexta-feira, 1 de março de 2019

De Santa Maria...

A viagem a Santa Maria não foi só feita de paisagens incríveis e da prova mais especial que já fiz.

Foi também feita de uma viagem ao passado, a um passado muito longínquo, do qual tenho poucas ou nenhumas memórias, mas do qual muito ouvi falar.

Não estava preparada para isto. 

As pessoas não fazem por mal, mas todas perguntaram pela minha mãe, todas falaram na minha mãe, todas contaram histórias da minha mãe. Não foi por mal. Mas é natural que todas as memórias que têm associadas aos meus primeiros anos de vida, em que vivi naquela ilha, incluam a minha mãe.

E custou-me. Custou-me ouvir, uma e outra vez, falar nela. Houve momentos em que senti o chão desaparecer, em que o ar me faltou, em que agarrei discretamente a mão dele e respirei fundo. 

Não estava preparada para isto.

Curiosamente, as opiniões que ouvi e as histórias que me contaram tinham um denominador comum, que a modos que me tranquilizou, de uma forma sinistra e curiosa ao mesmo tempo: talvez a minha mãe não tenha mesmo nascido para ser mãe. De uma forma absolutamente inexplicável, cruel e estupidamente racional ao mesmo tempo, apercebi-me de algo de que não tinha noção: a minha mãe sempre foi pouco mãe, desde o início. E isso, apesar de brutalmente doloroso, foi profundamente revelador e quase apaziguador.

Mas não estava preparada para isto.

Foi uma viagem de muitas emoções inesperadas. Foi uma viagem tão mais complexa do que eu podia imaginar. Na minha ingenuidade, achei que ia a Santa Maria fazer o Columbus Trail e rever as caras de quem lá deixei há tantos anos. Na realidade, fui lá completar mais algumas peças deste meu puzzle a que chamo vida. E, apesar de ainda estar a digerir as emoções, quase um mês depois, tenho ainda mais a certeza de que fiz esta viagem na altura certa, na companhia certa, e que será daquelas memórias que guardarei em mim para sempre.

Mesmo que não estivesse preparada para aquilo.



(foi há 35 anos, no dia 29 de Fevereiro que este ano não existe, 
que eu nasci naquela ilha.)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Do estado deste blogue, do Natal e das ilhas desertas...

Este blogue ficou entregue ao abandono. Não é por mal. Não é exactamente por falta de tempo, ainda que ele não abunde por aqui. Não é que não tenha nada para dizer, que não me apeteça, ou não me lembre dos mais variadíssimos posts ao longo do dia.

Não tenho escrito porque queria escrever sobre o Natal e não quero escrever sobre o Natal. Pois. Se escrever sobre o Natal, corro o risco de dizer coisas que não devia dizer. E eu não quero dizer coisas que não devia dizer. 

O Natal passou-se. Foi mais um. Mais um que me deixou a pensar na forma como vivo o Natal que não é a forma como gostaria de viver o Natal. Mas também me deixou a pensar em expectativas. Em gestão de expectativas. Não posso esperar que os outros vivam o Natal da mesma forma que eu. Não posso esperar que os outros valorizem o mesmo que eu. Não posso esperar que os outros sejam como eu gostaria que fossem. Talvez não possa esperar nada, para garantir que não exijo demasiado dos outros nem vejo as minhas expectativas defraudadas.

Neste Natal, à semelhança do que se passou no ano passado, pedi que não me dessem presentes e que doassem o valor que gastariam comigo a alguma associação que dele mais precisasse. Também não dei presentes aos adultos, apenas presentes de comer, feitos por mim. Doei dinheiro a quem dele precisa. Para mim, é o que faz sentido. 

O único presente que eu queria verdadeiramente este Natal, era ter a família toda junta. A que está viva, pelo menos. Mas isso não aconteceu. E não me apetece dizer mais nada sobre o Natal.



Para o ano talvez o passe numa ilha nas Caraíbas. Só ainda não escolhi qual. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Deste ano que nunca mais acaba...

