Depois do relato, depois de falar da prova em si, falta escrever sobre mim na prova.
Claro que, tudo o que eu escrevo aqui, é muito pessoal, é totalmente empírico, e eu não sou exactamente muito experiente no tema para poder falar muito sobre o mesmo. Longe de mim querer achar que posso estar para aqui a falar de Maratonas como se fosse muito entendida! Só acho que, precisamente por isso, e até para minha referência futura, pode ser interessante partilhar a minha experiência de alguém que olha para isto de forma muito simples e terra-a-terra, apenas com base no que viveu e aprendeu. Também sei que, dado o tempo que eu demorei a concluir a Maratona de Madrid, talvez o que eu aqui digo não seja muito legítimo. Não é o mesmo fazer uma Maratona em três horas ou em cinco. Talvez não faça sentido eu falar na gestão da alimentação que fiz durante a prova, porque, de facto, eu fiz mais um passeio por Madrid do que uma prova, mas foi o meu passeio e quero falar sobre ele. O mesmo quanto à preparação antes... Ou quanto às cãibras, que não tive. Talvez se eu corresse o tempo todo e depressa, tivesse tido. Talvez correndo ao meu ritmo, seja impossível tê-las. Não sei. Mas posso partilhar o que fiz para evitar que as tivesse, caso fosse possível tê-las quando se correr a ritmo de tartaruga.
Mas avancemos.
A decisão de ir a Madrid surgiu no seguimento do fracasso que foi a tentativa de ir ao Porto. Quando, em Setembro ou Outubro do ano passado, decidi desistir de tentar estrear-me na Maratona do Porto, naquela que foi uma
decisão dura e difícil, a primeira coisa que o louco mais louco que eu fez foi procurar outras opções em que eu me pudesse estrear. Ainda pensei em fazer outra até ao final do ano, mas acabei por ficar desmoralizada e sem vontade. Sevilha também foi considerada. Mas implicava treinar muito durante o Inverno, e eu conheço-me. Por outro lado, no final do ano começou a surgir a possibilidade de eu vir a ser obrigada a parar durante uns tempos e começaram a surgir também outros planos de futuro. Com isto, eu sabia que ou fazia já uma Maratona, ou talvez nunca a fizesse. A pouco e pouco, surgiu Madrid em cima da mesa. Era perto, era barato, calhava junto ao 25 de Abril, o que permitia fazer umas mini-férias, nenhum de nós conhecia bem a cidade, já estaria um tempo mais simpático, tinha imenso tempo para treinar, ... E foi assim que, no Natal, o meu presente para ele foi a inscrição na prova. Consequentemente, inscrevi-me a mim também, mesmo sem ter a certeza se poderia fazer a prova.
E foi a partir da inscrição, que eu comecei a treinar. Criei um plano de treinos no
My Asics, a que já tinha recorrido noutras ocasiões e sempre gostei muito. As projecções muito optimistas diziam que eu havia de fazer a prova em 4h26. Desde o princípio, sabia que isso era impossível.
Foram quase 4 meses de treinos. Treinos pouco consistentes, pouco regulares, muito incertos. Devia treinar 4 vezes por semana. Acho que isso não aconteceu mais do que uma ou duas vezes. Regra geral, treinei 3 vezes por semana. Houve semanas em que treinei 2, houve semanas em que treinei 1. Não sou a pessoa mais disciplinada e focada do mundo. Nunca serei. Pelo meio, houve uma mudança de casa e muita coisa a acontecer na minha vida pessoal, na minha saúde, e nas pessoas à minha volta. Sei que devia ter treinado mais, mas sei que fiz o possível, enquanto tentava aguentar-me em pé e ter vida para além da corrida (isso existe?).
Em jeito de preparação, fiz o
Fim da Europa, fiz o
Peninha Sky Race e fiz a
Meia de Cascais, em três semanas seguidas. Parecendo que não, acabou por ser um bom arranque para os treinos. Depois disso, fiz um treino de 22km e dois de 25km. Não fiz treinos verdadeiramente longos. E isso deixou-me em pânico para o dia da prova. Há muitas e variadas teorias sobre esta questão. Eu, que não percebo nada disto, acho que os treinos mais longos são importantes, sobretudo, a nível psicológico. Não sei se as nossas pernas sabem bem se corremos 25, 30 ou 35km. Mas a nossa cabeça sabe perfeitamente e pode cobrar-nos isso. Na semana antes da prova, pelos motivos que se sabe, fiz apenas dois treinos de 5km. Levei o conceito de
tapering ao extremo. E parece que até nem foi má ideia.
Um mês antes da prova, e por causa das minhas amigas bolhas, comecei a pôr
creme anti-bolhas. Em quantidades monstruosas. Todos os dias. Duas, três, quatro vezes por dia. De manhã depois do banho, ao fim da tarde antes dos treinos, depois do banho a seguir aos treinos, antes de dormir. Tornou-se o meu ritual religiosamente cumprido. E foi a única coisa que, de facto, teve algum efeito. Claro que fiquei com bolhas durante a Maratona. Mas nada que se compare com a bolha de sangue que fiz no primeiro treino de 25km. Na verdade, e é certo que já se passou algum tempo, mas não tenho grande memória de as bolhas me terem incomodado muito durante a Maratona (ao contrário do que aconteceu em Cascais, por exemplo). Tive mais dores depois, com muitas dificuldades em calçar-me nos dias seguintes, do que propriamente na prova. E também nunca tive os pés tão hidratados! Fica a dica, para quem sofra do mesmo mal.
