Foi, muito provavelmente, a prova mais dura que já fiz. Mas foi, também muito provavelmente, a prova mais bonita que já fiz. É o Gerês, e não é preciso dizer mais nada. Foi, certamente, a prova em que mais me superei e me desafiei. E foi, garantidamente, a prova onde dei a queda mais épica de sempre. Ficam as cicatrizes, fica a medalha, ficam as memórias, e fica a garrafa de vinho.
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domingo, 16 de junho de 2019
sexta-feira, 14 de junho de 2019
sábado, 8 de junho de 2019
terça-feira, 4 de junho de 2019
Do meu Sábado...
Quando o despertador tocou no Sábado, eram sete da manhã, ficámos os dois a pensar na nossa vida e a perguntar-nos por que raio fazíamos estas coisas a nós mesmos... Não pensámos muito, verdade seja dita, e acabámos por nos levantar, equipar, comer e seguir rumo a Monsanto.
Fomos participar em mais um treino de grupo das Tartarugas Solidárias e dos Run 4Fun. Já aqui falei nestes treinos e recomendo a quem possa ter interesse que os pesquise no Facebook. São treinos giros, com vários níveis de dificuldade (ideais para nós, porque cada um vai no seu), e com muito bom ambiente.
Eu tomei a decisão sensata de me juntar ao grupo dos iniciados, e acabei por fazer 8,5km num ritmo relativamente tranquilo e a sentir-me bem. Tentei gerir bem o treino e o esforço porque o dia ainda estava a começar, mas foi um bom regresso aos trilhos, numa pseudo-preparação para o que aí vem.
À noite, esperava-nos a Corrida de Santo António! Nunca tinha feito esta prova, tinha alguma curiosidade, sabia que devia ser boa por ser da HMS e ainda tinha direito a um manjerico no final! Parecia-me uma excelente ideia!
E foi! Fiz a prova a acompanhar uma colega de equipa que se foi estrear nos 10km. Fomos num ritmo muito calmo, sem parar até aos 6km, e depois caminhámos por 3 vezes, durante 200 metros em cada uma delas. Eu confesso que tinha as pernas moídas do treino da manhã, e já se sabe que não me dou bem com o calor, por isso, estava a custar-me. Mas, ao mesmo tempo, ia puxando por ela e tentando passar-lhe algum ânimo (mesmo se ela não me conseguisse responder e estivesse interiormente a rogar-me pragas). Ainda deu para fazermos um sprint final, em que eu me meti com ela a dizer-lhe que aquilo era como as Localidades e tínhamos de ultrapassar uns quantos nos últimos metros. E ultrapassámos! Cortámos a meta ao fim de 1h07, mais coisa, menos coisa. Para mim, foi dos piores tempos aos 10km, para ela foi um recorde pessoal e uma sensação muito boa (quando, passado algum tempo, ela voltou a conseguir falar e a sentir o que quer que fosse).
Se há coisa de que eu gosto na corrida é desta democracia nos objectivos: tirando os cromos dos pódios, o comum dos mortais não compete com ninguém a não ser consigo mesmo e com os seus objectivos. Não temos todos de fazer menos de uma hora, de 45 minutos, ou mesmo menos de 30. Temos, isso sim, de cumprir os nossos objectivos. Mesmo que eles sejam, apenas e só, cortar a meta.
Claro que isto é conversa de quem nunca chegará a um pódio ou a um grande tempo. É a minha auto-palmadinha nas costas. Mas, sinceramente, é mesmo isto que a corrida tem de bom!
Isso e o que acontece depois das provas, com os prémios de finisher e a recuperação que se segue.
Próxima paragem: Jamor, para a última prova do Troféu de Oeiras.
domingo, 2 de junho de 2019
Das fotografias que dão alegria... - Day 152
Dia de praia. Para tentar pôr algum bronze neste corpo para disfarçar as marcas dos calções, e das perneiras, e das meias, e dos calções.
