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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

De Chamonix VI... - Tramway du Mont-Blanc, Brévent e a partida do UTMB...

Sexta-feira era o nosso último dia útil em Chamonix, dado que no Sábado tínhamos de ir para Géneve pela hora de almoço.

Sexta-feira era também o dia do pós-prova dele, pelo que queríamos um dia relativamente calmo, só mesmo para acabar de aproveitar o que ainda não tínhamos visitado.

Começámos o dia a tomar um pequeno-almoço numa padaria perto da casa da Heidi, por onde costumávamos passar e víamos sempre cheia. Rapidamente percebemos o motivo.


De barriga (bem) cheia, fomos até Saint Gervais (nos 850 metros de altitude), onde íamos apanhar o Tramway du Mont-Blanc, para fazer o seu trajecto na quase totalidade, já que na terça-feira tínhamos feito apenas uma muito pequena parte entre o Col de Voza e Bellevue. Agora, iríamos até ao Nid d'Aigle, nos 2380 metros.


O percurso demora cerca de uma hora, é sempre a subir, e tem partes verdadeiramente inclinadas e assustadoras

Mas é incrivelmente bonito! Vamos por ali acima, vamos vendo o vale cada vez mais pequeno lá em baixo, e à nossa volta as paisagens são incríveis!






Lá de cima saem, como sempre, muitos e variados trilhos, que devem ser incríveis, mas que terão de ficar para uma próxima oportunidade... Há um trilho que desce junto ao Glacier de Bionnassay (aquele que vêem atrás de mim na foto acima), que deve ser verdadeiramente espectacular! Ficou na lista, para ser feito um dia... 

Depois de uma volta para ver as vistas, voltámos a apanhar o tram para descer tudo outra vez.


Fomos em direcção a Chamonix, onde fomos almoçar a um sítio absolutamente decadente: o Cool Cats, um sítio muito trendy, de cachorros quentes artesanais, com mil opções, cada uma mais gordurosa do que a anterior...



Eu optei por um com salsicha vegetariana e... Ovo estrelado! Nunca tinha visto, muito menos comido, um cachorro quente com ovo estrelado. Mas, afinal, é possível!

Depois disto, restava-nos o último passeio: queríamos subir o teleférico até Planpraz (nos 2000 metros), e aí apanhar outro que nos levaria até Brévent (nos 2525 metros). Esta subida era do lado do Grand Balcon Sud, do mesmo lado onde tínhamos andado Domingo, e de onde teríamos vista para o Mont-Blanc e o Aiguille du Midi. Teríamos... Se o tempo o permitisse.




A subida até Planpraz foi tolerável, mas meio assustadora... O facto de o tempo não estar grande coisa, não ajudava, mas vimos muitos loucos a subir pelos trilhos a pé, mesmo por debaixo do teleférico, numa subida terrivelmente inclinada.



Subimos até Brévent, de onde a vista para o vale era incrível, e começámos a ver o tempo a piorar cada vez mais. O Mont-Blanc estava tapado, e tínhamos a clara sensação de estar no meio das nuvens, que parecia que estavam mesmo ali ao nosso lado...


Alguém andou todo o dia a passear o seu boné de finisher do OCC...




Não cheguei a perceber bem porquê, mas em Brévent senti-me verdadeiramente desconfortável. Estávamos numa altitude bastante elevada, com grandes escarpas à nossa volta, eu não me sentia segura, o tempo estava cada vez pior, e à minha volta só via dezenas de corvos. A sério. Eu só me lembrava do filme do Hitchcock. Estava mesmo a sentir-me mal e acabámos por não ficar lá muito tempo.




Nas duas imagens anteriores, uma fotografia de um mapa que lá estava e a fotografia real do que se via dali, dá para perceber bem o caminho que tínhamos feito na segunda-feira, do Plan de l'Aiguille até Montenvers e ao Mer de Glace, no Grand Balcon Nord.


