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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Dos meus treinos e das lições de vida...

Sábado era dia de treino longo. E foi. Mais ou menos.

Devia ter feito 25km. Idealmente, 27km. Mas fiz apenas 22km. Que me custaram horrores, naquele que foi o treino mais duro que fiz nesta minha jornada a caminho dos ovos moles... Quando a cabeça não quer e os pés não ajudam, as pernas não correm. Foi esta a lição do dia.

Tive um jantar com colegas de trabalho na sexta-feira e acabei por me deitar mais tarde do que devia. Quando o despertador tocou às sete no Sábado, eu só me queria virar para o outro lado e dormir. Ou chorar. Também me apetecia chorar.

A muito custo, lá me levantei. Despachei-me e saí de casa. Talvez tenha apanhado uma multa pelo caminho (ia de carro, não a correr... Não se entusiasmem!). Cheguei ao ponto de encontro do Treino Longo do Correr Lisboa já atrasada. Não fazia diferença. Seria sempre das últimas.

E fui. Comecei a correr, sem vontade alguma, no meu ritmo lento quase parado. Ao fim do primeiro quilómetro percebi que havia três outras corredoras que iam a um ritmo semelhante ao meu, e perguntei-lhes se me podia colar a elas. E colei-me. Soube bem a companhia nos primeiros quilómetros até ao abastecimento. Ia a um ritmo simpático, sentia-me bem e a coisa parecia que, afinal, não ia ser tão dramática como eu previra quando saíra de casa. Ou julgava eu.

Depois do abastecimento (abençoado!), ainda tive companhia até ao Terreiro do Paço, de uma atleta que depois ia subir pela Baixa e pela Avenida, para regressar a casa a correr. Ela morava em Telheiras. Logo ali, portanto.

Feitas as despedidas, decidi voltar para trás, porque se continuasse mais para a frente, já não ia a tempo de apanhar o abastecimento no regresso. E foi quando voltei para trás que percebi que o treino não ia mesmo ser fácil. O vento contra foi impedioso comigo. Nem os quilos a mais que tenho me ajudaram, e eu achei que ia voar a qualquer momento. Foi uma luta grande entre mim e o vento, e os metros teimavam em não passar.

Mas lá fui. Um pé depois do outro. Cheguei a pôr a hipótese de chegar ao abastecimento e pedir boleia de carro. As dores na coxa tinham começado aos 9km, o vento estava a irritar-me e eu comecei a achar que aquilo não era para mim.

Mas, claro, cheguei ao abastecimento, com 12km e qualquer coisa, e limitei-me a beber água e isotónico, pegar num gel para o caminho, e seguir viagem. Uma pessoa pensa muito em desistir, que pensa, mas até para desistir é preciso coragem, e isso é coisa que não abunda por aqui.

Segui viagem. A sofrer. Com os pés a começarem a acusar as bolhas e respectivas dores. Aquela parte entre Santa Apolónia e o Poço do Bispo é terrível. Estrada de um lado, contentores do outro. Eu, só e abandonada. O vento contra. A cabeça começa a falhar. Volto a pensar que aquilo não era para mim. Lá porque fiz uma maratona, quem é que eu me julgo para achar que faço outra? Não faço. Não quero fazer. Estou farta de tudo. Começo a deixar de conseguir respirar e sinto os soluços a formarem-se na garganta. Antes de largar num choro compulsivo, decido parar de correr, ir simplesmente a caminhar, e recorrer à ajuda telefónica do público. O louco mais louco do que eu, lesionado e fechado em casa, dá-me palavras de ânimo. Diz-me que estou quase na Expo e que só preciso de fazer mais 5 ou 6km para chegar ao carro. Acalmo-me. Desligo e volto a correr.

Vou tentando definir pequenas metas para me ir motivado. Agora até ao Prata. Agora até ao bebedouro no parque infantil da Marina. Páro. Alongo para tentar aliviar as coxas. Tomo um gel, convicta de que não posso fazer apenas os quilómetros que me separam do carro. Volto a correr. Só até ao Pavilhão de Portugal. Caminho 100 metros. Já ia com 17km. Precisava de fazer mais.

Volto a correr. Primeiro, decido fazer 20km, que devia ser o suficiente para chegar ao carro. Depois, penso que 20km é pouco. Passo pelo carro e decido seguir, para fazer os 21km. As dores são muitas mas eu penso que 21km já fiz mais do que uma vez. Preciso de fazer mais. Decido fazer os 22km, só para fazer mais do que nas outras vezes.

E fiz. Não sei como, mas fiz. Curiosamente, mesmo com algumas partes a caminhar pelo meio, fiz um ritmo médio perfeitamente alinhado com o que tenho feito ultimamente (6'27/km). E o meu quilómetro mais rápido foi o último (6'04). Não deixa de ser irónico constatar que o meu corpo dava para mais. Que eu sei que dava. A cabeça e os pés é que não.

Este foi o meu treino mais longo até agora. O que, a quatro semanas menos um dia da Maratona, é uma miséria. Eu sei.

Mas também sei que se no dia 28 eu não conseguir fazer aqueles 42km, esta preparação já valeu a pena por tudo o que me tem ensinado e pelas dezenas de euros que tenho poupado em terapia.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Dos sítios onde eu vou... - VII

Andei a semana toda que passou a querer vir escrever sobre o meu fim-de-semana. Passou-se a semana, passou-se mais um fim-de-semana, passou-se praticamente mais uma semana inteira, e eu sem escrever.


Agora tenho dois fins-de-semana sobre os quais escrever. Porque quero escrever sobre eles. Porque foram bons. Muito bons. E eu quero deixá-los registados para memória futura.

No fim-de-semana anterior, fiz um treino semi-longo no sábado de manhã (já referido), e à noite, mesmo cheia de dores nos pés em cada passo que dava, fui ao teatro e jantar fora.