A dada altura, estava eu a comer o último pedaço de melancia que restava no tupperware (eu sou das que vai de tupperware para a praia), enquanto pensava que a única comida que nos restava eram uns frutos secos e que bom, bom, era que aparecesse o Senhor das Bolas de Berlim, quando oiço ao longe aquele som mágico "Olhaaaaaaaa bolinha!". Seguiu-se o seguinte diálogo:
- Tu acreditas que estava mesmo agora pensar nisso?
- Em quê?
- No Senhor das Bolas de Berlim porque estamos a ficar sem comida! É um sinal!
- Mas queres?
- Podíamos dividir uma bola...
- Nem pensar! Ou comemos uma cada um ou não comemos.
- Era só para sermos menos gordos...
- Então não comemos.
E não comemos.
Deve ser isto a meia-idade.
sábado, 1 de junho de 2019
segunda-feira, 27 de maio de 2019
Do Trail do Almonda... - III
O Trail do Almonda foi, para mim, todo um conjunto de surpresas. Umas boas, umas menos boas. Mas foi mesmo surpreendente.
Já não me lembro ao certo o motivo por que nos inscrevemos nesta prova, mas o louco mais louco do que eu falou nisso, e eu, nalgum momento de pouca clareza mental, concordei. Curiosamente, já depois da prova, ele disse-me mais do que uma vez que para a próxima tenho de lhe dizer para ter juízo e não nos metermos nestas coisas. Com um bocado de sorte, isto passa-lhe entretanto, e para o ano estamos lá outra vez.
Trail do Almonda. Trail curto de 16km e Trail Longo de 28km. O ideal para irmos os dois, com distâncias confortáveis para ambos.
Comecemos por aí, talvez.
A última vez em que esta pessoa tinha feito trail tinha sido... Esperem... Contem até 20... Tive de ir confirmar ao strava quando pensei nisto pela primeira vez... Foi... No Columbus, no longínquo dia 2 de Fevereiro! Desde então, limitei-me a treinar estrada. Diz até que fiz uma Maratona faz amanhã um mês. Mas trail, já nem sabia bem o que isso era...
Mas voltei a descobrir. E a apaixonar-me. E a rogar pragas ao mundo em geral e às minhas decisões em particular. E a sentir-me bem. E a perguntar-me por que motivo estava ali e não na praia. E a adorar andar pelos trilhos, só eu e os meus pensamentos.
Já não me lembrava do quanto gosto de trail! Que gosto. Mesmo quando me custa. Mesmo quando as dores nos gémeos são tantas que eu acho que não vou conseguir subir mais um metro. Mesmo quando o calor aperta e eu vejo subida atrás de subida. Mesmo quando quase dou a maior queda de sempre. Mesmo quando tenho de fechar a boca para não comer (mais) mosquitos. Mesmo quando acho que não vou aguentar mais as dores nos pés. Mesmo quando me doem as unhas que já não estavam famosas da Maratona e que agora vão cair de certeza. Mesmo quando desespero e só quero chegar ao fim.
Gosto das vistas incríveis. Gosto do cheiro a rosmaninho que me faz querer não sair dali. Gosto dos recantos escondidos que jamais descobriria de outra forma. Gosto da liberdade de andar ali no meio de lado nenhum. Gosto do espírito de ajuda, da mão estendida para ajudar numa descida-difícil-e-técnica-e-que-não-foi-feita-para-pessoas-de-metro-e-meio. Gosto das borboletas à minha volta que me fazem sorrir. Gosto da comida nos abastecimentos. Gosto da sensação de superação no final ao cortar a meta.
O Trail do Almonda foi um trail sofrido, duro, no meio de muito calor, muito mais exigente do que eu esperava e do que a minha condição física actual permitia. Foi um Trail em que as subidas foram infinitas e difíceis, e em que as descidas não permitiam que me soltasse e rolasse por ali abaixo. Muito calhau, muita pedra solta, muito single track técnico, em que o nível de concentração tinha de ser sempre alto. Ainda assim, foi um trail em que parei muitas e variadas vezes para tirar fotografias e apreciar as vistas. Em que me diverti. Em que tentei aproveitar o que estava a viver.