Foi giro ver o outro lado do vale, que foi, mas eu só queria mesmo sair dali. Apanhámos o teleférico até Planpraz, e depois o outro teleférico até lá abaixo, e durante esse percurso começou a chover imenso e começaram também trovões... Mal saímos do teleférico, abrigámo-nos debaixo de um telheiro, porque estava a chover mesmo muito. Poucos minutos depois, pararam o teleférico. Pararam-no, simplesmente. Com pessoas lá dentro! Eu só imaginava o que seria se tivéssemos apanhado o teleférico uns minutos mais tarde e o tivessem parado connosco lá dentro, no meio de chuva e trovões... A sério. Eu não nasci para estas coisas!...

Eventualmente, a chuva acalmou, e fomos em direcção a Chamonix, porque queríamos assistir à partida do UTMB.



Que mar de gente! Que emoção! Que loucura! Tanta gente, de tantos países, com tantos objectivos e sonhos diferentes... Em Chamonix só se respirava UTMB. Em toda a parte atletas, apoiantes, habitantes e visitantes, toda a gente focada no início da prova. Quisemos encontrar um sítio para assistirmos ao início da prova, e nem isso foi fácil. As ruas estavam completamente cheias de gente! Eram corredores infinitos de pessoas a bater palmas e a gritar palavras de incentivo. Nunca tinha visto nada assim!


Foi muito bom assistir a esta partida, bater palmas a todos aqueles heróis, e ficar ali a torcer por eles, para que pudessem chegar ao fim daqueles 171km.



Saímos de Chamonix de coração cheio, com um pequeno abastecimento de macarons, e voltámos à casa da Heidi.

Neste dia jantámos com a minha amiga porto-riquenha e a sua filha (que também foi finisher do OCC!), e acabámos por ficar horas na conversa, até sermos (literalmente) expulsos do restaurante. É incrível como a corrida nos aproxima de pessoas da outra ponta do mundo, e podemos estar horas a trocar experiências de provas, de vida, de viagens... Ficou o convite para virem a Portugal, quiçá, participar em alguma das nossas provas!

Fomos dormir, já bem tarde, e já com saudades de Chamonix...

sábado, 5 de outubro de 2019

De Chamonix V... - O dia do OCC...

E chegámos ao dia do OCC. Dia 29 de Agosto (dia curioso, já agora).

Acordámos cedo. Muito cedo. Mas podíamos ter acordado bem mais cedo se no dia em que chegámos a Argentière não tivéssemos visto isto:


Então o autocarro do OCC pára em Argentière às 5h45?! Então por que raio vamos nós apanhá-lo às 5h15 a Chamonix, tendo de sair de casa às 4h30?... Toca de enviar email para a organização, a dizer que não tínhamos percebido que havia essa possibilidade e que, por isso, tínhamos reservado lugar no autocarro que saía de Chamonix, pedindo (e implorando) que nos deixassem trocar. Claro que deixaram! E nós respirámos de alívio. E dormimos mais uma hora!

O autocarro que ia para Orsières (na Suíça, onde começava o OCC), parava mesmo em frente à nossa casa da Heidi. Mesmo. Não podia ser mais perfeito. Perto da hora lá fomos nós, e já estavam mais uns quantos loucos à espera do autocarro que nos ia levar a todos ao ponto de partida daquela pequena grande loucura.


A viagem, de quase uma hora, foi feita maioritariamente em silêncio, com algumas pessoas (em que talvez eu estivesse incluída) a tentar dormir um pouco. O dia ia ser longo, e a noite tinha sido curta. 

Chegámos a Orsières e já havia muita gente por toda a parte a fazer tempo para o início da prova. Uns a descansar na relva, outros nos últimos preparativos, mais alguns a fazer um reforço alimentar, e muitos na fila para a casa-de-banho, como é habitual antes de qualquer prova.


O ambiente era curioso. Não sei bem descrevê-lo mas era um misto de excitação, com nervosismo, com emoção. Aquela gente toda não se conhecia, mas ali era toda igual. Atletas e apoiantes, todos juntos, todos a partilhar aquele momento.



O início da prova era numa pequena praça, e lá nos conseguimos posicionar. Eu consegui ficar ao pé dele durante um bocado, mas acabei por me ir pôr junto à meta, para vê-lo partir. Última despedida. Últimas fotos. Uma emoção tremenda. Sabia que ele estava preparado e não duvidava que ele ia fazer uma grande prova. Mas sabia que ele não estava tão confiante como eu. Pudera. Ele é que ia correr!...