E precisamos de falar sobre a minha ida ao teatro. 

Eu já não ia ao teatro há demasiado tempo. Depois de alguns anos em que o teatro fez parte da minha vida, eu tornei-me muito esquisitinha e agora só entro numa sala de espectáculos se souber que vale a pena. E no Sábado valeu a pena. Valeu muito a pena!

Claro que era, à partida, uma aposta segura. Era (mais) uma peça do Tiago Rodrigues. Eu não tenho nenhuma paixão platónica pelo Tiago Rodrigues. Juro. Já tive dois Tiagos na minha vida, e os dois eram Rodrigues. Já chega de Tiagos Rodrigues. Mas não chega de peças deste Tiago Rodrigues. E desconfio que não vai chegar nunca.

Um outro Fim para a Menina Júlia ©Filipe Ferreira 2019

Fui então assistir a "Um outro fim para a Menina Júlia". E gostei tanto! A peça pega no clássico do Strindberg e conta a mesma história com um final diferente. Um final em que a Menina Júlia não se suicida e em que a sua vida se desenrola da forma que o Tiago Rodrigues imaginou que se teria desenrolado. Assim, à partida, pode não parecer nada de extraordinário. Pegar numa história e reescrevê-la à sua maneira não tem nada de mais. O Correio da Manhã faz isso todos os dias. Mas o Tiago Rodrigues não fez apenas isso. Como sempre, fez algo incrivelmente bem feito, que nos surpreende, que nos prende, que nos envolve e nos transporta para aquela história.

A meio da peça, dei comigo a pensar no privilégio que é poder assistir a teatro. Sobretudo, numa sala tão pequena como a Sala Estúdio do Dona Maria. Estava na segunda fila e tinha os actores a poucos metros de mim. Numa era em que passamos todos horas colados na Netflix, a beleza e a magistralidade do teatro e dos actores que estão ali, em palco, a representar para nós ao vivo e a cores, torna-se ainda mais avassaladora.

Gostei muito da peça e tenho a certeza de que, com outros actores, seria ainda melhor. Mas, até nisso, o Tiago Rodrigues é especial. Fez esta peça com "a prata da casa" e com dois estagiários. Com o Tiago Rodrigues o Dona Maria deixou de ter só grandes produções para grandes vedetas (melhores ou piores actores), e passou a ter também peças igualmente boas (ou melhores, até), em que os actores residentes do teatro (melhores ou piores actores) não ficam apenas remetidos aos papéis secundários e de menor importância. E é, também, por isso, que o Tiago Rodrigues é o melhor director artístico dos nossos tempos. 

Eu sei que já é um bocadinho em cima da hora mas têm até Domingo para ir ver. Acreditem que não se vão arrepender. Com sorte, ainda bebem um copo de vinho e comem um bocado de presunto.

Update: devido ao sucesso da peça, certamente graças a este post, a peça vai estar em cena novamente de 3 de Abril a 23 de Maio. Acreditem, vale a pena. 

terça-feira, 19 de março de 2019

Dos meus treinos... E dos treinos dos outros...

Pois que, como já seria previsível, não tenho treinado tanto quanto deveria.

Como também já seria previsível, a minha motivação tem tido altos e baixos. 

Tenho tentado arranjar formas de me auto-motivar, tenho procurado forças e inspiração nos mais diversos sítios e tenho estado muito disponível para experimentar coisas novas que possam facilitar o meu percurso nesta longa jornada até ao dia 28 de Abril.

Além da minha equipa e das nossas provas, dos treinos com a Fabiana que é a minha companheira maior nesta loucura, dos treinos com o louco mais louco do que eu que merece uma estátua pela paciência infindável, eu resolvi ainda experimentar os treinos longos do Correr Lisboa.

Acompanho o Correr Lisboa há vários anos, mas nunca tinha corrido com eles. Não só porque estive uns anos a viver na linha de Cascais (e juntei-me ao Correr Oeiras), mas porque os horários dos treinos deles nunca combinam com os meus horários.

Eu tenho mixed feelings em relação aos treinos de grupo, confesso. 

Por um lado, acho que são formas óptimas de conhecermos pessoas com a mesma loucura do que nós, com quem podemos aprender, crescer e evoluir imenso. Por outro, também pode haver experiências menos boas. 

No Correr Oeiras ainda participei em alguns treinos de grupo, sobretudo, porque eram organizados por mim!... E quando falamos em treinos de grupo, estamos a falar de 3 ou 4 pessoas. Se fôssemos mais do que meia dúzia já era uma festa, e houve um treino em que éramos uns 15 e quase lançámos foguetes. Era sempre difícil conciliar agendas, vontades e disponibilidades. Mas a verdade é que foi ali que conheci aqueles que são hoje a minha equipa, e foi também ali que comecei a correr mais consistentemente, há quase quatro anos atrás. Não foi apenas e só por isso, mas ajudou. Lamentavelmente, como vim morar para a outra ponta da cidade, deixei de treinar com eles. 

Já participei em outros treino de grupo, entretanto, e, ao ver que o Correr Lisboa ia ter treinos longos para a Maratona de Aveiro e, ainda por cima, quase à porta de casa, achei que era uma excelente oportunidade para voltar aos treinos de grupo. 

Fui a semana passada e fui esta semana outra vez. 

E recomendo! 

A semana passada fiz apenas 16km, duros e sofridos, e acabei com os meus pés num estado miserável. Fiquei desanimada, comecei a questionar tudo e a ver a minha vida a andar para trás e os ovos moles cada vez mais longe. 

Esta semana fiz 21km, na minha meia maratona privada. Também foram duros e sofridos, mas acabei a sentir-me incrivelmente melhor, em comparação com a semana passada. E isso, nesta fase da minha preparação, tem uma importância fulcral.