O Trail do Almonda não foi fácil. Nem poderia ser. Mas foi um trail feliz. E isso, é só o que importa.
domingo, 26 de maio de 2019
sábado, 25 de maio de 2019
segunda-feira, 20 de maio de 2019
domingo, 19 de maio de 2019
Das fotografias que dão alegria... - Day 139
Mais um Domingo de Troféu de Oeiras. Desta vez, Linda-a-Pastora.
Fiz uma prova miserável, mas consegui ser ligeiramente melhor do que no ano passado, pelo que achei que merecia um prémio de consolação: uma bola de Berlim. A primeira do ano! Já que não vou à praia, vingo-me nas corridas. É justo, não?
Já a minha equipa, ficou mal habituada, e hoje trouxemos outra taça para casa. Se não faltasse apenas uma prova para o fim do Troféu, ainda fazíamos um brilharete no final!
sábado, 18 de maio de 2019
terça-feira, 14 de maio de 2019
segunda-feira, 13 de maio de 2019
Do Troféu de Oeiras... - Corrida da Outurela
Decorreu ontem mais uma prova do Troféu de Oeiras, também conhecido como Corridas das Localidades.
A prova de ontem era na Outurela, e foi organizada pela Associação de Moradores do Bairro 18 de Maio, que é o clube pelo qual eu corro. Claro que era uma prova especial!
O percurso não é dos melhores, mas também não é dos piores, e estava um calor tremendo. Ainda assim, a prova foi bastante participada e o resultado não podia ter sido mais positivo.
Pela primeira vez em muitos, muitos anos, a minha equipa ganhou uma taça na classificação geral das equipas! Ficámos em 7º lugar e teve um gosto especial ganhar aquela taça em casa! Costumamos ganhar algumas medalhas nas classificações individuais, mas ganhar uma taça foi mesmo uma festa!
A juntar a isto, o clube preparou um simpático pós-prova para nós, com comida e bebida, e foi ainda melhor celebrar esta vitória, com aquele convívio no final!
Comecei a correr com esta equipa sem saber bem como nem porquê, sem conhecer o clube e sem conhecer praticamente ninguém. Mas já lá vão três épocas, a equipa tem crescido imenso e agora somos uma pequena família. Na primeira prova a que fui, a da Cruz Quebrada em 2016, éramos só duas meninas e quatro rapazes. Ontem, éramos mais de trinta! E nem estávamos todos!
A corrida tem-me trazido muita coisa boa mas, acima de tudo, tem-me trazido pessoas. Muitas pessoas. Boas pessoas. Pessoas que eu quero guardar, haja corrida nas nossas vidas ou não.
segunda-feira, 6 de maio de 2019
Da Maratona da Europa... - VI (Ou do Pós-Prova...)
Mais uma vez, cortei a meta da Maratona da Europa e não baixaram em mim todas aquelas emoções que baixam em muitas outras pessoas. Mais uma vez, fiquei meio apática, sem saber como reagir. Acho que sou um bocado lenta, nas emoções como na corrida, e demoro a processar o que acontece comigo. Ou isso ou sou, nas palavras de alguém, reservada, e não sei o que é isso de expressar grandes emoções em público. Nem em privado, já agora.
Talvez esta falta de emoções no final seja reflexo do que foi a prova durante: dura, difícil, puxada a ferros. Foi um carrossel de emoções, com momentos muito bons e com momentos muito maus. Momentos em que eu pus tudo em causa. Momentos em que eu tive a certeza de que ia conseguir.
Depois da prova, ofereci-me o meu prémio de consolação: uma barrica de ovos moles. Por coincidência, descobri durante a prova que o João Lima tinha decidido oferecer-se o mesmo presente, caso cortasse a meta. Ainda longe de sonharmos que não teríamos direito a ovos moles no final!... Mas cortámos os dois a meta, e os dois tivemos a nossa muito merecida barrica! Great minds think alike!