Às 8h15 foi dado o sinal de partida. Fiquei ali a ver aqueles 1605 atletas a começar a sua prova. A perseguir um sonho, um objectivo. Impossível ficar indiferente. 


O que os esperava!

Quando todos se foram embora, correndo em direcção às montanhas, e aquela pequena praça que minutos antes estava repleta de gente ficou vazia, também eu me senti estupidamente vazia. Ou cheia, não sei bem. Senti um aperto tremendo e só queria chorar. Estava na Suíça, sem dados no telemóvel, sem ter com quem falar. Ele tinha acabado de partir para a prova mais dura que algum dia fez e eu estava ali, a sentir-me perdida e desorientada, depois de uma descarga tremenda de adrenalina, sabendo que ainda ia passar muito tempo até ter notícias dele (sem dados na Suíça, tínhamos combinado que ele não me ia dizer nada nas primeiras horas e eu ia apenas seguir o acompanhamento ao vivo da prova...).

Andei ali meio perdida e fui em busca do autocarro que me ia levar ao primeiro ponto de passagem onde eu o poderia ver: Trient, ainda na Suíça, já nos 25km de prova. Aproveitei o Wi-Fi momentâneo e troquei algumas mensagens com quem, em Portugal, já estava a acompanhar a prova. Acabou-se o Wi-Fi e começou a viagem até Trient, que foi relativamente rápida.

Cheguei a Trient ainda não eram 9h30 e sabia que ele devia chegar por volta das 12h50, mas ia depender muito de como a prova corresse até aí. Na véspera ele tinha-me dado um Excel que tinha feito, onde tinha posto o tempo estimado de passagem em cada ponto, em função do ritmo que ele previa fazer, para eu me ir guiando e saber mais ou menos o que esperar. 



Ao chegar a Trient, mais uma vez, confirmei que a malta do UTMB não brinca. Havia uma tenda gigante montada para os apoiantes, com mesas e bancos corridos, com um bar com comida e bebida, com uma televisão que ia passando vídeos em directo e informação da prova, com tomadas e... Wi-Fi gratuito! Voltei a estar em contacto com o mundo e comecei a preparar-me para as horas de espera que tinha pela frente. 



Felizmente, fiz rapidamente uma amiga: uma porto-riquenha que vive na Califórnia, e que estava ali a acompanhar a filha. Acabou por ser bom ter companhia, fomos falando e trocando experiências, e o tempo foi passando. Não faltava animação por ali, incluindo um grupo de miúdos de uma escola, e respectiva professora, que tinham muitos e variados instrumentos e faziam toda uma festa!


Através do site do UTMB e da app da prova consegui ver que ele passou em Champex-Lac (o primeiro ponto de controlo) abaixo do tempo previsto, e em La Giète a mesma coisa, apesar de ter perdido algumas posições na subida. A primeira grande subida estava feita, e só faltavam mais duas. Acabou por me aparecer em Trient bem mais cedo do que era suposto, o que me levou a recear que estivesse a ir depressa demais, e que depois iria pagar essa factura...

[Ainda o tentei convencer a escrever ele o relato da prova, mas ele não quer, portanto o máximo que posso fazer é tentar descrever o que ele me foi transmitindo.]

Ele chegou a Trient animado, mas preocupado com o estômago que não estava a colaborar. Sentia-se com o estômago pesado e cheio, e a coisa não estava fácil... Claro que eu fiquei preocupada e a pensar no que viria aí... Mas, felizmente, ele fez uma nova melhor amiga: a água com gás. Tornou-se um pequeno vício, a que ele não disse que não em todos os abastecimentos daí em diante. 


Naturalmente, os acompanhantes não podiam entrar dentro da tenda do abastecimento, mas ainda trocámos umas palavras (e uns beijos!) antes e depois, tirei-lhe umas fotos e despedimo-nos. Estava quase metade da prova feita, ainda que ainda faltassem muitos e longos quilómetros... Acima de tudo, fiquei mais tranquila, porque aquela coisa de estar mais de 4 horas sem saber dele, a tentar adivinhar como a prova estaria a correr, não era para mim... 

Lá foi ele em direcção à segunda grande subida (até aos 2100 metros), e lá fui eu apanhar outro autocarro, em direcção a Vallorcine, onde terminava a grande descida depois da grande subida.