Sei que ainda vou ter muitos momentos em que vou achar que não sou capaz, mas no Sábado, depois daquele treino, eu achei que talvez até consiga. 

Vantagens destes treinos do Correr Lisboa? O abastecimento. Para mim, que corro devagar, devagarinho, acabo por não usufruir propriamente da companhia do grupo, pelo que isso não é vantagem para mim. Mas o abastecimento faz toda a diferença. Passo a explicar: o treino começa na expo e, aproximadamente, sete quilómetros depois, quase em Santa Apolónia, existe um ponto de abastecimento com água, isotónico e géis (abençoada Prozis, que patrocina isto!). Desta vez, usufruí do abastecimento duas vezes, porque ainda fui até ao Cais do Sodré, e ainda apanhei o abastecimento no regresso. Claro que uma pessoa pode levar uma garrafa de água na mão ou a mochila, e levar géis consigo. Mas parar ali, respirar um pouco, trocar umas palavras e ouvir uns incentivos, para mim, faz toda a diferença. E ainda pode ser que nos tirem umas fotos! 


Tanto é, que não sei como é que vou sobreviver para a semana, porque não vão fazer este treino!... (até sei... Vou matar saudades do meu Passeio Marítimo!) 

Posto isto, alguém se quer juntar a estes treinos daqui em diante? Tirando esta semana, são sempre ao Sábado. Não têm pacers, não há ritmos, é cada um por si, mas funcionam muito bem e ainda sorteiam dorsais para a Maratona de Aveiro no final (e para a meia e para os 10km). Não ganho nada com isto, juro. Mas quando gosto de uma coisa, gosto de a partilhar com o mundo (salvo seja!).

terça-feira, 12 de março de 2019

Das pequenas alegrias do meu dia...

Comecei o meu dia numa consulta com a médica de família. Diz-me ela:

- Você não bebe mesmo álcool nenhum, pois não? Tem os valores todos do fígado tão baixos!...

Ainda ponderei explicar-lhe que de cada vez que chego ao fim-de-semana e penso em beber uns copos, me lembro que no dia seguinte tenho treino ou prova, e que desisto da ideia. Mas guardei essa constatação trágica e deprimente só para mim.

Portanto, tenho de beber mais álcool. Acho que isto explica muita coisa sobre o estado actual da minha vida. 

sábado, 2 de março de 2019

Das fotografias que dão alegria... - Day 61



Dia de sol. Rumámos à Marginal para um brunch maravilhoso em excelente companhia. A felicidade nas pequenas coisas. O saber que não precisamos de muitas pessoas à nossa volta, para termos as certas. 



terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Columbus Trail Half Marathon... - II

Já muito disse sobre o Columbus Trail, mas fica sempre muito mais por dizer.

Encontrei, nas palavras (e imagens) dos outros, outras visões sobre esta prova que foi tão especial para mim:


- Vídeo oficial com os melhores momentos da prova:


O facto de eu aparecer em ambos os relatos que aqui partilho, é pura coincidência, sim? Que eu sou pessoa muito isenta nestas coisas! E a minha voz super irritante é para ser ignorada, sim?

Não me canso de dizer que foi mesmo uma prova única.

Tanta publicidade lhe tenho feito, que já tenho na minha equipa das corridas um grupo simpático a dizer que lá quer ir para o ano! Eu já me ofereci para organizar tudo e sei que seria um prazer tremendo levar aquela gente à minha ilha e àquela prova!

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Do Columbus Trail Half Marathon...

Há precisamente uma semana atrás, estava a dar início à minha participação no Columbus Trail, na prova Half Marathon, com uma distância prevista de 23km.

As expectativas eram muitas. Os receios também. Era a prova que marcava o regresso à minha ilha. Era a prova que marcava a minha estreia em distâncias menos curtas.

Nunca me senti tão nervosa como para esta prova. Ao ponto de me sentir fisicamente mal, a tremer por todos os lados, a achar que me ia dar uma coisinha má e que o melhor era voltar para a cama. Ter estado sozinha nas horas que antecederam a prova, não ajudou.

Mas voltemos ao início. 

Fomos levantar os dorsais na sexta-feira à tarde. Na primeira tentativa, disseram-nos que tínhamos de levar o material obrigatório para verificação. Na segunda tentativa, lá conseguimos levantar os dorsais.

Ao fim da tarde, fomos assistir ao briefing. Nunca tinha assistido a um briefing de uma prova... Mas o do Columbus Trail foi meio surreal. Aliás, houve muita coisa surreal em toda a preparação para esta prova, porque as informações contraditórias foram uma constante ao longo dos últimos meses. Fui para a prova sem saber a distância ou a altimetria da mesma. Mas isso não interessa nada, não é verdade?

Voltando ao briefing, ainda deu para rir, quando a organização disse que tinham andado a marcar o terreno e a rever as marcações, mas como em alguns sítios usaram marcações mais ecológicas e biodegradáveis, as vacas gostavam de as comer... Dramas de trails nos Açores!

À noite, já no alojamento, preparei o material todo, sem me preocupar muito, porque ia ter muito tempo no dia seguinte. Para variar, ainda não sabia ao certo o que vestir, porque decidi que queria usar os mesmos calções que tinha usado no treino de reconhecimento de quinta-feira, e que tinha lavado à mão, mas que, obviamente, ainda não estavam secos. Tinha levado três pares de calções, mas embirrei que queria aqueles. Dramas de menina-princesa com a mania que corre!