Os dias que se seguiram foram melhores do que eu esperava. Curiosamente, desta vez, não foram tanto as pernas ou os pés que me doeram. Foram as costas, na zona dos rins. Nunca tal me tinha acontecido e, confesso, fiquei ligeiramente preocupada. Mas até isso acabou por passar (abençoado Adalgur!), e ao fim de 3 dias eu estava pronta para outra. Salvo seja!
A Maratona da Europa deixou-me a pensar no que ando aqui a fazer, na minha vida, nas minhas prioridades (como falámos por aqui algumas vezes). Não me imagino a voltar a fazer uma Maratona tão cedo. Talvez tenha dito o mesmo depois de Madrid. Mas agora é a sério.
Se foi uma Maratona feliz como eu gostava que ela tivesse sido? Não. Se foi a Maratona que eu gostava que tivesse sido? Não. Mas como diz o Filipe Torres, a Maratona é a prova justa. E eu tive a Maratona da Europa que merecia. Para a próxima, eu que treine!
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Da Maratona da Europa... - III
Decorreu Domingo a primeira edição da Maratona da Europa. Ou Maratona de Aveiro. Ou Maratona dos Ovos Moles, como carinhosamente lhe chamei nos últimos meses.
Comecemos por aí: a Maratona dos Ovos Moles não foi Maratona dos Ovos Moles. Para mim, foi Maratona das Caixas Vazias. O que, convenhamos, é chato. Uma pessoa passa quatro meses a treinar focada num único objectivo, os ovos moles, e chega ao dia e não encontra ovos moles. É mesmo chato.
Mas voltemos ao princípio.
Eu estava com mixed feelings em relação a esta prova e esta organização. De um lado, óptimas referências, de outro, alguma confusão e desinformação desde o lançamento da prova.
Nos últimos dias, a organização deu tudo a anunciar patrocinadores, brindes, ofertas, gravações gratuitas nas medalhas, massagens, porco no espeto, ovos moles e tudo e mais alguma coisa. As expectativas foram subindo, mas continuava receosa porque não deixava de ser uma primeira edição de uma maratona (que é coisa que eu não imagino sequer o que seja organizar).
Mas avancemos até ao dia M. Dia 28 de Abril de 2019.
Não dormi nada de jeito, claro. Acordei eram duas e meia da manhã, em pânico, porque ouvia barulho na rua e achava que já era de manhã e que tínhamos adormecido. Não adormecemos. Mas também não dormi muito mais.
O despertador tocou e começou todo o ritual de preparação antes da prova. Pequeno-almoço do costume (continuo apologista de reservar apartamentos por causa disto), trânsito para ir à casa de banho (para a próxima, escolho um apartamento com duas casas de banho...), a comida a não querer entrar com os nervos a crescer, as últimas dúvidas na escolha das meias (deixei tudo escolhido de véspera mas as meias são sempre aquele drama...), telefonemas e mensagens de apoio. O tempo a passar e nós atrasados. Saímos de casa e fazemos uma mini corrida de aquecimento até ao Centro de Congressos.
Encontro a Sofia e o André. Depois a minha Fabiana, a minha corajosa que acordou de madrugada para estar ali!
Já tinha feito xixi três vezes antes de sair de casa, mas ainda me pus nas filas para a casa de banho (que eram poucas...).
O tempo passou a voar e já estávamos na hora de partida. O louco mais louco do que eu foi para a sua caixa de partida, últimas despedidas e emoções ao rubro. Vou com a Fabiana até à minha caixa e acabo por encontrar o João Lima, com a Isa e o Vítor. Despeço-me da Fabiana e combinamos os pontos de encontro e toda a estratégia de suporte que ela tinha para mim.
Já tinha combinado com o João que iríamos tentar fazer os primeiros quilómetros juntos. O João queria ir um pouco mais depressa do que eu, mas a diferença não era muita, e ele fez a gentileza de aceitar ir comigo no início. E fomos.
