quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Dos desafios de escrita – Day 10 – Reflections...

[Read something (hint: just read one thing, don't get lost in the internet spiral) and respond to it. We spend so much time consuming information without reacting fully to it. Set a timer for 5 minutes. Search for an interesting read. Select the piece (quickly!). Read it. And react, completely, to a piece you find on the internet.]


Infelizmente, aquilo que mais ocupa a internet hoje (a nível nacional, pelo menos), é o flagelo dos incêndios que arrasam o país.

É impossível ficar indiferente. O nosso país está, mais uma vez, a ser destruído pelo fogo. Pelo fogo. Essa força imparável da natureza. Pelo fogo. Acidental ou intencional. O fogo que consome os nossos recursos naturais, que destrói as nossas casas, que acaba com vidas humanas e animais.

De cada vez que vou espreitar as notícias, fico arrepiada e de lágrimas nos olhos. Não consigo imaginar o desespero de quem vê tudo o que tem ser destruído, não consigo imaginar o pânico, a angústia. Ou, talvez (só talvez), consiga.

Há onze anos atrás (parece noutra vida...), estava na Pampilhosa da Serra quando o concelho assistiu ao maior incêndio de sempre naquela zona. Começou como uma coisa pequena, foi crescendo, foi-se alastrando, tornou-se incontrolável e arrasou toda aquela zona. 

Eu nunca tinha assistido a um incêndio, nunca tinha ouvido aquele ruído ensurdecedor, que se ouve mesmo à distância, nunca tinha visto o que é estar a quilómetros do fogo mas ver tudo ficar coberto de cinzas, nunca tinha cheirado aquele cheiro (que ainda ontem me arrepiou quando saí de casa de manhã e o senti novamente), nunca tinha tido a verdadeira noção do que é um incêndio a sério. Só estando lá. Tudo o que tinha visto na televisão não me tinha preparado para a realidade.

Fomos vendo o fogo alastrar-se, dia após dia, sem dar sossego noite após noite, fomos dar leite, água e comida aos bombeiros de todo o país que ali estavam. Fomos vendo o fogo aproximar-se de onde estávamos, sempre sem querer acreditar que se aproximaria demasiado. Achávamos impossível porque estávamos demasiado longe. Mas o incêndio não parou e chegou o momento em que a Protecção Civil mandou evacuar a aldeia onde estávamos. Chegou o momento em que pegámos nos nossos bens, regámos terrenos, paredes e casas, e partimos sem saber o que íamos encontrar quando regressássemos. 

Aquela não era a minha aldeia, mas partilhei a dor dos que estavam comigo e que a conheciam desde sempre. Parece que foi ontem. O largar tudo, o pegar no carro, o olhar para trás na última curva para uma última imagem daquela que era uma das aldeias mais bonitas que já conheci, com  a sua meia-dúzia de casas e o seu ribeiro perdido no vale.

Regressámos no dia seguinte para ver uma aldeia arrasada pelo fogo: o verde tornou-se negro. Não havia árvores, flores, relva. Só o negro. E o cheiro. E a cinza. E a fuligem. 

Durante os anos em que voltei àquela casa, senti sempre aquele cheiro. Mas durante os anos em que voltei àquela aldeia, fui vendo o verde voltar a ganhar terreno. Fui vendo as árvores voltarem a nascer, fui vendo as hortas a serem plantadas, fui vendo as flores voltarem a florir.

Porque o fogo destrói muito. Mas não destrói tudo. O fogo não destrói a nossa força e a nossa capacidade de nos voltarmos a erguer e de reconstruirmos o que foi destruído. O fogo não destrói a solidariedade a que temos assistido. O fogo não destrói a nossa vontade de ajudar quem mais precisa. E por isso, só por isso, tenho a certeza que quando estes fogos acabarem, vamos todos voltar a reconstruir o que for preciso. Porque o fogo não nos destrói a nós.

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