O Sábado chegou e eu estava com medo de acordar com a partida do Columbus Grand Trail, que era a 50 metros da nossa janela e às 6 da manhã. Mas não só não acordei com isso, como não acordei com o louco mais louco do que eu a levantar-se e a sair para tomar o pequeno-almoço. Como é que se deu este pequeno milagre? Graças a uns abençoados tampões de ouvidos, que eu nunca tinha usado, mas que já foram promovidos a meus melhores amigos. Ele voltou do pequeno-almoço, acabou de se arranjar, e saiu para apanhar o autocarro de transfer para a partida da prova dele, o Columbus Trail Marathon, que partia às 7h30. 

Eu fiquei a dar mais umas voltas na cama, e acabei por me levantar, mas o meu autocarro só partia às 10h, sendo que a minha prova só começava às 11h. Tarde, demasiado tarde. O que é que uma pessoa faz durante aquele tempo todo à espera da prova?... Eu gosto daquele nervoso de acordar e de comer e de me vestir e de me despachar e de ir para a prova e de ir correr... Compassos de espera não são para mim. Deve ter sido pelo excesso de tempo que me deu para me sentir mal... Só pode.

Já ia a caminho do autocarro quando me lembrei que me tinha esquecido de pôr o creme anti-fricção nas pernas. Os quilos a mais fazem-se sentir nestes pequenos presuntos que roçam um no outro (que imagem bonita, hein?!), e se eu não pusesse creme, com os quilómetros que ia fazer e com o calor que ameaçava fazer-se sentir, a coisa ia correr mal. Toca a voltar para trás.

Lá chegou a hora, lá apanhei o autocarro, lá me acalmei, lá cheguei ao início da prova.

Fazer tempo, apanhar frio, comer uma banana e uns frutos secos. E o drama que foi arranjar uma banana que não estivesse completamente verde naquela ilha? Em dois supermercados, não havia uma que se aproveitasse. A que comi foi ele que conseguiu arranjar no pequeno-almoço e guardou para mim. E ainda bem. Que quando lá cheguei, só restavam as verdes.


A prova Columbus Trail Half Marathon começava na zona norte da ilha, junto à Ermida de Nossa Senhora de Fátima, coisa que fica lá no cimo de uma encosta, no topo de 150 degraus. Escusado será dizer que a única casa de banho disponível, ficava no cima desses degraus. Menos mal, ficou o aquecimento feito e ainda tirei mais umas fotos.


A prova começou e eu, que estava nos últimos dos últimos, deixei-me ir devagar, devagarinho. Passado pouco tempo começámos a descer e eu lá passei 3 ou 4 pessoas. E passado pouco tempo estávamos a subir, claro.


Passámos por sítios incríveis, começámos a atravessar pequenos cursos de água, andámos no meio de arvoredo mais ou menos denso, e fomos fazendo aquela que seria a pior subida da prova. Se é para ser, que seja logo ao início, que uma pessoa sempre fica despachada. Seguiu-se o Barreiro da Faneca, uma espécie de deserto vermelho e plano e muito singular, e voltámos às encostas junto ao mar.



Fui tirando fotografias. Muitas fotografias. Demasiadas fotografias. Ia distraída, desconcentrada, em modo passeio. Resultado? Caí aos 4km. Nada de especial. Ainda tenho um buraco na mão e dois ou três nas pernas. Mas rapidamente me levantei, sacudi a poeira, e continuei a minha cruzada, tentando disfarçar a perda temporária de estilo. Também foi aqui que percebi que era melhor reduzir o número de fotografias, concentrar-me no que estava a fazer e começar, efectivamente, a correr.



As vistas continuaram incríveis e a descida para os Anjos foi por uma encosta extraordinária, muito muito verde, em que eu me senti uma verdadeira cabra do monte, aos saltinhos por ali abaixo. Não tenho memória de alguma vez ter descido alguma coisa tão inclinada e tão verde, sem trilhos definidos, que só davam mesmo vontade de uma pessoa se enrolar toda e deixar-se ir a rebolar por ali abaixo. Mais uma vez, o trail a despertar sensações incríveis de liberdade, misturadas com muita adrenalina e uma felicidade que é um misto de serenidade e de entusiasmo.



Em cima, a descida vista de cima. Em baixo, a descida vista de baixo. Em ambas assinalei outros atletas que aí vinham, para tentar dar a ideia da dimensão da coisa.




Estas descidas sempre a olhar para o mar, não têm preço. Adoro andar no meio da montanha, mas sou mesmo filha do mar...



Quando cheguei aos Anjos encontrei o primeiro abastecimento. Além de gente muito simpática, os abastecimentos tinham de tudo um pouco: um bolo de cenoura maravilhoso, bananas e laranjas, amendoins, tomates e sal, marmelada, bolachas, chocolate, água, isotónico... Aquela gente trata-se bem e tratou-nos muito bem, também!


Ao sair dos Anjos seguimos durante algum tempo muito perto do mar, com mais paisagens incríveis.


E eu nunca vi uma prova com tantos fotógrafos!... A sério. Estavam nos sítios mais inusitados, a tirar as fotografias mais incríveis. Ainda não consegui descobrir todas, mas já tenho algumas bem giras!


Lá seguimos nós, sempre junto ao mar, com umas subiditas simpáticas, e com esta sensação simpática, mas assustadora ao mesmo tempo, de podermos ver lá ao longe os outros atletas, e o caminho que teríamos de fazer.




Depois de uma subida, uma pessoa sempre aproveita as fotografias para recuperar o fôlego, não é verdade?... Mais uma vez, as vistas, sempre incríveis.