Mais uma vez, tudo super bem organizado, imenso apoio na rua, uma verdadeira festa! Aí já estávamos em França, e já foi mais fácil para mim comunicar com o Mundo e partilhar novidades. Foi muito bom sentir que havia tanta gente a torcer por ele, a acompanhar a prova e a mandar-me mensagens. Sempre que estive com ele, tentei dizer-lhe isso mesmo, para lhe passar algum ânimo (não que ele precisasse).

Fui acompanhando na app, e vi que, mais uma vez, ele perdeu imensas posições na subida... Estava com medo que o estômago tivesse voltado a fazer das suas, ou que ele estivesse a rebentar (estava sol e bastante calor). Mas a verdade é que ele chegou a Vallorcine dez minutos mais cedo do que o planeado, e vinha super animado e bem-disposto. A prova estava a correr bem, apesar de muito dura, e ele estava a adorar.

Eu juro que aqueles 5 minutos em que estive com ele de cada vez, valiam bem pelas horas de espera, só por o ver tão animado! Isso e pelos chocolates que ele andou a roubar dos abastecimentos para me trazer... Quem é que se lembra de tal coisa!? O louco...


E lá foi ele outra vez...

Sempre que ele se ia embora, eu ficava meio tonta, com aquele sorriso parvo de quem está a partilhar uma coisa tão feliz e especial, ao mesmo tempo que sente um orgulho tremendo...

O próximo abastecimento seria em Argentière, já com 44km de prova, e muito perto da nossa casa da Heidi.

A dada altura começou a chover... A chover bastante... Aqueles pingos gordos que chateiam... E eu preocupada com ele, lá no meio da montanha, já com 40km em cima, e ainda a levar com chuva...

Mas não sei o que é que lhe deu, que o homem ganhou fogo nos pés e começou a despachar-se pela montanha fora! Entre Les Tseppes (quase no topo da subida grande) e Argentière, ele ganhou 150 posições! E eu tola, a ver aquilo... A achar que ele tinha ensandecido ainda mais. Não é que ele ligue alguma coisa a isso... Ele é um corredor de meio da tabela. Às vezes, melhor, às vezes, pior. Mas a verdade é que os problemas de estômago tinham ficado para trás, ele estava super entusiasmado e a sentir-se bem. Só me contava que as subidas estavam a correr muito melhor do que esperava, e que aquilo era espectacular.


Argentière já estava. Faltava a última grande subida até La Flégère, e depois era sempre a descer até Chamonix. Faltavam 12 quilómetros! Para o bom e para o mau, a última grande subida coincidia em boa parte com o trilho que tínhamos feito no Domingo, que saía de Argentière a subir. Acho que psicologicamente o ajudou, sobretudo nesta fase, já saber o que aí vinha, já conhecer o percurso, o tipo de terreno e o que o esperava. Despedi-me dele mesmo no sítio onde começava o trilho que tínhamos feito, com um "Vemo-nos em Chamonix! Até já!".

Entretanto, ainda fui à casa da Heidi, porque nessa manhã tinha descoberto que o chuveiro estava avariado... Ora, o homem ia chegar do OCC e a última coisa que eu queria era que ele ficasse sem tomar banho!... Já imaginaram o que seria?!... Pois que lá consegui que fossem lá trocar as torneiras da banheira, e só olhava para o relógio e dizia ao coitado do rapaz que estava a fazer a reparação que tinha de me despachar, que tinha de ir para a meta em Chamonix! Num dia cabe mesmo muita coisa, certo?...

Chuveiro operacional, e lá vou eu em direcção a Chamonix.

O ambiente estava incrível! As ruas cheias de gente, uma festa imensa, barulho por toda a parte... É impossível ficar indiferente ao que se vê ali e às emoções no rosto de cada atleta que corta aquela meta... Tal como em todos os abastecimentos, fiz sempre uma festa enorme sempre que vi um português. Não eram muitos, mas eram bons (tivemos um 7º lugar e tudo!).