A prova começou e lá fomos nós, dando início a mais uma longa jornada de 42,195km.
Os primeiros quilómetros não são os melhores. São onde se concentram a maior parte das subidas, passamos por uma zona industrial sem grande interesse e com pouco ou nenhum apoio, e vamos começando a entrar no ritmo para o que aí vem.
Felizmente, o tempo estava do nosso lado. Alguma neblina matinal, céu encoberto, sem vento. Temperatura fresca, mas não fria. Nesta altura, estava como se queria.
Lá vamos nós em direcção ao centro, para fazer a subida da mítica Lourenço Peixinho. Ninguém merece aquele empedrado!... Pelo menos, foi na parte inicial. Mas foi custoso... Felizmente, nesta fase já tínhamos mais apoio nas ruas e como íamos subir e descer esta avenida, sempre dava para ir olhando para ver quem vinha em sentido contrário.
Seguiu-se a passagem para a zona das salinas. E o verdadeiro início da prova, já sem quem ia fazer os 10km.
A parte das salinas era gira, ou foi isso que tentei pensar enquanto lá passava. Com o tempo que estava, a visibilidade não era muita, mas eu quis acreditar que sim. Eu não me estava a sentir particularmente bem desde o início. Sabem aquela euforia inicial que costuma aparecer quando começamos uma prova? Não apareceu para mim neste dia. Os quilómetros custavam a passar, as pernas não respondiam, o ânimo não aparecia.
Valeu-me o João Lima, a quem eu ia dizendo para seguir viagem, se quisesse acelerar. Mas o João ficou ao meu lado, sempre a falar comigo, a contar-me histórias, a partilhar experiências. Falámos muito de corridas, mas não só (obrigada pela partilha, João!). Falámos? Bom, na verdade, falou ele. Eu ia-me limitando a dizer que sim e que não, a soltar umas gargalhadas, e a acrescentar pouco à conversa. Não dava para mais. Mas seguíamos no nosso ritmo, à volta dos 6'30m/km.
Quando, por volta dos 14km, fizemos o retorno nas salinas, eu disse ao João para seguir, que estava a começar a morrer. Ainda nos rimos, ao relembrar que em cada Maratona morremos e renascemos muitas vezes. Mas o João não seguiu e continuámos juntos.
Ainda passámos pela Sofia, e deu-se a divisão da meia e da Maratona. Se não tivesse o João ao meu lado, acho que tinha pensado seriamente em seguir para a meia e desistir da Maratona. Será que mais vale uma meia feliz do que uma Maratona sofrida? Não sei. Talvez não. No Domingo, eu achei que não.
Passaram-se mais dois quilómetros e eu achei que não aguentava mais. Tinha a cabeça a mil, a pensar em tudo, a tentar ir buscar energias sem saber onde, a tentar encontrar motivação, mas não estava mesmo fácil. Disse ao João que seguisse, que eu não aguentava mais. Devo ter feito um ar tão grave e sério, que ele limitou-se a dar-me a mão e a despedir-se de mim. Ele seguiu, e eu encostei à berma, com o intuito de começar a caminhar. Mas não caminhei. Curiosamente, mandei o João embora e fiquei a vê-lo ali perto de mim, a ganhar distância a pouco e pouco, e a pensar por que raio o tinha mandado embora, se continuava a correr.
Mas a distância foi aumentando, o percurso foi piorando, e ao fim de dois quilómetros, tive mesmo de começar a caminhar. Estávamos com mais de 18km. Faltava mais de metade da prova. E eu já naquele estado... O futuro não se adivinhava muito risonho e eu começava a pensar o que raio estava ali a fazer.