Como seria de esperar, eu comecei a desesperar a partir de certa altura. Estava cansada, com muitas e variadas dores, estava imenso calor, e quando cheguei aos 10km, achei que devia desistir. Pensei mesmo nisso. Achei que tudo aquilo era um disparate e que eu jamais faria os 23km. Se aos 10km eu já estava de rastos, como é que ainda ia fazer mais do dobro?... No meio de tanto drama e dúvida, lá ia fazendo mais um bocadinho, e mais um bocadinho, e mais um bocadinho. Aos 12km fiz a última grande subida da prova e dizia para mim mesma que metade já estava. Sabia que a partir dali seria relativamente plano, mas também sabia que seria a parte mais chata, junto à vedação da pista do aeroporto. Foi uma parte desesperante, em que morri de tédio, em que achei que não ia aguentar o calor, em que tive mesmo de parar para alargar os atacadores porque estava com os pés dormentes de estarem inchados. Foi nesta altura que me agarrei à salvação possível: o gel da Gu.

Foi no final da pista, quase aos 17km, que estava o meu segundo abastecimento. Enchi o soft flask, comi umas laranjas e umas batatas fritas, e segui viagem. Não sei como, nem porquê, mas fui arranjar forças lá no fundo do meu ser, e larguei a correr feita louca. Dentro do meu ritmo, claro, mas num contraste gigante com o que tinha feito nos últimos quilómetros.



Na fotografia não se vê muito bem, mas aqui estávamos no cimo de uma falésia e tínhamos um caminho de terra e umas escadas de cimento (que me custaram horrores a descer), e que nos levavam mesmo até à beira-mar, por uma espécie de praia que tivemos de atravessar.



Quando falamos em praia nos Açores, o habitual é falar em praias de pedras ou de areia muito escura. Era o caso desta. Andei aos saltinhos por cima de pedras e mais pedras, a tentar não me magoar numa altura em que os movimentos já saem meio trôpegos e as forças já não permitem levantar os joelhos tanto quanto devíamos. Molhei as mãos no mar. O meu mar. Molhei os braços, a cabeça, o pescoço. Respirei fundo e guardei em mim aquele cheiro. Ganhei forças para a subida que se seguia.


Ao cima da subida, vacas. Muitas vacas. Vacas que estavam soltas e que a qualquer momento podiam vir confraternizar com quem andava a correr. Não vieram. Comigo, pelo menos.


Vila do Porto, lá ao longe, mas já tão perto. Foi bom ver esta imagem. Deu-me aquela sensação reconfortante de saber que já não faltava muito.

Estava com 20km. A prova teria 23 ou 24km, as informações eram contraditórias e eu não sabia ao certo. Aproximo-me da vila, já depois de ter despachado as subidas todas, e vejo um grupo muito animado com um cartaz a dizer que só faltava um quilómetro. Pergunto-lhes se é verdade, se só falta mesmo um, porque ainda estava com 21km. Dizem-me que sim. Dão-me a melhor notícia do dia e lá vou eu feliz e contente. Atravesso sem pestanejar um último riacho cheio de lama, em que em cada passo o meu pé se afunda e fico com lama até ao tornozelo e me pergunto se não vou ficar ali atolada. Não quero saber. Está quase a acabar. Entro na avenida principal da vila. Acelero. Entro no acesso à meta. No meio da multidão incansável a apoiar os atletas, reconheço o rosto de quem me deu colo nos primeiros anos de vida. Faltam poucos metros. Corto a meta a sentir-me estupidamente feliz. Foram três horas e trinta e quatro minutos de prova. A mim, pareceu-me toda uma vida.


Foi uma prova muito especial, pelas razões óbvias e por muitas outras. Foi mágico correr na ilha que me viu nascer. Sim, só lá vivi três anos, mas sinto-me um bocadinho filha daquela terra, daquele mar, e foi muito bom poder lá voltar para fazer algo que me dá tanto prazer.

Nunca tinha feito 23km em trail e não estou na melhor fase da minha vida em termos de treinos, pelo que sabia que ia ser uma prova dura, sabia que me ia custar. Não sabia que me ia custar tanto e que seria um desespero tão grande. Mas valeu a pena. Quando cortamos a meta, tudo vale a pena.

No final, aquela sensação agridoce da frustração de saber que podia (e devia!) ter feito melhor, porque tenho consciência que fui demasiado lontra em algumas partes, mas a sensação de que consegui, cheguei ao fim, e quero muito lá voltar, porque foi dos sítios mais bonitos onde já corri.

Adorei a prova, adorei os abastecimentos (no final tínhamos imensa comida à nossa espera, incluindo sopa!), adorei todo o apoio ao longo do percurso. Nunca tinha visto nada assim, mas ao longo do percurso passámos por imensos pontos de controlo. Nada de muito elaborado: uma ou duas pessoas, que nos tiravam fotografias e que tomavam nota do nosso dorsal, perguntando-nos se estava tudo bem e se precisávamos de alguma coisa. Não imagino o que tenha sido com o que ali aconteceu o ano passado, e, por isso, percebo esta preocupação reforçada com a segurança e o bem-estar de todos os atletas. Da minha parte, só posso dizer que foi muito reconfortante saber que havia sempre alguém relativamente perto, caso acontecesse alguma coisa.

O relato já vai longo, mas ainda ficou muito por dizer. O Columbus Trail foi uma prova de muitas emoções, de muitos altos e baixos (literais e figurativos), de muitas memórias que ficam. Fica também a promessa de, se algum dia me quiser aventurar numa distância maior, ir lá fazer a minha estreia. Gosto do conceito de uma prova em que se dá uma volta inteira à ilha, na prova dos 75km. Se é para correr, que seja com um propósito. E dar uma volta a uma ilha, parece-me um bom propósito!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Das fotografias que dão alegria... - Day 35


Podia pôr aqui uma fotografia do meu dia, do regresso ao trabalho, ao trânsito, ao caos. Mas esta é tão melhor!...

(eu hei-de ter tempo para vir cá escrever sobre o Columbus e sobre toda a viagem... Um dia...) 

domingo, 27 de janeiro de 2019

Dos Trilhos de Lousa...