Estou cansada de 2018. Não sei se há na sabedoria chinesa (ou em qualquer outra, na verdade) que fale sobre este ano, ou sobre os anos que acabam em 8, ou sobre o alinhamento cósmico que só existe a cada três séculos e meio, ou que já os Maias previam que isto ia ser assim (quando é que é o fim do Mundo, mesmo?), ou qualquer outro motivo em que alguém queira acreditar para justificar por que raio este ano está a ser assim. Não sei. Talvez me desse algum conforto acreditar em alguma coisa que me desse uma breve explicação para o que não entendo. Mas não acredito. Acredito que a vida é o que é, é o que tem de ser, e a única coisa que pode mudar é a forma como a vivemos e lidamos com ela.

Estou cansada de 2018. Estou cansada da morte. Estou cansada das doenças. Estou cansada das más notícias. Estou cansada dos sustos. Estou cansada de estar cansada. E estou cansada de sentir que estou constantemente a queixar-me mas sentir, ao mesmo tempo, que não tenho tido uma folga este ano. Há sempre alguma coisa a acontecer. Há sempre uma preocupação. E outra. E outra. Não me lembro da última vez em que respirei fundo e pensei que estava tudo bem. E não, não é porque eu seja dramática, porque adore queixar-me, porque vejo problemas em tudo. É mesmo porque este ano está a ser estupidamente exigente, com quedas atrás de quedas. E ainda faltam três meses e meio e ainda muito pode acontecer.

Na maior parte dos dias, continuo a sorrir e a acenar. Está tudo bem. Não se passa nada. Mas aqui, aqui escrevo o que me apetece e a única coisa que me apetece escrever é que estou cansada. 

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Sati do Areeiro (15/07/2001 - 13/09/2018)

Até já, Sati!

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Do meu estado actual...

Devia ter voltado ontem ao trabalho. Não voltei. Tive consulta com a médica de família e ela achou melhor eu ficar mais uns tempos em casa, até ter a consulta na MAC e termos a certeza de que está tudo bem.

Continuo cansada, continuo com dores, e estou cada vez mais farta de estar em casa. Tenho saído raras vezes, e por pouco tempo. Quando abuso, ressinto-me logo. E é mesmo desesperante esta sensação de incapacidade e inutilidade.

Tenho aproveitado para fazer algumas coisas. Poucas, mas algumas. Voltei a pintar, apenas para ficar com vontade de deitar tudo fora e nunca mais pegar nos pincéis na vida. Vi um documentário interessante, sobre o qual talvez escreva aqui. Pensei em comprar malhas e agulhas, para me dedicar ao tricot, mas desisti a tempo. Já arrumei papéis que estavam enfiados numa estante desde o dia em que me mudei para esta casa. Continuo sem me decidir em relação à mesa de jantar. Já fiz 2 certificações da Google. Já fiz algumas caminhadas leves mas entretanto desisti delas não sei por quanto mais tempo. E podia enumerar mais umas quantas coisas nesta tentativa de provar a mim mesma que não tenho sido assim tão inútil. Sendo racional, eu sei que não. 

Mas estou rabugenta. E tenho direito a isso.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Das dúvidas que me surgem a meio de mais uma crise...

Qual é a quantidade de lágrimas que o nosso corpo consegue produzir? Corremos o risco de desidratar? De onde vem tanta água?

Todas estas dúvidas me assaltaram um dia destes quando, mais uma vez, chorei sem parar durante mais tempo do que o que seria recomendável. Eu, imóvel, e as lágrimas ali a escorrer, umas atrás das outras.

E eu, confesso, comecei a questionar-me sobre a origem de tanta água e sobre a capacidade do nosso corpo de produzir mais e mais lágrimas. Achava eu que devíamos ter um depósito de lágrimas algures (no saco lacrimal, talvez?), e que esse depósito seria finito. Parece que não. Parece que o nosso corpo consegue produzir mais e mais lágrimas, umas atrás das outras.