Entretanto, pus os phones, para ouvir a minha música, e oiço a primeira mensagem via Endomondo: o meu Pai, a mandar-me força. Como não estava previsto haver live tracking da prova (a organização só o anunciou já depois de a prova ter começado...), tinha decidido levar o Endomondo ligado, para quem quisesse ir acompanhando, tendo a vantagem de o Endomondo permitir enviar incentivos durante os exercícios, que depois são lidos por uma voz robótica. Pouco tempo depois, recebo a primeira mensagem da Fabiana, que me deixa emocionada, com vontade de chorar baba e ranho, e que coincide com a chegada à Gafanha, numa zona onde voltamos a apanhar imensa gente a assistir (coisa que já não acontecia há algum tempo...). Entre as mensagens e o apoio do público, as emoções estavam a rubro. Viramos para uma rua mais deserta e eu tenho mesmo de encostar, e tentar respirar fundo, para controlar os soluços que se formavam na garganta. Caraças! Meses de treino não nos preparam para isto!...
A partir daqui, começou a segunda parte da minha prova.
Liguei à Fabiana, avisei-a de que tinha quebrado e para não se assustar com isso. Pedi-lhe que avisasse o louco mais louco do que eu, porque ia demorar bem mais do que o previsto. Estava relativamente bem, mas sabia que ainda tinha muito caminho pela frente e não estava em grandes condições de o fazer.
Na zona da Gafanha, e depois já na Barra, havia imenso apoio. Palmas para aquela gente toda! E eu já passei tarde... Imagino mais cedo! Havia gente a bater palmas, cartazes, crianças, adultos, velhotes. Também não faltavam voluntários e polícias a indicar o percurso (nisso, zero falhas!). Com este apoio todo, uma pessoa sente-se obrigada a fazer um esforço, não é verdade? E lá fui eu, andando e correndo, conforme conseguia.
Na passagem da Ponte da Barra ia distraída a ver quem lá vinha, e vi o louco mais louco do que eu, já a voltar para Aveiro, fresco e fofo como se nada fosse. Só lhe disse "esquece lá as 5 horas!". Foi também nesta Ponte que fui trocando incentivos com quem vinha em sentido contrário. Sobretudo, com as mulheres. Não tinha ideia de que éramos tão poucas mulheres na prova, mas isso só acabou por servir de elemento de união e de solidariedade espontânea!
Quando já ia com duas horas e meia de prova, lembrei-me que não tomava um gel há uma hora... Tinha definido tomá-los a cada 40 minutos, mas no meio da animação e da emoção, esqueci-me completamente. Também não deve ter sido por isso que quebrei tanto, não é verdade?
25km. Mais um abastecimento. Estávamos numa zona mais deserta, depois de termos feito parte da avenida principal da Barra, e seguia-se um trajecto junto à Ria. Começava também a estar mais sol e calor. Parei no abastecimento como se estivesse num trail. Comi, bebi, comi mais um bocadinho. Já se sabe que adoro laranjas nestas coisas... Acho que foi também aqui que comecei a fazer amigos. Entre trocas de olhares de desespero, palavras de ânimo e umas piadas secas, comecei a identificar aqueles que eram os meus companheiros de luta nesta fase. Segui viagem. Metade já estava e agora, mesmo que quisesse desistir, não tinha opção a não ser voltar para trás para Aveiro. Mais valia correr.
Continuei, caminhando e andando. Tentei ir alternando 800m a correr com 200m a caminhar. Nem sempre conseguia. Já não me lembro bem ao certo de quando foi, mas acho que foi já a sair da Barra e na ida de volta à Gafanha, em que comecei a falar com o Sr. Arlindo, que vinha a fazer mais ou menos o mesmo ritmo que eu. Ora eu passava por ele a correr enquanto ele caminhava, ora ele passava por mim a correr enquanto eu caminhava. Também na nossa zona andava a D. Helena, a quem acabei por dar da minha água, por não se estar a sentir muito bem (e o que ela me agradeceu!). O calor era já bastante, e eu ia despejando água em cima de mim, para tentar arrefecer. Lá fomos andando os três. Ela dizia que não podia parar de correr. Lá ia no ritmo dela, e iamo-nos passando conforme calhava. Eu e o Sr. Arlindo acabámos por fazer bastantes quilómetros juntos, puxando um pelo outro. "Vá, agora só até àquela placa", "Agora já chega", "Vamos correr mais um bocadinho?". Dei por mim a ser eu a puxar por eles. Eu! Eu que continuava sem saber o que andava ali a fazer...