Eram 18h28 quando ele cortou a meta. Quase 40 minutos mais cedo que a previsão que ele mesmo tinha feito inicialmente. Fez uma segunda metade da prova absolutamente incrível, sempre a ganhar posições, sempre num bom ritmo e, acima de tudo, a sentir-se bem. Que orgulho, caramba! Foi o 629º atleta a cortar a meta, de 1474 finishers. Um resultado muito melhor do que ele esperava. Mas dentro daquilo que eu esperava, porque sabia bem o que ele tinha treinado...

Gostava mesmo que fosse ele a contar como lhe correu a prova, mas vão ter de se contentar com a minha versão.

E o que eu posso dizer é que foi um dia incrível, de mil e uma emoções, em que não parei um minuto, porque andei sempre de um lado para o outro, e quando estava em algum lado à espera dele, aproveitava sempre para mais uns aplausos, mais umas palavras de incentivo. Não foi, de todo, um dia chato ou de tédio... Foi um privilégio fazer parte de algo assim, e nem imagino o que seja um CCC ou um UTMB... A sério. Foi um dia mesmo muito emotivo, e que nunca esquecerei. Não só pelo que representou para ele, em termos de superação e de objectivo alcançado, mas por tudo o que vi e vivi.

Próximo passo... CCC? Pode ser que sim!

sábado, 21 de setembro de 2019

De Chamonix... - II - Aiguille du Midi e Mer de Glace

Uma das coisas que queríamos fazer em Chamonix era subir ao Aiguille du Midi. O Aiguille du Midi é o ponto mais alto ao qual podemos chegar "normalmente": apanhando dois teleféricos diferentes, conseguimos ir até aos 3842 metros de altitude. Mais do que isso, só mesmo fazendo alpinismo... E vimos muitos loucos ainda mais loucos do que o meu louco a fazê-lo!


Este é daqueles locais que aparece em todos os guias turísticos como algo a não perder em Chamonix, mas também é algo que divide opiniões, e que é caro. Eu não estava muito convencida, mas ele insistiu, e como acabámos por comprar o Mont Blanc Multipass (mais sobre isso, mais tarde), a coisa não ficou muito escandalosa.

Ainda assim, estávamos com alguns receios, porque o acesso lá acima está totalmente dependente das condições meteorológicas. Ora, nas semanas que antecederam a nossa viagem, as previsões não eram famosas e, muitas vezes, víamos que o acesso estava impedido... Fomos para Chamonix sabendo que o dia com o melhor tempo seria o Domingo, e não queríamos fazer a subida nesse dia por acharmos que podia ser o dia com maior afluência de turistas. Restava-nos a segunda-feira, que não sabíamos bem como ia estar. Felizmente, esteve um tempo espectacular! Céu limpo para uma visibilidade incrível, como se quer, e temperaturas à volta dos 0 graus lá em cima, o que não era nada mau.


Mas... Não bastava decidir e ir. Sabíamos que tínhamos de ir cedo, se queríamos evitar o caos. Muito cedo. E também sabíamos que não queríamos levar o carro, porque íamos começar o dia ali, mas acabar num sítio completamente diferente. Estávamos, então, dependentes do horário dos comboios (que paravam mesmo em frente à nossa Casa da Heidi). E a que horas é que tínhamos de apanhar o comboio para chegar ao Aiguille du Midi cedo? Às 6h54. Bela hora, para começar o dia!... 

O Aiguille du Midi é aquele ponto lá no alto...

O Aiguille du Midi, naquela altura do ano, abria às 7h10, e nós conseguimos chegar lá por volta das 7h30, depois de termos saído do comboio e termos ido em passo acelerado até lá (nós e todos os maluquinhos que saíram do comboio connosco...). E, pasmem-se, já estava uma fila considerável para as bilheteiras!

Mas... Quem tem boca vai a Roma, e eu usei o meu melhor francês para perguntar se, tendo o Multipass, tínhamos de estar naquela fila na mesma. Pois que não! Lá fomos nós e o Multipass já tinha valido cada euro! Eu diria que devemos ter ido no 2º ou 3º teleférico do dia, que nos levou até ao Plan de l'Aiguille (que fica nos 2317 metros). Decidimos ir logo apanhar o teleférico que nos levaria mesmo ao topo, e logo espreitaríamos este patamar intermédio no regresso.

A subida no teleférico!