Foi há uma semana que fiz os Trilhos de Lousa, no meu regresso às provas de trail, depois de mais tempo do que seria razoável ou do que eu gostaria...

A escolha desta prova foi uma escolha muito prática: era perto de casa, tinha uma distância curta simpática (12km), a prova não era cara (e o valor podia ser usado em compras da Prozis) e não chocava muito com o plano de treinos.

A organização não foi brilhante, lamentavelmente. A começar pelo levantamento dos dorsais, seguindo-se a hora de início da prova, passando pelos abastecimentos, e acabando na escassez do abastecimento final... Mas valeu a pena!

Chegámos em cima da hora (é o que dá ser tão perto de casa), levantámos os dorsais e eis que me deparo com isto...


É verdade... Tive de fazer o trail com um dorsal a dizer... Lontra! Para a próxima, trato eu das inscrições, está visto.

O início do trail longo foi às 10h, mas o trail curto, que no regulamento estava marcado também para as 10h, tinha sido adiado para as 10h30. Perante algumas reclamações, acabaram por começar às 10h20. Por um lado, foi bom, mas por outro houve alguma falta de informação oficial e coordenação, para que as pessoas se pudessem organizar... 


Lá começou a prova, sempre a subir, e lá fui eu. As pernas não respondiam, não queriam correr, já não se lembravam bem do que aquilo era e recusavam-se a fazer os movimentos que eu queria que elas fizessem... Mas lá fui.

Acabei por ficar mais para trás, no grupo dos mais lentos, o que se veio a revelar um pequeno problema...


Comecei a apanhar trânsito. Muito trânsito. Trânsito compacto e parado... 


Eu não sou pessoa de correr propriamente depressa (não sei se já tinham reparado), mas até eu comecei a desesperar com a lentidão a que estávamos a progredir. Ou a não progredir, dado o tempo que estávamos parados. 

As subidas não eram fáceis, eu sei. Para mini-pessoas como eu, menos ainda. E as descidas também tinham algumas dificuldades, eu sei. Mas estava a desesperar e em conversa com outros atletas fiquei a saber que o ano passado, nesta subida (fotos acima e abaixo), demoraram quase uma hora. Este ano não sei ao certo, mas talvez meia hora, pelo que até nem foi assim tão mau... Mas foi um exagero, até para mim!...


Quando vimos a meteorologia para esta prova, não estava prevista chuva. E eu estava muito contente com esse facto, porque me apetecia tudo menos chuva e lama, no meu regresso ao trail. Ainda assim, enfiei na mochila um corta-vento, just in case, porque queria ir de manga curta, e podia ter frio ou sentir falta de mais qualquer coisa. Pois que depois da subida infinita começámos a descer, o céu ficou mais escuro, e começaram a cair as primeiras pingas. E depois os primeiros pingos gordos, e depois mais e mais chuva. Estávamos ao quilómetro 5, mais ou menos, e com mais de uma hora de prova, quando eu pensei desistir. A prova estava a ser mais dura do que eu esperava e a chuva não estava a ajudar. Nesta fase, passei junto a um carro da organização, em que estava outra atleta a desistir e a dizer que não estava preparada para algo assim. Eu também não. Eu também não. Só pensava que se aquilo estava a ser assim até ali, com a chuva a sério que tinha começado entretanto, só ia piorar. Hesitei. Mas limitei-me a pousar a mochila no chão, vestir o corta-vento e seguir viagem. Esperavam-me umas descidas simpáticas, já bem enlameadas e perfeitas para cair. 

Enquanto descia só pensava no disparate que tinha sido levar aquele corta-vento. Aquele corta-vento tinha sido comprado no longínquo ano de 2016, para a famigerada Meia dos Descobrimentos, que quem fez nunca esquecerá, tal foi o dilúvio durante a prova. Eu, que corria há relativamente pouco tempo (foi a minha 2ª ou 3ª meia, já nem sei), fui em cima da hora à Decathlon comprar o corta-vento/impermeável mais barato que eles lá tinham, numa fase em que me recusava a gastar muito dinheiro em material de corrida, porque achava que era uma moda que a qualquer momento me ia passar (ainda hoje acho, na verdade, que isto de eu correr e gostar ainda é coisa que está por explicar...). E foi um disparate levá-lo porque ele é, de facto, muito fraquinho, e eu tinha recebido na véspera o novo que encomendei e que é bem melhor, mas que achei sensato não levar para estrear em prova. E não ia chover, lembram-se?... Pois que choveu, e muito. E eu tinha frio e estava desconfortável e só rogava pragas a mim mesma, pelas minhas decisões pouco inteligentes.

Ao mesmo tempo, perguntava-me por que raio é que eu sou capaz de gastar umas dezenas de euros num impermeável para correr, e não sou capaz de fazer o mesmo para comprar um sobretudo para usar todos os dias... Isto da corrida afecta-nos o cérebro, não é verdade? É que eu olho para o meu calçado e para os meus ténis e passa-se o mesmo. Alguém me explica?...

Bom, talvez seja hora de voltarmos ao trail... 

Lá vesti o corta-vento pouco impermeável, consegui não cair na lama, consegui ter os pés só mais ou menos ensopados, e lá fui eu.


Aqui já com sol, em modo Teletubby cor-de-rosa pela serra fora. Curiosamente, ia a sentir-me relativamente bem. O princípio da prova foi mesmo o mais duro, mas depois a coisa melhorou.


Encontrei esta foto por acaso, de uma participante que ia atrás de mim e a partilhou no evento da prova no Facebook. Tivemos de atravessar este mini-riacho e consegui não molhar os pés. Kudos para mim!

Do outro lado estava o abastecimento. E temos de falar sobre o abastecimento.