Mas lá fomos, e fiquei a saber que era a primeira Maratona do Sr. Arlindo, que na véspera tinha estado a fazer um trail de 15km, e que tinha 52 anos. Perante isto, como é que eu me podia queixar, não é verdade?... Cala-te e corre, Inês!...
Continuamos no nosso regresso a Aveiro (finalmente!), e começamos a fazer contas à vida, que já não falta tudo, que vamos fazer cinco horas e pouco, que está quase...
E quem é que está no quilómetro 38 à nossa espera? A Fabiana, claro! Que festa! Que energia! Põe-se a correr ao nosso lado, dá-me as últimas palavras de ânimo e combinamos encontrarmo-nos perto do final. Estava quase.
Começamos a ir em direcção à zona da Universidade, numa parte do percurso que eu já conhecia, porque tinha feito por ali um treino na véspera. Entretanto, junta-se a nós a Célia Azenha, que me conta que estava a fazer a sua 59ª Maratona (sendo que vai fazer em breve a 60ª no Canadá). Ia ali um grupo de elite, sem dúvida!
Houve aqui um período muito grande em que fomos a caminhar, tendo feito praticamente toda a ligeira subida a andar... Lá convenço o Sr. Arlindo a corrermos até ao abastecimento dos 40km, que já não faltava quase nada e tínhamos de dar tudo nos últimos quilómetros. Quando entramos na recta que antecedia o abastecimento, e que era ligeiramente a subir, quem é que eu vejo lá ao fundo? O João Lima! Qual é que passa a ser o meu objectivo? Apanhar o João! "Vá, vamos lá, só mais um bocadinho!" O João ia lá bem longe e eu achei que, mesmo a correr, ia tão lenta que não o ia conseguir apanhar, mas ele abrandou no abastecimento, e eu consegui apanhá-lo pouco depois. Na verdade, gritei por ele e ele esperou por mim!
E começaram assim os últimos dois quilómetros. Eu só perguntava ao João se ele estava bem, porque para eu o ter conseguido apanhar era porque algo se passava... Ele dizia-me que não, não estava bem, mas de sorriso nos lábios (aquele sorriso de quem sabe que mais uma está feita!). Quem é que está bem aos 40km de uma Maratona? Que pergunta! O João ainda me disse para seguir algumas vezes, talvez porque eu estava a ser um bocado chata a puxar por ele (desculpa!)... Mas eu não lhe dei hipótese e disse-lhe que se tínhamos começado juntos, havíamos de acabar juntos.
Lá seguimos. Faltava tão pouco! Eu só queria chegar ao fim. Sentia-me leve. Tinha passado o meu Cabo das Tormentas, tinha batido no fundo, tinha chegado ao mais alto nível de desespero, e agora faltava tão pouco!
Apanhámos a Fabiana perto do final do quilómetro 41 (ou ela é que nos apanhou a nós?), e seguimos os três, naquelas centenas de metros finais, até à meta.
Quando entrámos na passadeira azul, a Aurora Cunha estava à nossa espera, para nos acompanhar até ao fim.
E foi assim que eu cortei a meta da Maratona da Europa. Com duas grandes referências e inspirações para mim. Melhor? Só se a minha Fabiana estivesse connosco. Mas há-de chegar a Maratona dela, e havemos de cortar a meta juntas!
Depois da meta, dei um abraço ao João, fui dar os parabéns ao Sr. Arlindo e à D. Helena, que me voltou a agradecer e me pediu para tirar uma fotografia comigo porque eu a tinha salvo! Eu só lhe dei água, juro! Mas numa Maratona um pequeno gesto pode mesmo fazer a diferença, não pode?...