Com tudo isto, chegámos ao Aiguille du Midi passavam poucos minutos das 8 e aquilo estava... Vazio! Valeu a correria, valeu o madrugar, valeu tudo... A primeira impressão, e que não tem preço, foi o silêncio daquela altitude. Sabem aqueles ruídos parasitas que ouvimos sempre todo o dia a toda a hora? Ali não há isso. Ali não há nada. E é tão, mas tão tranquilizador... A sensação é indescritível.

O primeiro impacto!


Conseguem ver os alpinistas ali na crista branca?

Lá em cima, no topo do mundo, estavam 0 graus e as vistas 360º graus para os alpes franceses, suíços e italianos eram mesmo a perder de vista. Há muita coisa para ver, há diferentes zonas com exposições diversas, há toda a história de Chamonix e do Mont Blanc enquanto estância de ski e local de culto para os alpinistas, há muita informação sobre temas como a hipoxia, para quem tenha curiosidade e queira aprender um pouco mais. Lá de cima há também uma zona de onde os alpinistas podem sair para ir em busca do cume do Mont Blanc (ou de outra coisa qualquer). É não só muito interessante vê-los a preparem-se e a equiparem-se, mas também vê-los depois já a descer, atravessar o glaciar, e começar a subir. Eu bem tentei tirar fotografias, mas eles não pareciam mais do que pequenas formiguinhas, a avançar devagar por ali acima. Definitivamente, eles são os mais loucos de todos!

Eu, com o Mont Blanc lá ao fundo. Assim nem parece tão grande!



Aqui estávamos mesmo no ponto mais alto, para onde se sobe de elevador.

Acabámos por ficar no Aiguille du Midi três horas! É verdade. Andámos lá em cima três horas inteiras, a tirar 1001 fotografias, a ver as vistas todas de todos os ângulos, a tirar uma foto no Step Into the Void (que não ficou assim nada de extraordinário, mas enfim...).


Ainda parámos para tomar um café e um chá, e comer uns frutos secos (esta malta do desporto é mesmo esquisitinha e anda com frutos secos atrás nas férias!... espera! malta do desporto!?... eu!?... ensandeci...). Curiosamente, o bar lá no topo do mundo não é tão estupidamente caro como se posso pensar (tendo em conta a logística que deve ser abastecer aquilo!). Pagámos 6,10€ por um chá e um café. Há sítios em Lisboa onde pagamos exactamente o mesmo, e não estamos num dos sítios mais incríveis do Mundo.




Chamonix lá em baixo, e os Alpes a perder de vista.




Quando nos viemos embora, aquilo já estava bem mais composto e mais agitado, pelo que tivemos a certeza de que termos madrugado foi mesmo o melhor que podíamos ter feito para usufruir em pleno de tudo o que aquele sítio tem para nos oferecer (fica a dica!). 

Ia começar a segunda parte do dia...

Apanhámos o teleférico para o Plan de l'Aiguille, e não sei dizer se é pior a descida ou a subida!... Aquilo anda mesmo depressa e acho que o melhor é mesmo não pensar muito nisso! 


No Plan de l'Aiguille há um café simpático, com uma bela vista, e as temperaturas já estavam bem mais agradáveis. Foi a altura de nos despirmos e dizermos adeus às várias camadas de roupa, e às luvas, e aos gorros. Esse foi, aliás, um dos dramas deste dia. Como íamos lá para cima muito cedo, e sabíamos que ia estar bem fresco, queríamos ir agasalhados, mas como íamos ter um longo dia pela frente, com um trilho pelo meio, não queríamos ir demasiado carregados porque depois íamos ter de andar com tudo atrás todo o dia... Não foi fácil, mas lá chegámos a um equilíbrio e descobrimos que uma pequena mochila de trail é, afinal, uma gigante mochila!




Já mais frescos, decidimos fazer-nos ao trilho. Objectivo? Chegar ao Mer de Glace!

A parte boa deste trilho era que seria maioritariamente a descer, uma vez que começava nos 2317 metros e iríamos até aos cerca de 1900 metros (até Montenvers, de onde desceríamos para o Mer de Glace). O tempo estava bom, sol e calor, excelente visibilidade, e lá fomos nós pelo Grand Balcon Nord. 

Estás a ver aquelas agulhas? É para ai que nós vamos!