E, não se preocupem, não é possível desidratar por chorar demasiado. Diz o Tio Google que o nosso corpo sabe gerir a água que tem disponível e que, antes de nos deixar desidratar, corta-nos o stock de lágrimas.

Estou muito mais descansada agora. E esclarecida, já agora! Que uma pessoa não pode seguir com a sua vida, sem encontrar resposta para estas questões fundamentais da nossa existência.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Das coisas que mexem comigo...

A injustiça.

A injustiça é algo que mexe profundamente comigo. A injustiça, nas suas mais diversas formas e feitios, é algo que me tira do sério.

E, na semana que passou, foram profundamente injustos comigo. E isso é coisa para me deixar fora de mim e me fazer tomar decisões drásticas.

Lamentavelmente, neste exacto momento da minha vida, não me posso dar ao luxo de decisões particularmente drásticas, pelo que não tive outra opção senão respirar fundo, sorrir e acenar. Mas as coisas hão-de acalmar, eu hei-de recuperar, a vida retomará a sua normalidade, e eu hei-de de arranjar forças para, à minha maneira, me revoltar contra essas injustiças.

Por ora, resta-me continuar nesta espera pela cirurgia que está prestes a acontecer, ao mesmo tempo que me debato entre querer que ela, de facto, aconteça ou que seja adiada, mais uma vez.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Do poder do tempo...

Fez esta semana 3 meses que a minha mãe morreu. Às vezes, ainda acho que é mentira. Muitas vezes, ainda a vejo na rua, em pessoas que me fazem lembrar dela. Apenas e só para me lembrar que não pode ser ela.

Já passaram 3 meses e parece que foi ontem. Lembro-me como se tivesse sido ontem, na verdade. Lembro-me do telefone a tocar, lembro-me das palavras do outro lado, lembro-me de ficar sem reacção. Lembro-me de tudo com uma crueza que me arrepia. Mas, ao mesmo tempo, tenho muitas vezes a sensação de que não é verdade. De que não aconteceu.

Passaram 3 meses e no Sábado, estava eu deitada na praia, quando a BFF me perguntou como estava eu em relação a isso. E eu, eu hesitei uns segundos, desviei o olhar e, tentando conter as lágrimas, disse-lhe apenas a verdade: que ainda não tive tempo para processar isso. Ainda não parei para pensar nisso.

Arrasto-me no correr dos dias, que não páram uns atrás dos outros, e não me dou o tempo de que preciso para pensar verdadeiramente sobre isso. À minha volta, ninguém fala nisso. À minha volta, talvez acreditem que eu estou bem em relação a isso. Ou talvez tenham medo de perguntar. E a verdade é que eu também não quero falar sobre isso. A única pessoa com quem talvez quisesse falar sobre isso, é o meu irmão. Mas o meu irmão está sempre longe. Literal e metaforicamente falando. E eu guardo tudo para mim. Por ter pouca fé nas pessoas e na sua capacidade de compreender aquilo que eu própria não sei explicar. Por achar que não vale a pena. Por não querer mais ouvir palavras de consolo. Por não querer mais palmadinhas nas costas.

Continuo à espera que o tempo, esse mágico poderoso, exerça os seus fantásticos poderes e me ajude a aprender a lidar com isto. Se isso não for possível, que me ajude a acalmar a dúvida, a mágoa, a culpa. Quero muito acreditar que um dia eu vou saber lidar com isto. Preciso de acreditar nisso. Mesmo que não acredite.

domingo, 29 de abril de 2018

Das coisas que me cansam...

A vida. A vida cansa-me.

E a morte. A puta da morte. A morte que não pára. Tenho-me lembrado muito do Saramago e das suas Intermitências da Morte. Pudesse eu escolher, e a Morte teria estado intermitente nestes últimos dias. "No dia seguinte ninguém morreu." E ninguém morria. Ou, em não podendo ser assim, nenhuma das minhas pessoas morria. Já era suficiente.