O abastecimento estava previsto, em regulamento, aos 8km. Eu sei que estas coisas são flexíveis. Sobretudo, em trail. Eu sei. A sério que sei. Mas fazê-lo só aos 9,3km? Ninguém merece!... Numa prova de 12km, pôr o único abastecimento aos 9,3km, é pouco equilibrado, parece-me... Mas... Isso nem foi o pior. E também não me chocou o facto de o abastecimento só ter água e isotónico. Nunca tinha visto nada assim, confesso, que a malta do trail gosta de comer. Mas tudo bem. Já tinham dito que seria só de líquidos, era só de líquidos. O que me chocou, mesmo mesmo, e que vai dar direito a um email para a organização, foi estarem a servir a água aos participantes em garrafas de um litro e meio de água. Talvez seja mania minha, talvez seja ilusão minha, mas na minha cabeça eu gosto de acreditar que a malta do trail tem uma maior consciência ecológica. Não sei. Talvez por andarmos no meio dos trilhos, no meio da natureza, no meio de serras, talvez por estarmos mais próximo da natureza, eu gosto de acreditar que também tomamos mais conta dela. Mas parece que não. Parece que alguém achou razoável gastar dezenas de garrafas de água para dar abastecimento a quem estava a correr. Também nunca tinha visto nada assim. E não gostei.


A prova seguiu-se, com um percurso interessante, com alguma dificuldade, com muito sobe e desce, com muita lama, com paisagens incríveis. Conseguiram fazer uma prova gira, aqui tão perto de Lisboa, e isso é de louvar!

Aqui já ia mais isolada, consegui soltar-me mais nas descidas, fazer as subidas num ritmo menos lento, e aproveitar os singletracks mais apertados como eu gosto (sozinha, só eu no meio da floresta de verde a envolver-me).


A prova acabou por ter quase 13,5km e o último quilómetro era sempre a descer, e aí aproveitei para me soltar e para me lembrar por que razão gosto tanto de trail. Cortei a meta com medo de ouvir chamarem-me Lontra (mas, vá lá, estavam a ver os nomes no computador e disseram o meu nome verdadeiro...), cheia de lama e com as pernas a escorrerem sangue, mas a sentir-me bem. Mesmo bem.

Fico sempre espantada com o mar de emoções que atravesso durante uma prova, sobretudo, de trail. Tenho momentos de desespero, momentos em que acho que não vou aguentar mais as dores (entre os gémeos a doer a subir, e as coxas a doer a descer, venha o diabo e escolha...), momentos em que me pergunto o que estou ali a fazer, momentos em que sinto uma sensação de liberdade incrível, momentos em que paro para contemplar as vistas à minha volta, momentos em que me sinto imparável. Felizmente, regra geral, a sensação no fim é sempre a mesma: sinto-me feliz e orgulhosa por mais um desafio superado.

Sei que para a semana vou sofrer, sei que ir fazer o que vou fazer é assim a modos que um meio disparate, sei que me vai custar, mas espero cortar aquela meta com a mesma sensação que senti a semana passada e que senti hoje depois do meu primeiro treino de 12km em estrada depois de muitos, muitos meses. Se conseguir chegar ao fim assim e sem me magoar, está o objectivo cumprido!

Perdoai o testamento, mas a pessoa agora escreve tão pouco, que quando escreve tem necessidade de escoar o stock de palavras acumuladas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Do peso da felicidade...

A felicidade tem um peso. E não é um peso metafórico, como quem diz que a felicidade nos sobrecarrega os ombros ou que nos alivia a alma, consoante nos abandona ou nos agracia.

A felicidade pesa exactamente quatro quilos. Quatro quilos inteiros. Quatro quilos que se acumulam nas ancas, nas coxas, nas bochechas e até nos pulsos. São quatro quilos que fazem as roupas parecerem mais estreitas e as pernas mais pesadas. São quatro quilos que nos sugam o ar dos pulmões quando tentamos correr. São quatro quilos que não nos permitem sorrir quando nos vemos ao espelho.

Como é que eu, que nunca sei nada sobre nada, sei agora que a felicidade pesa quatro quilos quando se cria que a felicidade era algo intangível, impalpável, sem peso nem forma?

Foi uma constatação óbvia, na verdade.

Esta semana ele enviou-me uma mensagem com a primeira fotografia que tirámos juntos. A mesma que está numa moldura na nossa sala. A mesma que tirámos a medo, no meio de algum constrangimento, quando um fotógrafo nos desafiou a isso, depois da nossa primeira São Silvestre de Lisboa juntos. 

É das minhas fotografias preferidas. É a minha nossa fotografia preferida. Gosto do nosso ar, dos nossos sorrisos, da sensação de dever cumprido típica de quem acabou uma prova, da nossa inocência e ingenuidade típica de quem está a começar uma nova relação. Foi a nossa primeira fotografia e foi logo para as bocas do mundo, para esse poço sem fundo que é a internet, para que o mundo inteiro a pudesse ver. E foi o início da nossa história tão nossa, como que num prenúncio do que estava para vir. E o que veio depois disso foram mais sorrisos, mais provas, mais desafios superados.

E mais quatro quilos. Os quatro quilos que separam a nossa primeira foto e o peso que cada um de nós tem hoje.

É o peso da felicidade, não tenho dúvidas.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Do meu regresso aos Trilhos...


Foi Sábado, como já disse, que voltei aos trilhos, em Monsanto. Não fazia trail desde a Estrela. Em Maio, portanto. Fui participar num treino de grupo, dinamizado, entre outros, pelas Tartarugas Solidárias. A ideia inicial era irmos só os dois, mas depois vimos este treino no Facebook e decidimos que seria melhor ir em grupo, e cada um poder ir para o grupo mais adequado.