Em Chamonix, basicamente, há um vale gigante onde está Chamonix e outras terras (como Argentière), e depois há as duas encostas: o Grand Balcon Nord e o Sud. Isto é uma versão muito simplista, claro, e nada técnica, mas acho que ajuda quem nunca lá foi a visualizar mais ou menos a coisa. Na véspera tínhamos andado no Sud, por isso agora era giro estarmos do lado oposto (o lado onde fica, efectivamente, o Mont Blanc), e estarmos com vista para o lado onde tínhamos andado no dia anterior. Nas fotos de cima dá para ver o caminho que tínhamos pela frente, o Mont Blanc que ficou para trás, e Chamonix lá em baixo. Na imagem seguinte dá para ver Chamonix à esquerda, a encosta toda e o Plan de l'Aiguille de onde partimos, e depois o trilho que fizemos até Montenvers. O Mer de Glace é aquele glaciar que vemos ali, nesta altura meio cinzento, mas que no Inverno está coberto de neve.


Foi um trilho muito mais calmo do que o da véspera, em que já deu para correr um bocadinho, mas pouco, que a altitude fazia-se sentir bem, e fomos a aproveitar as vistas. Foram cerca de 6km, em cerca de duas horas (mais foto, menos foto). Pelo caminho, continuámos a achar tudo super bem assinalado, e fomos sempre encontrando muita gente em ambos os sentidos. Também há quem suba até ao Plan d'Aiguille a pé, para depois pagar menos para subir até ao Aiguille du Midi.

O Mont Blanc ao meio e o Aiguille du Midi à esquerda.


Chegámos a Montenvers pela hora de almoço, já eu estava meio rabugenta, com fome, e cansada. Tínhamos acordado antes das seis da manhã, lembram-se?... Optámos por comer num café/restaurante que lá havia, com opções relativamente saudáveis e sem ser muito caro. 


Aquela coisa azul lá em baixo é a Grotte de Glace.

Descansámos um bocado, recuperámos forças, e decidimos ir então ao Mer de Glace.

Que. Desilusão.

A sério. Aquilo é incrível, e espectacular, e tudo, e tudo. Mas não correspondeu nada às expectativas que tínhamos. Além do Aiguille du Midi, o Mer de Glace era o que nós queríamos mesmo ver, e foi por isso que acabámos por comprar o Multipass. Porque o que íamos pagar para visitar estes dois sítios já justificava comprar o Multipass. O que nós não percebemos, é que o que se paga no Mer de Glace é o comboio que leva até lá (e de volta a Chamonix). A visita ao Mer de Glace, o teleférico que se tem de apanhar para descer até meio do glaciar, e a Grotte de Glace (a gruta de gelo que se pode visitar no meio do glaciar) são de acesso livre. Sentimo-nos um bocadinho enganados, confesso... 



Ainda assim, foi giro. Para chegar ao glaciar, além do teleférico, é preciso descer umas escadas com 500 degraus. E, claro, voltar a subi-las, se queremos sair dali... E foi isso que nos deixou meio desconsolados. Descemos os 500 degraus, estivemos nem dez minutos na gruta, que não tem muito para ver, e voltámos a subir os 500 degraus. Pronto. Claro que é uma experiência diferente, e acabou por ser meio marcante, porque ao longo da descida das escadas, vamos encontrando placas que nos indicam o nível do glaciar ao longo dos anos. E é assustador ver como, de ano para ano, ele vai ficando mais baixo. Não sei se daqui a 50 anos ainda haverá muita coisa para ver, por isso, quanto mais não seja por isso, ainda bem que lá fomos!...



  

De novo em Montenvers, restava-nos apanhar o comboio para regressar a Chamonix. Também é um passeio giro, em que vamos a descer por ali abaixo, vendo as vistas que são sempre incríveis e das quais não dá para uma pessoa se cansar.

Ainda demos uma voltinha por Chamonix, onde já se respirava UTMB por toda a parte, dado que neste dia foi o MCC e a partida do PTL.


O primeiro contacto com a meta, que ele ia cortar daí a 3 dias!



De rastos, apanhámos o comboio e regressámos à nossa Casa da Heidi, para um jantar mais saudável, mas bem acompanhado.



No dia seguinte, o programa seria bem mais calmo!

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