A semana passada, no dia seguinte ao funeral da minha mãe, enquanto eu apanhava e dobrava meias, ainda de robe e sem ter tomado banho, numa cena completamente banal, dei comigo a pensar que da última vez que tinha tido uma viagem marcada a Madrid, a vida me tinha trocado as voltas e eu tinha acabado por não ir. Estava eu nestes pensamentos, a pensar que desta é que era, desta eu ia mesmo, quando o telefone toca. Era o meu pai. Do outro lado, a má notícia. Quando eu achava que não aguentava mais más notícias, a vida achou o contrário.

A mãe da minha boadrasta, a minha avó-emprestada, aquela que entrou na minha vida há quase 18 anos, tinha tido um AVC. Eu não me lembro ao certo mas acho que me sentei e fiquei sem reacção. Desliguei o telefone e fiquei muito tempo sem saber o que fazer. Vesti-me para ir correr. Tinha uma maratona daí a 3 dias, já tinha falhado o treino da véspera por causa do funeral da minha mãe e achei que me fazia bem ir espairecer. O meu irmão ligou-me a perguntar se queria ir com ele para Abrantes para o hospital. Eu disse-lhe que ia correr, que ia lá ter mais tarde. Saí de casa, entrei no carro, liguei a quem me pudesse dar alguma da razão que eu não tinha naquele momento, e percebi que ir correr era estúpido. Só estúpido. Naquele momento, eu não sabia se ia a Madrid. Naquele momento, eu não sabia nada. Naquele momento, eu senti-me perdida e desorientada como em poucas vezes na minha vida. Voltei para casa, tomei banho e esperei pelo meu irmão. Fomos para Abrantes.

E em Abrantes eu soube que a minha avó-emprestada não ia voltar para nós. A avó-emprestada que sempre foi avó por inteiro. Que não fazia distinções entre os 5 netos. Os de sangue e os de coração. Éramos todos netos. Éramos todos iguais. O que dava a um, dava a todos. Na sua simplicidade, na sua humildade. Na sua forma tão própria de ser, com as suas caretas, com a sua refilice, com a sua dificuldade em demonstrar afectos (algo que é transversal a toda esta família, diga-se). 

Em Abrantes eu despedi-me dela. Despedi-me sabendo que podia não a voltar a ver. Despedi-me sem conseguir decidir se ia a Madrid. Despedi-me de coração apertado e frustrada com a impotência perante esta arbitrariedade da vida. E da morte. Sobretudo, da morte.

Fui para Madrid. Fui para Madrid sabendo que podia ter de voltar a qualquer momento. Mas fui para Madrid porque sei que era o que ela quereria. Fui para Madrid, levando-a a ela e a toda a família comigo. Fui para Madrid por mim e por nós.

E voltei. Voltei para assistir aos últimos dias de um definhar lento. Um definhar irreversível. Um limbo terrível de sentimentos contraditórios e desesperantes. A dificuldade em aceitar o fim, sentindo simultaneamente que o fim era o melhor porque esse limbo era um sufoco para ela e para quem estava à volta. Esse limbo terminou ontem.

O funeral foi hoje. E não. Não é por irmos a dois funerais em duas semanas que as coisas ficam mais fáceis. Sobretudo, quando ainda não parámos para chorar o primeiro. Sobretudo, quando temos andado a fugir de processar tudo o que aconteceu. Sobretudo, quando perdemos alguém de quem gostamos tanto sem que fosse preciso existirem laços de sangue a unir-nos, por oposição a termos perdido alguém que nos deu o sangue que nos corre nas veias mas que pouco ou nada nos diz. Esta contradição, estes opostos, estes sentimentos confusos, esta raiva perante a injustiça, este não saber o que sentir, dizer ou fazer.

Se eu pudesse escolher, a escolha era fácil.

"No dia seguinte ninguém morreu."

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Do post que eu pensei que só escreveria daqui a uns anos...

A minha mãe morreu. A minha mãe, com quem eu não falava há quase sete anos, morreu.