Vi o louco mais louco do que eu (que morreu de tédio à minha espera - quem o manda correr depressa?), recebi a minha medalha e fui em busca dos ovos moles. Apenas e só para encontrar as já referidas caixas vazias... Fiquei de boca aberta, incrédula, a olhar para as mesas e as caixas onde outrora estiveram os ovos moles... Também já não havia maçãs. Havia porco no espeto, que é coisa que dispenso. E havia cerveja, menos mal.
Mais fotos, mais umas palavras trocadas. Eu nunca sei bem o que sentir, o que pensar. Acho que não estava bem a acreditar que tinha mesmo conseguido. Mas parece que sim.
Quis ir gravar o tempo na minha medalha (que é bem gira, por sinal!). E eis que me dizem que a tenda das gravações ia fechar para almoço e só voltavam às 14h30. Como assim!? Vão fechar? Lá fiz o meu choradinho, disse que tinha de me ir embora porque tinha um comboio para apanhar. Perguntaram-me o meu tempo. Achava eu que era suposto serem eles a dizerem-me o meu tempo... Pois que não. Disseram-me que visse no meu relógio quanto tempo tinha feito e era isso que eles gravavam. Disse-lhes três horas. Não acreditaram. Não percebo porquê!... Lá lhes disse: 5h12m45s. É isso que está na minha medalha. A diferença para o tempo oficial, que só vi depois, foi só de um segundo. Menos mal.
Últimas despedidas, últimas fotografias, e regresso ao apartamento.
Foi assim a minha Maratona da Europa. Hei-de escrever mais uns quantos posts sobre ela, claro, que isto é coisa que é preciso fazer render.
Por ora, deixo-vos com este testamento. Podia oferecer-vos uns ovos moles, em jeito de compensação pela leitura de tamanha obra mas olha, lessem mais depressa!
(as fotos deste post têm as mais diversas origens: Sofia, Facebook, fotógrafos oficiais, fotógrafos oficiais do João Lima [foi só por isso que eu quis correr ao lado dele!], etc. Se alguém quiser que eu elimine alguma das mesmas, é só dizer!)
domingo, 28 de abril de 2019
Da Maratona da Europa... - II
Regressei a Lisboa de Havaianas, sem vergonhas, porque não ousei tentar calçar o que quer que fosse.
Estive agora com o meu novo melhor amigo, o Betadine, a rebentar as cinco bolhas que fiz (foram poucas, até!), já me besuntei com o Halibut e agora é esperar que isto amanhã esteja melhor. Que duvido que amanhã possa voltar a usar a táctica das Havaianas para ir trabalhar...
E o giro que vai ser amanhã se, como sempre, as escadas do metro estiverem avariadas?...
Ah! As maravilhas do pós-prova!...
sexta-feira, 26 de abril de 2019
Da Maratona da Europa... - I
Chegámos a Aveiro à hora de almoço. Fomos pousar as coisas ao apartamento que alugámos e fomos almoçar. Come-se demasiado bem e barato nesta terra.
Demos uma volta e fomos ao Centro de Congressos levantar os dorsais. Só nesse momento se tornou, verdadeiramente, real. Não pude deixar de me emocionar. De me agarrar ao louco mais louco do que eu. De respirar fundo e tentar interiorizar o que aí vem.
Tirámos as fotos da praxe, e tive a sorte de apanhar a Aurora Cunha. Quando me pus ao lado dela e ela viu o meu dorsal, perguntou-me se eu ia fazer a Maratona. A medo, disse-lhe que sim. E ela saiu-se com um "Eh lá! Grande mulher! Precisamos de inspirar mais mulheres a fazer grandes distâncias.".
E precisamos. Precisamos mesmo. Precisamos de sair da nossa conforto e de fazer aquelas coisas que ainda há quem ouse dizer que não são para mulheres.
E Domingo lá estaremos. Para honrar este dorsal e estas palavras.
Com ou sem ovos moles.
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