Uma semana antes da prova, comecei a tomar Magnesona diariamente. Torço um pouco o nariz a suplementos da moda e aquelas coisas que a malta super fit toma. Mas a Magnesona vende-se na farmácia e é dada, por exemplo, às grávidas, e é, de facto, muito eficaz na redução das cãibras. Mal não faz, de certeza. E o que é certo é que não tive uma única! Se foi por correr devagar ou foi por causa disto, nunca saberemos...
Já se sabe que os dias antes da prova não foram o ideal em termos de alimentação e descanso. Mas tentei, dentro do possível, ir bebendo muita água, e no Sábado privilegiei os hidratos de carbono ao almoço (pasta party!) e ao jantar (italiano). O pequeno-almoço antes da Maratona foi o do costume: papas de aveia com leite de soja, mel e frutos secos, acompanhadas de chá verde. Antes da prova, comi uma banana e bebi mais água.
Durante a prova, tomei 3 ou 4 géis (já não me lembro ao certo), e acho que 2 gomas (acho que já disse que sou fã
destas). Nos abastecimentos, que eram bastantes, fui apanhando alguns pedaços de banana, mas poucos, que não me apetecia muito e o que eu queria mesmo era laranjas, que não havia... Quando havia isotónico e água, o que fazia era pegar numa garrafa de água e num copo de isotónico. Bebia logo o isotónico e depois ia bebendo pequenos golos de água. Umas das minhas maiores preocupações era com a desidratação, sobretudo, porque estava bastante calor. Fui-me obrigando a beber água, a pouco e pouco, e ia molhando a cabeça, a cara e os braços. O objectivo era beber uma garrafa de água entre cada abastecimento. Nem sempre o fiz, mas quase. E não, não tive de parar mais nenhuma vez para ir à casa-de-banho (tirando aquela logo ao início). Aliás, só muitas horas e algumas cervejas depois da prova é que voltei a ir à casa-de-banho. Desculpem estes pormenores, mas é mesmo incrível o impacto que uma coisa destas tem no nosso corpo!...
Psicologicamente, a prova foi toda uma montanha-russa. Houve vários momentos em que me perguntei por que raio estava ali. Houve várias alturas em que achei que aquilo não era para mim. Mas nunca, em momento algum, pensei seriamente em desistir. Mesmo no meio de todas as inseguranças, eu sabia que havia de cortar aquela meta, custasse o que custasse. Eu pensava em tudo o que tinha passado para chegar ali, eu pensava em tudo o que estar ali representava, eu pensava nas pessoas todas que tinha a torcer por mim, e eu sabia que tinha de acabar a prova. E acabei. Ainda não sei bem como, mas acabei.
Outra coisa que eu achei, e perdoem-me os que discordam, é que fazer a Maratona não custa assim tanto!... Fazer a Maratona é chegar e correr. Sim, eu sei que demorei quase 5 horas e que isso me tira alguma moral para falar mas é mesmo isto que eu sinto... O que custa são os meses e meses de treino, é o acordar cedo, é o ter de abdicar de jantaradas, é o estar sempre a condicionar a vida à volta do plano de treinos, é o estar preocupada com a alimentação, é a pressão tremenda de ter de treinar, são as dores e as recuperações... É isso que custa. É isso que nos faz vacilar. No dia? No dia é calçar os ténis e correr! No dia, é tentar absorver tudo o que está a acontecer para conseguirmos guardar em nós todas as memórias daquela experiência única! No dia é aproveitar e ser feliz! Só isso!
E como é que eu me sinto quase um mês e meio depois da Maratona? Sinto que não fiz uma Maratona. É verdade. E poupem-me as palmadinhas nas costas. Eu fui educada com base na premissa "nothing is good enough", pelo que, ter demorado quase 5 horas e ter feito uma parte do percurso a caminhar, não me permite reconhecer-me o direito de me sentir verdadeiramente maratonista. Eu fiz a Maratona, sim, e eu fiz o melhor que podia, sim, e custou-me muito, sim, e esforcei-me muito, sim, e foi um feito do caraças dadas as circunstâncias, sim. Mas talvez tenha de voltar a fazer uma a sério um dia, para a coisa me saber a sério. Não me batam, por favor!... Não consigo explicar melhor o que sinto, e sei que vou ser mal interpretada, mas entendam isto como mais um dos muitos disparates que eu por aqui digo. É um sentimento estranho. Eu fiz a Maratona, mas sinto que não me posso pôr ao mesmo nível de tantas pessoas que conheço (e que não conheço) que são Maratonistas a sério... É estranho, mesmo. Mas é o que eu acho!...
Por último, esta prova só foi possível porque tenho à minha volta gente incrível. Se não fosse o louco mais louco que eu, não teria conseguido. Não tenho dúvidas disso. Foi ele que me apoiou desde o início, foi ele que me obrigou a treinar, foi ele que refilou comigo quando eu me armei em lontra e quis ficar na ronha, foi ele que me incentivou e empurrou para a frente quando eu duvidei de mim, foi ele que me acompanhou em muitos treinos sofrendo no meu ritmo lento-quase-parado, foi ele que abdicou de fazer uma prova melhor no dia M apenas para poder partir comigo. Muito do que fiz, devo-o a ele. Mas devo-o também a muitas outras pessoas, muitas pessoas que estão aí desse lado, que também me deram dicas e conselhos, que me deram forças, que me incentivaram, que me apoiaram e acreditaram. E é uma sensação incrível sentir esse apoio! Quanto mais não seja, a Maratona valeu por isso! Obrigada!
E assim encerro este tema por aqui. Por ora.