Soube na segunda-feira. Estava no escritório, à hora de almoço. O telemóvel tocou e eu estranhei ver o nome da minha (meia) irmã. Do outro lado, estava a minha prima, para me dar a notícia. Não consegui reagir, não consegui processar. Passei algum trabalho mais urgente, ainda consegui garantir que ficava online a campanha que estava a preparar, e fui para casa.

E continuei sem conseguir reagir, sem conseguir processar.

Ontem, comecei a reagir e a processar. Mas pouco.

Poucas ou nenhumas pessoas poderão perceber o que leva alguém a estar sete anos sem falar com a pessoa que lhe deu vida. Talvez quem por aqui ande há mais tempo, já tenho lido algumas tentativas de explicar tal decisão. Mas não é fácil. Porque não é uma decisão fácil. Porque não é uma decisão de um momento, tomada de ânimo leve. Foram anos, muitos anos, que levaram a que eu deixasse de falar com a minha mãe e a afastasse por completo da minha vida. 

Achava eu, na minha ingenuidade ou na minha ignorância, que estava tranquila com essa decisão.

Agora, que ela morreu, não sei se estava assim tão tranquila. Agora, que ela morreu, também já não importa. Agora, que ela morreu, já não há nada a fazer.

Sempre acreditei que tinha feito o que podia, que tinha tentado, que tinha dado muitas e variadas oportunidades. Hoje, foram várias as pessoas que mo disseram: que foi ela que escolheu assim. Não sei se acredito que alguém escolha a solidão. Não sei se acredito que alguém escolha morrer sozinha. Mas parece que há quem acredite que sim.

Eu não sei. Sei que passei os dois últimos dias a questionar-me se, de facto, fiz tudo o que podia. Se, de facto, não devia ter dado mais uma oportunidade. Se, de facto, não a devíamos ter ajudado. Uma e outra vez.

Desde que me lembro que defendo que a frase feita que diz que "mãe é mãe", não é tão verdade assim. Porque não é. Há por aqui muitos textos a falar disso mesmo. Mãe não é mãe. Mãe é mãe se se comportar como mãe. Se fizer por isso. E a minha não fez. E agora? Agora nunca saberei se não o fez por não querer, se não o fez por não saber, se não o fez por não conseguir.

Hoje, enquanto via o caixão ser levado por entre as portas do crematório naquilo que considero sempre ser um momento terrivelmente pesado, todas estas dúvidas me assaltaram. Hoje, enquanto, finalmente, percebia que nunca mais a vou ver, caí em mim e não pude deixar de me questionar.

Eu sempre soube que este dia ia chegar. Eu sempre soube que, um dia, ia ter estas dúvidas. Porque, repito, não é uma decisão fácil. E, não há muito tempo, eu tinha dado comigo a pensar sobre isto tudo. E a sentir que tinha tomado a decisão certa.

Hoje, as coisas estão incertas. Hoje, as dúvidas são muitas. Hoje, questiono aquilo em que acreditei nos últimos sete anos. Questiono-me a mim. Recrimino-me. Hoje, tento acreditar naquilo que me repetiram hoje, vezes sem conta: foi melhor assim, ela está, finalmente, em paz, e nós podemos também ficar em paz. O que quer que isso seja.

Amanhã as coisas estarão ainda confusas. Mas sei que, com o tempo, se tornarão mais claras. Com o tempo, voltará a mim a lucidez que me fez tomar essa decisão há sete anos atrás. Com o tempo, talvez eu consiga lidar com isto. Ou talvez não. Talvez eu viva o resto da vida com este peso na consciência.



[os comentários estão desactivados por razões óbvias. este é um texto de mim para mim. apenas e só. porque precisava de pôr por escrito aquilo que não consigo dizer. porque é para isto que este blogue serve, mesmo que, por vezes, não pareça.]

segunda-feira, 26 de março de 2018

Das coisas que eu escrevo para tentar encontrar forma de as explicar...

Tenho dificuldade em exprimir o que quero dizer e corro o risco de ser mal interpretada.

Quando eu digo que tenho saudades da minha vida de antes, não é porque não goste da vida que tenho agora.