Claro que tomei a decisão super inteligente de ir para o grupo Intermédio e não para o Iniciado... Resultado? Pela primeira vez, tive a oportunidade de ir na companhia do "vassoura" do grupo. O que não é mau, diga-se... Mas fica sempre aquela sensação terrível de saber que o resto do grupo fica à nossa espera, e que alguém tem de ir ali de "castigo" connosco. Alguém tem de ser o último, não é verdade? No Sábado, na maior parte do tempo, calhou-me a mim!



Mas foi tão bom! E soube tão bem voltar a correr ali... É tão desafiante, tão surpreendente, tão desesperante em alguns momentos... Custou-me, custou-me muito. Houve alturas em que me passou pela cabeça voltar para trás sozinha... Mas não o fiz. E superei-me. E isso não tem preço!

Além de tudo isto, ainda houve outra coisa que tornou este treino especial. Estava eu muito bem a pensar no que raio ali fazia, quando me perguntam se eu tinha um blogue. Oi? Fiquei muito surpreendida, confesso! Mas acabou por ser muito engraçado ser reconhecida e conhecer alguém que costuma estar aí desse lado. Olá, Marisa! Eu não sou a pessoa mais simpática ou extrovertida do Mundo, pelo que estas coisas me deixam sempre meio envergonhada e sem resposta, mas acho sempre piada a conhecer pessoalmente quem me lê. Este blogue já me trouxe tanta gente boa! E isso também não tem preço!

Uma boa semana, Mundo! Com muitos treinos, se assim o quiserem!

sábado, 5 de janeiro de 2019

Das fotografias que dão alegria... - Day 5


A foto não é minha. Mas não faz mal. Estamos os dois com o ar miserável de quem saiu da cama demasiado cedo. Mas não faz mal. Hoje voltámos a Monsanto. Não é de propósito, mas parece que esta se tornou a nossa tradição anual. Ir a Monsanto no início do ano. Desde a primeira vez que me levaste a correr nos Trilhos. Desde que me mostraste o que é correr no meio da Natureza, só nós e o verde.

Há um ano escrevi que queria lá voltar contigo. E voltámos. E havemos de voltar. Ano após ano. 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Da São Silvestre de Lisboa e da São Silvestre dos Olivais...

Duas provas completamente diferentes, duas provas especiais e imperdíveis para mim. O ano passado também fiz as duas, mas calhou que o ano passado fosse primeiro a dos Olivais e depois a de Lisboa, ao contrário do que aconteceu este ano. Acho que prefiro como foi este ano, com a de Lisboa primeiro, e a dos Olivais, mais exigente, depois. 

A São Silvestre de Lisboa fez jus ao mote da HMS Sports "correr para ser feliz". Porque fui feliz. Mesmo quando não fui. Mesmo quando roguei pragas ao empedrado da Ribeira das Naus (nunca me hei-de habituar àquilo e nunca hei-de fazer a Maratona de Lisboa que ninguém merece levar com aquilo na recta final de uma Maratona). Mesmo quando tive de ir buscar forças ao fundo do meu ser para não vacilar e parar de correr ao longo da interminável Avenida da Liberdade. Mesmo quando gente tonta decidia atravessar a estrada de qualquer maneira, obrigando-me a extraordinários passos de dança para não chocar com ninguém. Mesmo quando tive dores nas coxas. Eu fui feliz.


E também fui feliz graças ao tão mal afamado turismo que invade Lisboa. É que se não fossem os espanhóis a gritar "Venga! Ânimo!", pouco mais se ouvia nas ruas da baixa e afins... É triste, mas dos portugueses o que mais ouvi foi queixas por quererem atravessar as estradas e não poderem. Ainda estamos a anos-luz do que se passa no nosso país vizinho, no que a este aspecto diz respeito... 


E fui feliz mesmo tendo feito o meu segundo pior tempo nesta prova. Mas fui feliz porque fiz menos 5 minutos do que nos 10km dos Descobrimentos, há menos de um mês atrás. Ter conseguido tirar 5 minutos ao meu tempo deu-me a esperança de que eu precisava, deu-me ânimo, deu-me motivação para continuar a treinar, porque os resultados hão-de aparecer. Basta saber esperar.

Foi a minha quarta São Silvestre de Lisboa. Esta foi a primeira prova a sério que eu fiz. E não deixa de ser um sentimento curioso, este de estar a fazer pela quarta vez a minha prova. Eu, pessoa que nos últimos 15 anos fez pouco ou nenhum desporto, agora até já participo em provas em 4 edições seguidas!... Talvez haja esperança para o Mundo, afinal!...

E como não podia deixar de ser, fui à São Silvestre dos Olivais. É uma prova com a qual simpatizo bastante, é uma prova pequena, de bairro, com muito apoio nas ruas, e que tem aquela vantagem de me permitir ir a pé de casa. Como não ir, certo?!

Claro que fui, sabendo que não podia pensar em grandes objectivos. Não tenho treinado grande coisa, continuo numa recuperação lenta, tenho andado com dores chatas e um desconforto incomodativo, e a prova não é exactamente fácil. Mas fui, disposta a fazer o que fosse capaz. 

E fui capaz de fazer apenas mais 1 minuto e 12 segundos do que na véspera! E isto, para mim, foi extraordinário. Sobretudo, porque não fui capaz de fazer a prova toda a correr. 


Fiz os primeiros 5km sem parar, mas depois começou a fase das subidas demoníacas e eu tive de começar a alternar corrida e caminhada. Sem culpas, sem frustrações. A ouvir o meu corpo e a saber que o que importava era chegar ao fim. E cheguei. E ainda acelerei no último quilómetro com as forças que me restavam.


E fui feliz outra vez. Porque "correr para ser feliz" faz mesmo todo o sentido.

Em 2019, corram para serem felizes! 

Os devaneios Agridoces mais lidos nos últimos tempos...