Tenho saudades do comboio em que podia ler. Tenho saudades do Passeio Marítimo. Tenho saudades dos treinos na praia. Tenho saudades de ver o mar (quase) todos os dias. Tenho saudades da luz da minha sala. Tenho saudades das minhas rotinas. Tenho saudades de muita coisa.

Mas ter saudades não é sinal de que não esteja bem agora. Ter saudades não é sinal de que não esteja feliz agora. Ter saudades é, simplesmente, sinal de que eu era feliz com o que tinha antes. E isso é bom. Isso é muito bom.

Mas não quer dizer que eu não seja feliz agora. Porque sou. Porque ganhei muita coisa nova. Porque estou a criar rotinas novas. Porque agora tenho o rio. Porque agora tenho outros sítios. Porque voltei às origens. E isso é bom. Isso é muito bom.

É difícil explicar isto. Mas, de facto, ter saudades do passado é mesmo só um sinal de que eu já era feliz. Agora, sem saber como nem porquê, sou ainda mais.

E se o escrevo assim, não é por uma qualquer necessidade, que Freud explicaria muito bem, de gritar ao mundo que estou feliz, como se para me convencer (a mim e aos outros) dessa realidade. Se o escrevo assim é para tentar encontrar forma de o poder exteriorizar e explicar a quem me rodeia. Se o escrevo assim é, sobretudo, para que o possa vir reler, nos dias difíceis. Nos dias que custam, nos dias em que me sinto perdida, nos dias em que não venho aqui escrever porque não saberia o que dizer. Porque os há. Porque no meio de tanta coisa boa também há coisas menos boas, que guardo para mim. Que não há vidas perfeitas. Que a vida tem esta estranha forma de se equilibrar e não dá sem tirar. Que estou cansada de tanta coisa ao mesmo tempo. 

Há dias em que eu preciso mesmo de ter estes pequenos lembretes de que, no fim do dia, eu sou uma privilegiada e sou feliz. Que sou.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Das palavras que nunca lerás...

Por vezes, dou comigo a suster a respiração, a querer cristalizar o momento, a temer que o mais suave sopro venha e destrua tudo. Vivo constantemente nesta ansiedade, neste medo, neste saber que, a qualquer momento, a minha vida pode ficar, outra vez, de pernas para o ar.

Incomoda-me esta fragilidade. Este sentir-me exposta desta maneira. Este saber que te dei o que de mais precioso posso dar a alguém. Esta consciência do poder que tens sobre mim. O poder que eu te coloquei nas mãos quando te deixei entrar em mim, na minha vida. 

Não são raros os momentos em que penso em fugir. Fugir antes que tu fujas. Antes que tu me magoes. Fugir para não correr sequer esse risco.

Mas depois, depois tu abres os braços, recebes-me em ti, dizes em gestos o que não dizes em palavras, e eu não tenho como fugir. Resta-me acreditar que se cair, se doer, se ficar em cacos mais uma vez, valeu a pena. Sem dúvida, já valeu a pena.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Do que eu quero mesmo...

Sempre aquele aperto no peito. Sempre a mesma vontade de fugir. Sempre a falta de ar por mais que tente respirar.

Tenho medo. Muito medo. E quero fugir.

Não me apetece correr riscos. Não quero.

A perfeição assusta-me. Aterroriza-me, diria mesmo. Nada pode ser assim tão perfeito. Nada pode correr assim tão bem. Sou um elefante num palácio de cristal. Sei, tenho a certeza, que a qualquer momento, tudo não passará de uma montanha de estilhaços. Tenho uma fé tremenda na minha capacidade infinita de fazer disparates. E tenho igualmente fé na minha tendência para atrair coisas más para a minha vida.

Doze anos no ensino secundário, mais quatro anos de licenciatura, mais dois anos no primeiro mestrado, e a caminho de mais um ano no segundo mestrado. Quase 19 anos a estudar e não me ensinaram o mais essencial de tudo: a ser feliz.

Não sei o que é isso de ser feliz. Isso de aproveitar as coisas boas. Não me disseram o que é isso de simplesmente aceitar que a vida também pode ter coisas boas.

Não me ensinaram nada disso e agora eu não sei o que fazer. Não sei lidar com o que de bom tenho à minha volta. E quero fugir.

Só isso. Fugir.

Porque tenho a convicção absoluta de que tudo o que vier a seguir será mau. Muito mau. Depois disto, nada poderá ser melhor. E eu fujo. E eu fujo porque quero cristalizar no tempo os bons momentos. Quero só ter bons momentos. Não quero chegar aos maus. Quero que isto acabe aqui, enquanto tudo é bom. E quero fugir.

Só isso. Fugir.

sábado, 15 de abril de 2017

Dos castelos...

A vida torna-nos cépticos. Descrentes. Frios. Demasiado racionais.

Talvez não a vida. Inocente no meio de tudo o que fazemos com ela. São as pessoas. O problema são sempre as pessoas.

As pessoas, que nos magoam, que nos iludem (e desiludem). As pessoas, que nos tiram o tapete (e os anos que eu demorei a perceber verdadeiramente o sentido desta expressão!). As pessoas, que deixamos entrar no nosso mundo, somente para o destruírem e deixarem em cacos.

Queda após queda, vamos ficando mais frios. Mais racionais. Demasiado racionais.

De cada vez que temos de reconstruir os cacos em que deixaram a nossa vida, reconstruímos o muro à nossa volta. Cada vez mais alto, cada vez mais forte, cada vez mais impenetrável.

Sempre que nos deitam ao chão, levantamo-nos. Mas levantamo-nos apenas para nos arrastarmos para dentro da nossa muralha, do nosso castelo, donde não queremos sair.

Eu não quero sair do meu castelo. Quero ficar aqui, quieta, inerte, na minha paz e no meu sossego. Quero ficar no meu canto. Não quero voltar a expôr-me. Não quero voltar a ser iludida (e desiludida). Não quero voltar a passar por tudo outra vez quando as coisas correrem mal. Porque, invariavelmente, as coisas correm mal.

E eu sei, tenho a certeza, que este castelo não aguento nova reconstrução.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Do meu fim-de-semana...

O meu fim-de-semana foi demasiado bom para ser verdade.

E isso traz um problema: quando acaba, sinto-me miserável. Nas últimas semanas, é raro o Domingo que não acaba com lágrimas. Isto é só estúpido, eu sei. Mas é assim que ando. E é sobre isso que não quero falar.

Eu quero falar da noite fantástica de Sexta, do vinho Hippo (estava tão a precisar de uma noite descontraída), do mini treino de corrida no Sábado de manhã, do pequeno-almoço com umas panquecas novas com sabor a Ferrero (com esta farinha), da ida à praia, do primeiro mergulho do ano, do almoço às quatro da tarde (aqui), do jantar a pensar na prova do dia seguinte, da correria para entregar mais um trabalho da faculdade, da preparação da prova e do nervoso miudinho, do acordar lento no Domingo, da viagem para Coruche entre dezenas e dezenas de cegonhas nos seus ninhos, do Cork Trail, das vistas, do que senti, da tarde de preguiça no sofá, da nova correria para outro trabalho da faculdade.

O meu fim-de-semana teve tanta coisa tão boa, que me soube a uma semana inteira de férias. Fiz tanta coisa, que parece que o tempo esticou.

E têm sido estes os meus balões de oxigénio, para aguentar cada semana que passa. Semanas longas, duras, que me têm esgotado. Que me têm feito questionar o que ando aqui a fazer e se valerá a pena.

Dia após dia, desespero pelo fim-de-semana. E sei que isto não é modo de vida. Não pode ser. Preciso de, com o pouco tempo livre que tenho, me organizar, me focar, conseguir arrumar a casa (literal e figurativamente), para sobreviver aos três meses e meio de loucura que ainda tenho pela frente.

Resta-me o consolo de esta semana só ter três dias e meio!...


Os devaneios Agridoces mais lidos nos últimos tempos...